
Nesta quinta-feira (8), tem estreia prevista em Porto Alegre de O Animal Cordial, primeiro longa-metragem da cineasta baiana Gabriela Amaral Almeida, e também anunciado como o primeiro slasher movie – subgênero do terror caracterizado pelo uso de violência gráfica extrema – dirigido por uma mulher no Brasil. O filme desenvolve uma história na qual desejo e hierarquia social se embaralham em uma alegoria sobre os impasses sociais brasileiros. Em entrevista à GaúchaZH, Gabriela falou sobre a ascensão do cinema de gênero do país, a escolha do elenco de seu longa - que conta com nomes como Irandhir Santos, Murilo Benício e Camila Morgado -, a participação no Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa) - no qual levou para casa o prêmio de Melhor Diretora - e outros assuntos.
Nos seus curtas anteriores sempre esteve presente uma dimensão de suspense e quase surrealismo, mas nunca um terror de violência gráfica explícita como em O Animal Cordial. O que fez você apostar no slasher em seu primeiro longa?
Não foi bem uma aposta. Foram os personagens que pediram isso. Eu sempre começo escrevendo pelos personagens e nunca pela estrutura. Então não é como se eu quisesse fazer um slasher, é que o drama desses personagens me conduziu ao slasher naturalmente. Os conflitos vão criando a estrutura. Não é algo que eu tenha adicionado após os personagens.
Sobre a escolha do elenco, é uma das coisas que mais chamam a atenção no filme. Eles se encaixaram muito bem nos papeis, mesmo com estilos bem diferentes. Como foi a escolha?
Desde o início eu pensei neles. Eu apresentei esse projeto pro Rodrigo Teixeira e, ainda na sinopse, ele foi sugerindo nomes, eu fui sugerindo nomes, e a partir desses nomes fui compondo os personagens. O Irandhir (Santos) é um ator com quem eu queria trabalhar desde o meu primeiro curta, Náufragos (2010, codirigido com Matheus Rocha). A escolha (do elenco) foi uma negociação artística com o Rodrigo.
Como foi essa parceria com o produtor Rodrigo Teixeira?
É uma parceria que já existe há algum tempo. Eu cooescrevi o roteiro do Enquanto Era Vivo do Marcos Dutra e desde então eu e Rodrigo tínhamos a vontade de fazer meu primeiro filme. Foi uma coisa que surgiu lá trás com essa colaboração e caminhou naturalmente para o desenvolvimento de O Animal Cordial.
O diálogo no início do longa entre o patrão, os empregados e os clientes me lembrou muito alguns curtas seus, como A Mão Que Afaga, por exemplo, e a maneira como a personagem da Luciana Paes se relaciona com o mundo. Como funciona a criação desses diálogos em que uma fratura social parece ficar muito em evidência?
É através do diálogo que os personagens no cinema surgem, diferente da literatura, que se tem a figura do narrador que apresenta a ação. Na dramaturgia, ele é essencial para você trabalhar a apresentação e o desandamento dos personagens. E o desandamento de muitas coisas que os personagens não são nem conscientes sobre si mesmos. Os personagens que me interessam são aqueles que não tem as coisas resolvidas dentro de si. Para isso que serve a jornada que eles vão enfrentar, para torná-los conscientes de quem eles são. Os diálogos servem para internar essa cegueira que eles vivem no cotidiano, que mais cedo ou mais tarde vai ser posta em questionamento.
O título do filme faz referência ao conceito de Sergio Buarque de Hollanda do brasileiro como um homem cordial, mas ele parece operar uma mudança que contradiz o proprio conceito, quando substitui a palavra homem pela animal. Qual o proposito dessa relação?
Foi uma relação inconsciente em um primeiro momento, quando eu me vi diante da narrativa crua sobre encenação social. Até porque não tem nada mais encenado do que bons modos, então me veio esse título O Animal Cordial, que faz referência de uma forma irônica. É impossível você ser esse homem cordial - e esse nome cordial é uma espécie de disfarce para manter as instituições de poder e mando. O título O Animal Cordial descontrói isso. É impossível ser animal e cordial, uma palavra anula a outra.
Em se tratando de cinema de horror, parece estar havendo um boom nacional, com uma série de produções recentes lançadas ou com estreia prevista para breve. Como você avalia essa ascensão do gênero e a relação com o público brasileiro?
A ascensão do horror é inevitável na época de ansiedade em que vivemos, o gênero tende a refletir isso. É talvez o gênero que melhor capta e que torna alegórico o medo que a gente tem, a angústia que a gente sente. E a relação com o público ainda está em construção. É como se a gramática do terror nacional que se pratica hoje estivesse em construção. A relação com o público é uma área ainda a ser conquistada, mas do ponto de vista da realização eu acho que tá cada vez mais fértil.
Por vezes o horror é tido como um gênero escapista. Mas o que a gente vê nesses recentes lançamentos é uma narrativa que, pelo contrário, não quer escapar de nada. Como você avalia essa tendência?
O horror sempre quando analisado retroativamente tem tudo menos escapismo. Na história dele. Mesmo que ele gere muitos filmes de mainstream, porque a narrativa dele opera em uma chave anímica e de sensação, que torna os produtos oriundos desse gênero palatáveis e vendáveis. Mas isso não impede a existência de narrativas mais complexas, e isso está ao longo da história do próprio gênero. Não é algo que estamos inaugurando.
O Animal Cordial foi premiado no Fantaspoa desse ano. Você já conhecia o festival?
Já conhecia, mas nunca tinha ido. Eu adorei a seriedade com que os filmes são tratados, o cuidado da curadoria, o público que consome e vai ao festival. É um público que já vai assistir ao filme sem preconceito. Já entende a gramática do gênero do horror brasileiro, já entende da história. Eu acho um festival bem interessante e importante nesse momento.
Tu acabou de lançar O Animal Cordial e já está se preparando para a estreia de outro longa, A Sombra do Pai. São dois filmes em um período bem curto de tempo. Há uma relação entre eles?
A Sombra do Pai deveria ser meu primeiro longa, que é um projeto que eu tenho há mais tempo, mas a captação de recursos dele por ser toda pública, através de editais, tardou um pouco a ser feita. Enquanto ela tava sendo feita, eu apresentei o projeto de O Animal Cordial para o Rodrigo Teixeira e a gente realizou filme. Em sequência, o orçamento do A Sombra do Pai foi liberado, então foi uma feliz coincidência.



