Por muito tempo, o universo cervejeiro esteve voltado aos homens. Eram eles que comandavam as grandes cervejarias. Porém, historicamente, isso nem sempre foi assim. As mulheres foram as primeiras a alcançar a fórmula ideal da cerveja.
Há mais de sete mil anos, por serem encarregadas das atividades domésticas, eram as responsáveis por produzir a cerveja. Apenas quando a bebida deixou de ser uma tarefa do lar, elas perderam o seu papel como cervejeiras.

Para resgatar e reafirmar o papel feminino nesta história, Roberta Pierry e Michele Vieceli, proprietárias das cervejarias Sapatista e Da Luz, respectivamente, se uniram para criar um bar que, além de fomentar a cerveja artesanal, fosse a materialização de um sonho mútuo: um espaço de empoderamento feminino, onde mulheres se sentissem seguras.
A busca pela representatividade no universo cervejeiro acompanha Roberta muito antes do Ninkasi nascer. Em 2019, criou a Sapatista com o intuito de homenagear as mulheres com rótulos que carregam nomes de personalidades feministas, como Maria da Penha e Olga Benário.
– Além disso, o nome diz muito sobre a minha identidade enquanto mulher lésbica, então a marca também veio para chamar atenção para a comunidade LGBTQIA+ – conta a cervejeira.
No mesmo ano em que começou a produzir cerveja para comercializar, Roberta participou de dois concursos e, no primeiro já ganhou medalha de ouro. Isso fez com que o público passasse a reconhecer ainda mais a marca.
— Para mim, qualidade é uma obrigação, não um diferencial. Ainda mais sendo mulher no meio cervejeiro. A gente sabe que tem que se esforçar muito mais. E isso é uma coisa que eu bato muito: não vou vender por vender, vou vender cerveja boa — ressalta.

Em 2020, Roberta conheceu Michele, proprietária da Da Luz, e decidiram criar um festival que pautasse o protagonismo feminino e desse visibilidade a outras cervejarias de mulheres. A parceria se fortaleceu, e, juntas, consolidaram o propósito que foi além de um único evento.
Acompanhando o movimento de outros dois bares que estavam abrindo na Rua João Alfredo — o Fermentador, da cervejaria Zapata, e o Le Mule —, elas decidiram dar vida à casa de número 557, em outubro de 2021. Os novos espaços se uniram em um movimento para trazer frequentadores de volta à região que já foi uma das mais badaladas da Capital.

– A gente se dá muito bem com o pessoal dos bares aqui do lado e decidimos fazer isso juntos. Trazer o pessoal de volta e fazer da João Alfredo um polo cervejeiro. Fomos unindo forças para fazer isso aqui mudar e transformar em uma área segura de novo – ressalta Roberta.
Por terem nascido no meio da pandemia, assim como vários empreendimentos, o bar sofreu com a falta de público em vários momentos, mas um dos motivos que não as fizeram pensar em desistir foi acreditar na causa e no propósito que o Ninkasi tem. Além disso, Roberta avalia que a receptividade do público foi melhor do que elas esperavam.
— Além de muitos elogios sobre a qualidade das comidas e das cervejas, o que a gente mais ouve são as mulheres falando que precisavam de um lugar como o Ninkasi, onde se sentem seguras — lembra.
Roberta conta que a demanda por produtos feitos por mulheres cresce substancialmente durante o mês de março em função do Dia Internacional da Mulher e quase não dão conta de tanta procura. Mas, nos outros meses, o cenário é outro.
— Parece que agora todo mundo lembra e depois não se fala mais. A gente tem que apoiar e falar disso sempre. Existimos e resistimos todos os dias do ano, não só em 8 de março — afirma.
Durante toda a conversa, o olho de Roberta brilhava ao falar da filha Ninkasi, como ela chama, e faz questão de ressaltar que o bar valoriza o protagonismo das mulheres, mas é um espaço para todos.
— Que a gente consiga chegar em uma sociedade mais justa e, dentro disso, ajude a quebrar preconceitos, seja com mulher, com negros e todas as minorias. É o pedacinho de uma luta, que vem acompanhada de outra. Que as pessoas sejam vistas como pessoas, independentemente de gênero, raça, orientação sexual ou classe. Isso nos move — conclui.
SOBRE O NINKASI

Em um ambiente descontraído e com bebida boa, o bar conta com nove torneiras que se dividem entre cervejas da Sapatista, da Da Luz e uma reservada para convidados sazonais. O menu preparado pela chef Clau Santos conta com opções para todos os gostos, com carne, veganas e vegetarianas. Um dos destaques da casa é o bolinho de feijão recheado com couve refogada e molho de pimenta. O Ninkasi abre de terça a sábado, e todos os dias tem alguma programação diferente, como karaokê e música ao vivo.
Rua João Alfredo, 557, no bairro Cidade Baixa
@ninkasi_bar_poa