Há algumas variações de abordagem para aqueles que se entregam ao exercício da crônica. Há os opinativos cheios de dados e informações, os que desdobram uma opinião desconcertante até onde ela resistir, os que tecem um labirinto lírico em que uma borboleta voando pode se estender por três textos em sequência. E há os que fazem do texto uma reflexão que vai se construindo aos poucos, um tatear cuidadoso em busca de ângulos inusitados. É a este último tipo que pertence a maior parte dos textos de O Lacaniano de Passo Fundo, livro de crônicas que o escritor e psicanalista Mário Corso lança neste sábado pela manhã, em Porto Alegre.
Corso já publicou, solo ou em parceria com a mulher, a também psicanalista Diana Corso, ensaios como Fadas no Divã: Psicanálise nas Histórias Infantis (2005) e Terra do Nunca: Ensaios sobre a Fantasia (2010) e infantis como A História Mais Triste do Mundo (2014). O Lacaniano de Passo Fundo é sua estreia em coletâneas de crônicas, e reúne oito dezenas de textos publicados na imprensa, inclusive em Zero Hora, em que Corso é colunista. É um conjunto no qual prevalece a observação do comportamento humano numa tentativa de pensar além do senso comum.
O primeiro texto, por exemplo, brinca com a ancestralidade italiana do autor, satirizando uma nostalgia de nobreza de muitos descendentes de europeus no Brasil: "Vez que outra, lá pelas tantas, alguém puxava o assunto: o que tua família fazia na Itália? E então eram lembradas tradições, profissões, terras e uma pompa que de forma alguma combinava com os imigrantes aqui aportados".
Psicanalista de formação e prática, Corso também não se furta a manejar alguns conceitos de sua área, apresentando-os no contexto de uma discussão mais ampla sobre vidas, afetos, relações e complexidades humanas. Ao se debruçar sobre o futebol, argumenta por que, como afirma o título do texto, Todo Torcedor é Bipolar: "A lógica do torcedor é simples e direta: só se move pela hipérbole, pela grandiosidade, pelos extremos. Ou ele está rumo a disputar o mundial interclubes, ou sente que o chicote do destino o empurra para a segunda divisão."
Em outro artigo, Aceite-me Como Sou, ele discute a toxicidade emocional das pessoas que se recusam a mudar durante um relacionamento, e escreve: "Um dos mais enganosos conceitos da psicologia é o narcisismo: a primeira ideia que nos vem é de alguém que se enfeita, que quer chamar a atenção. Não necessariamente: aquele que se arruma para convocar a visão do outro sabe que não é perfeito e precisa de retoques. O verdadeiro narcisista acredita que sua natureza já é irretocável."
No final do livro, há ainda uma "entrevista" fictícia com o "Lacaniano de Passo Fundo" que dá título à obra, um personagem imaginário que homenageia e ao mesmo tempo subverte o clássico Analista de Bagé criado por Luis Fernando Verissimo.
O LACANIANO DE PASSO FUNDO
Mário Corso
Crônicas. Arquipélago Editorial, 208 páginas, R$ 39,90.
Sessão de autógrafos sábado, às 11h, no Baden Café Especiais (Rua Jerônimo de Ornellas, 431).