
O primeiro Scolari ilustre que se tem notícias foi o papa Clemente III, nascido Paolo Scolari. Apesar de curto, seu papado de quase quatro anos ganhou notoriedade por organizar a terceira cruzada para a reconquista da Terra Santa. Quase um milênio depois, um longínquo descendente foi responsável por coordenar uma campanha para a reconquista do reinado do futebol perdido em 1998.
Luiz Felipe Scolari assumiu uma Seleção Brasileira, uma religião do futebol mundial, em polvorosa. A missão inicial era mantê-la como a única equipe a disputar todas as edições da Copa do Mundo.
O 2 a 0 na final da Copa de 2002 sobre a Alemanha completa 20 anos em 30 de junho. Desde sexta-feira (24) até o aniversário do Penta, GZH publicará uma série de conteúdos especiais que contam a trajetória do time brasileiro rumo à apoteose do futebol mundial.
Hoje, relembre os técnicos que estiveram à frente do Brasil entre 1998 e 2002, um período de dificuldades dentro e fora de campo.
O cenário
Eram tempos ásperos na CBF. Não por falta de pé de obra qualificada, os jogadores de gabarito ainda jorravam pelo Brasil, mas pela pouca credibilidade da entidade máxima do futebol brasileiro. Em um período de três anos, a Seleção Brasileira perdeu uma final de Copa do Mundo com o principal jogador sofrendo uma convulsão horas antes da partida, um banquete para a criação de teorias da conspiração e de duas CPIs (da Nike e do futebol).

Nada que não pudesse piorar. No período, o técnico Vanderlei Luxemburgo foi acusado de falsidade ideológica e enfrentou problemas com o fisco. Emerson Lesão, seu substituto, foi demitido no aeroporto antes de uma viagem de retorno ao Brasil que durou 30 horas. A tudo isso acoplava-se o risco de ficar pela primeira vez fora de um Mundial. Apesar do cenário, Felipão aceitou o desafio de treinar o time um ano antes do início do torneio na Coreia e no Japão.
Era Luxemburgo

Não foram quatro anos apenas de espinhos. Houve momentos de brilho na Era Luxemburgo. O técnico assumiu o time após a Copa de 1998 e seguiu à frente do Corinthians até o fim do ano, conquistando o Brasileirão. Dos 16 jogadores utilizados na estreia de Luxa, 23 de setembro de 1998 (empate em 1 a 1 com a extinta Iugoslávia), somente Cafu, Vampeta, Rivaldo e Denilson estiveram presentes em Yokohama e colocaram a mão na taça.

O auge dos dois anos do treinador foi na Copa América de 1999, com goleada por 3 a 0 sobre o Uruguai, uma campanha de 17 gols marcados e dois sofridos. É verdade que os adversários montaram times alternativos enquanto o brasileiro tinha em campo a maioria de seus principais nomes. Outro ponto alto foi a vitória sobre a Argentina por 4 a 2, em amistoso em Porto Alegre.
Nada indicava uma derrocada. Mas em 2000, Luxa teve problemas extra-campo, sendo acusado de falsificação de documentos e de sonegação fiscal. A campanha nas Eliminatórias estava longe do ideal. As Olimpíadas de Sidney seriam definitivas para o futuro do treinador.
Nos Jogos Olímpicos, Luxa optou por não convocar jogadores acima dos 23 anos. Apesar de ter um time com Alex e Ronaldinho, o Brasil caiu nas quartas de final para Camarões. Os detalhes deixam a situação mais dramática. Na primeira fase, derrota para a África do Sul por 3 a 1. Nas quartas, empate em 1 a 1 com os camaroneses e derrota na prorrogação com morte súbita.
No tempo normal, Ronaldinho, com gol aos 49 do segundo tempo, apenas prolongou a agonia brasileira. Com dois jogadores a mais, a Seleção abusou de impedimentos e pagou o preço dos erros ao sofrer gol de Modeste M’Bami. Naquele instante, a Era Luxemburgo começava o seu funeral.
O futebol bailarino de Emerson Leão
Nas Eliminatórias, a situação não era a ideal. Quarto colocado, o Brasil tinha 14 pontos e era dono da última vaga direta para a Copa. A Argentina liderava com 19 pontos. Candinho, auxiliar de Luxemburgo, comandou interinamente a equipe no 6 a 0 sobre a Venezuela.

