
Por atravessar as regiões mais castigadas pela enchente de maio de 2024, a BR-386 sofreu diversos danos que comprometeram a mobilidade na estrada. Atualmente, segundo a CCR ViaSul, dos mais de 100 pontos que chegaram a ficar interditados há quase um ano, apenas dois seguem em reparos — áreas de deslizamento em São José do Herval e Pouso Novo.
A empresa estima um prejuízo de R$ 250 milhões apenas com intervenções emergenciais após a cheia. Além disso, a ponte sobre o Rio Taquari permanece em obras. Mesmo afetado pela cheia, o local não é considerado relacionado à catástrofe pela concessionária.
Entre 19 e 21 de março, Zero Hora percorreu os quase 400 quilômetros da rodovia e verificou a situação dos trechos.
Ponte do Rio Taquari
Embora a empresa não considere um problema diretamente causado pela enchente, por ter ocorrido quatro meses depois, a interdição da ponte sobre o Rio Taquari, entre Lajeado e Estrela, é hoje o pior gargalo de trânsito da rodovia. O trecho fica no meio do caminho entre a Região Metropolitana e o norte gaúcho.
A estrutura, que já passava por reparos por conta das duas enchentes, de setembro de 2023 e maio de 2024, teve a pista norte, no sentido Capital-Interior, interditada no último mês de setembro.
Na época, a empresa identificou risco de colapso na estrutura, sendo necessário reforçar a base da ponte. Com isso, o trânsito passou a fluir em meia faixa, pela pista sul, nos dois sentidos. Como o afunilamento, filas de veículos se formam durante todo o dia. Durante os horários de pico, a espera varia de 30 minutos a uma hora.
Vera Lúcia da Silva utiliza a ponte para ir de Estrela e Lajeado a pé e diz que a demora para a liberação afeta toda a comunidade, atrapalhando a rotina da população.
— Está muito demorado para eles liberarem essa ponte, demais. Tem pessoas que estão até desistindo de trabalhar. Tem dias que a pessoa tem que vir trabalhar e acaba não vindo por causa da ponte — reclama.
Na última semana, a concessionária realizou testes com liberações parciais para averiguar se a estrutura consegue suprir a capacidade de fluxo novamente. Um estudo está sendo elaborado para determinar se a pista já pode ser liberada. O resultado deve sair ainda nesta semana. No entanto, as obras devem seguir.
Paralelo aos reparos, a concessionária realiza também a implementação de uma terceira faixa na ponte. Os trabalhos, que contemplam também a chamada ponte seca, logo antes da ponte maior, para quem vai a Lajeado, devem ganhar ritmo após o fim da interdição. O projeto prevê ainda a construção de uma nova passarela. A previsão é de conclusão ainda para 2025.

Recuperação após deslizamentos
A concessionária afirma que está atuando em dois trechos onde houve deslizamentos de terra. Um deles no quilômetro 288, em São José do Herval, e outro no quilômetro 308, em Pouso Novo. No primeiro, a reportagem não identificou problemas. Já no segundo, há uma restrição de faixa no sentido Interior-Capital. A intervenção gera uma lentidão pontual, mas não é motivo de grandes congestionamentos.
Foi justamente em Pouso Novo onde ocorreu um dos maiores transtornos no trânsito da rodovia por conta da enchente. O trecho do quilômetro 298, tomado pela água e totalmente bloqueado, teve a liberação total no início de fevereiro. Até então, o fluxo estava operando no sistema "pare e siga", causando lentidão diariamente. Com a liberação, o deslocamento nesse segmento se tornou mais fácil.
— Embora agora já esteja resolvido, naqueles dias, os atrasos eram imensos. Quando as rotas alternativas foram consideradas, o custo e o tempo extras eram inviáveis. A única opção viável foi uma rota alternativa pela Santa Cruz do Sul, passando por Herveiras, Barros Cassal e Soledade, o que aumentou bastante a distância — relembra o diretor jurídico da Expresso Leomar, Alexandre Leomar, que possui uma transportadora na região.

Cicatrizes da enchente
Percorrendo a rodovia, é possível notar outros resquícios das enxurradas. No quilômetro 361, em Estrela, parte de um guarda-corpo desabou e parte do asfalto cedeu no acostamento. Até a última sexta-feira (24), o trecho não havia sido restaurado. Foi colocada uma rede de proteção no local.
Para o comerciante Alexandre Miller, a situação representa um risco para os condutores.
— Caso alguém tenha que fazer alguma manobra mais brusca, com certeza vai cair para baixo, vai despencar. Tanto é que o asfalto já está cedendo. Isso se torna um perigo para quem passa aqui — conta.
A CCR ViaSul afirmou que monitora constantemente o local e até o momento não identificou riscos à segurança e fluxo da rodovia, mas que irá intervir caso necessário.