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O susto recebido no primeiro turno forçou uma revisão geral da campanha de Eduardo Leite (PSDB) ao governo do Rio Grande do Sul. Já nas horas seguintes à contagem dos votos, teve início uma profunda discussão para correção de rumos, culminando com o discurso desta sexta-feira (7), no qual o tucano anunciou neutralidade na eleição presidencial.
A postura reflete uma inflexão da campanha, que descarta preferência na disputa entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mas foca num confronto aberto com Onyx Lorenzoni (PL). O ajuste no discurso serve não só para justificar o distanciamento da polarização, mas para também manter a coerência com a trajetória política de Leite.
— Não faria sentido dar uma guinada. E a razão para ele não tomar posição é o Rio Grande do Sul, e não um cálculo eleitoral. Tem duas eleições no fim do mês, com lógicas diferentes, e a eleição do Eduardo é para o governo do Estado. O Eduardo sempre foi de centro, ele governou assim porque tem essa visão de mundo — afirma o publicitário Fábio Bernardi, coordenador do marketing da campanha.
Veja a seguir qual será a estratégia do tucano para o segundo turno em cinco áreas da campanha:
Propaganda
Leite adota um novo conceito no segundo turno. Com o slogan “O Rio Grande fala mais alto”, a propaganda vai centralizar o foco no Estado, procurando desviar do debate nacional proposto por Onyx. Para se contrapor ao verde e amarelo e às bandeiras do Brasil que simbolizam a campanha adversária, o tucano investe na bandeira do Rio Grande do Sul e nas cores do Estado, verde, vermelho e amarelo. A proposta visa manter os 1,4 milhão de votos que Leite conquistou de bolsonaristas e lulistas no primeiro turno, expandindo a votação para quem enxerga nele uma alternativa conciliadora à reprodução, no Estado, da extremada disputa presidencial.
Alianças
Para virar a eleição, Leite aposta mais nos eleitores do que nos partidos. A visão é pragmática, em função de que o espaço ideológico para composições é exíguo no segundo turno. Entre as siglas relevantes, o tucano conseguiu atrair duas de esquerda, PDT e PSB. Ao centro, Leite obteve o apoio do Solidariedade, de menor reflexo eleitoral. À direita, havia esperança de conquistar o PP, que fechou com Onyx, mas Leite tem expectativa de contar com dissidências importantes. Como um acordo programático com o PT seria impossível – e afastaria seus eleitores bolsonaristas –, o tucano espera herdar a maioria dos 1,7 milhão de votos dados a Edegar Pretto no primeiro turno.
Discurso
No primeiro turno, Leite já havia se apresentado como um candidato moderado e conciliador, que governava para a esquerda e para a direita. Agora, a ideia é reforçar essa postura, fugindo da polarização nacional ao destacar que a eleição coloca em jogo o futuro do Estado, e não uma disputa entre direita e esquerda. Leite vai adotar também um forte acento crítico a Onyx, comparando trajetórias e realizações. O tucano vai lembrar o uso de caixa 2 eleitoral admitido pelo adversário nas eleições de 2012 e 2014, desmentir ataques que ficaram sem resposta no primeiro turno e atribuir ao despreparo para gestão pública a passagem de Onyx por quatro ministérios no governo Bolsonaro.
Agenda
Diante de um mapa do Estado rachado ao meio ideologicamente, Leite vai percorrer os principais redutos da esquerda e da direita. A ideia é visitar a Metade Sul, onde o PT colheu vitórias na maior parte dos municípios com forte vocação para o agronegócio. Leite pretende ir a Bagé, por exemplo, cidade governada por aliados de Onyx e onde o PT venceu a disputa ao Senado, ao governo e à Presidência. A Serra e a Metade Norte, mais industrializadas e com hegemonia bolsonarista, também receberá atenção especial, com agendas voltadas para a vocação econômica da região. Há preocupação com não descuidar da Região Metropolitana, por conta da maior densidade eleitoral.
Redes sociais
Não haverá grandes mudanças na estratégia para as redes sociais. As publicações irão respeitar o novo conceito da campanha, focado nas cores do Estado e na discussão dos problemas locais, sem abrir mão da ofensiva a Onyx que toda propaganda terá neste segundo turno. O objetivo é manter a liderança no engajamento, conquistada na reta final do primeiro turno. Até então, Onyx tinha maior popularidade digital, sobretudo graças à interação com conteúdos de Jair Bolsonaro. Para alavancar o alcance, as equipes do tucano estão preparando peças com potencial de viralizar nas redes, principalmente pelo tom crítico a Onyx.