Os mais cotados para o cargo eram Carlos Alberto Parreira (Atlético-MG) e Luiz Felipe Scolari (Cruzeiro). O escolhido para recolocar a Seleção nos eixos foi Emerson Leão, então técnico do Sport. Em 1999, havia treinado o Inter na reta final do Brasileirão, evitando rebaixamento em jogo contra o Palmeiras de Felipão. Na virada do ano, trocou o Beira-Rio pelo Olímpico, mas o trabalho no Grêmio durou pouco meses.
— Gosto das nossas raízes. Quero a Seleção jogando um futebol alegre, ofensivo, bailarino e com responsabilidade — destacou Leão em sua apresentação, em 19 de outubro.
O primeiro entrevero foi com o STJD. Leão estava suspenso por ter xingado o juiz gaúcho Fabiano Gonçalves na partida entre o Sport e Vitória. A pena se extinguiria um dia depois da partida diante da Colômbia pelas Eliminatórias. Derrota no tribunal, mas vitória em campo.
O preparador de goleiros Pedro Santilli comandou o time à beira do gramado do Morumbi no 1 a 0 sobre os colombianos, em 15 de novembro de 2000. Oito jogadores daquela partida sobreviveram na Seleção até o penta.
Antes de embarcar para a Copa das Confederações de 2001, a Seleção estava imóvel nas Eliminatórias. Seguia em quarto lugar com 21 pontos, dois a menos do que a Colômbia e oito atrás da líder Argentina.
A CBF estipulou que o torneio não teria os jogadores que atuavam nos principais clubes da Europa e do Brasil. A limitação criou um mostrengo. Aqueles dias de maio e junho de 2001 ficaram conhecidos como a Era Leomar. O volante do Sport foi escolhido para ser capitão. Ainda assim, Leão contava com Lúcio, Vampeta e Dida. Vitória sobre Camarões, empate com o Canadá e Japão, eliminação para França na semifinal e derrota na disputa do terceiro lugar para a Austrália sacramentaram a demissão do treinador antes da viagem de volta.
— Nós perdemos a Copa (das Confederações) porque o presidente (Ricardo Teixeira), aquele que tá para ser preso da CBF, na época não autorizou convocar jogadores estrangeiros e de nenhum de time grande do Brasil. Que fosse um quarto time. Que era um campeonato de “m….”, segundo ele — disparou Leão anos depois.
Era Felipão

O futebol apresentado esteve longe de ter a leveza de um bailarino. Em 11 jogos, o time marcou 12 gols. Mesmo assim, a CBF optou por um profissional de um viés mais defensivo.
Em 11 de junho de 2001, a bronca para assumir o Brasil passou a ser de Felipão, encerrando seu vitorioso trabalho no Cruzeiro. O gaúcho tinha seis jogos nas Eliminatórias para evitar o pior. Assim como Luxemburgo, com os Jogos Olímpicos, Leão, com a Copa das Confederações, Felipão teve um torneio para complicar sua vida. Ainda no início do trabalho, a Seleção foi Eliminada por Honduras nas quartas de final.

Com muito suor, sofrimento e dor, a classificação para o Penta foi conquistada na última rodada. Antes de enfrentar a Venezuela, o treinador contabilizou derrota para o Uruguai (1 a 0), vitória sobre o Paraguai ( 2 a 0), em Porto Alegre, derrota para a Argentina (2 a 1), vitória sobre o Chile (2 a 0) e derrota para a Bolívia (3 a 1) — aproveitamento pior que os de Luxemburgo e Leão. A sequência fez o Brasil chegar a São Luís-MA ainda no quarto lugar com 27 pontos, um a mais que o Uruguai, o quinto, e 15 a menos que a líder argentina.
— É uma obrigação nossa, mas todos os brasileiros devem ficar satisfeitos quando nos classificarmos — argumentou o treinador na véspera do jogo.
Com dois gols de Luizão e um de Rivaldo, a goleada por 3 a 0 classificou o Brasil para a Copa. Na convocação final, o par de gols do centroavante não foi esquecido por Scolari, um técnico abençoado por um parente bem distante.

