
O horror no Brasil é um gênero em ascensão. Em 2018, foram lançados títulos de destaque como As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, com a fábula de um lobisomem inserido no cenário de um país com desigualdades extremas. E amanhã tem estreia prevista em Porto Alegre de O Animal Cordial, primeiro longa-metragem da cineasta baiana Gabriela Amaral Almeida, e também anunciado como o primeiro slasher movie – subgênero do terror caracterizado pelo uso de violência gráfica extrema – dirigido por uma mulher no Brasil. O filme desenvolve uma história na qual desejo e hierarquia social se embaralham em uma alegoria sobre os impasses sociais brasileiros.
O longa valeu o prêmio de melhor ator para Murilo Benício no Festival do Cinema do Rio em 2017, e foi destaque também no Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa) de 2018, conquistando os troféus de melhor direção e atriz (Luciana Paes). A trama se passa em uma única noite dentro de um restaurante de classe média alta em São Paulo. No fim do expediente, dois assaltantes entram no estabelecimento e rendem o dono, o cozinheiro, uma garçonete e três clientes.
O longa cresce quando a tensão social surgida dos diálogos bem escritos pela diretora, que já havia mostrado esse talento no premiado curta A Mão Que Afaga (2012), é bruscamente interrompida pelo assalto. A partir daí, um embate entre civilização e barbárie traz à superfície àqueles conflitos latentes do diálogo inicial, escondidos pela cordialidade, pelos “bons modos” nas relações do patrão com o empregado, do rico com o pobre, do homem com a mulher, do branco com o negro.
Personagens complexos pedem atores competentes. O Animal Cordial traz no elenco Luciana Paes como Sara, a fiel garçonete que tem uma evolução notável durante a trama; Murilo Benício, como Inácio, dono do estabelecimento, é quem melhor traduz as angústias e pulsões do brasileiro médio; Ernani Moraes, Jiddú Pinheiro e Camila Morgado interpretam, respectivamente, os fregueses Amadeu, Bruno e Verônica; e Irandhir Santos vive o cozinheiro Djair, que protagoniza uma cena antológica com o personagem de Benício.
Produção esmerada e boa trilha sonora

A trilha sonora não deixa por menos. Rafael Cavalcanti brilha na utilização de sintetizadores para marcar o ritmo de suspense e horror. A produção traz o nome de Rodrigo Teixeira, profissional que despontou no cenário cinematográfico internacional. A RT Features, produtora de Teixeira, ficou conhecida por ajudar a bancar títulos de sucesso como A Bruxa (2016), de Robert Eggers; Quando Eu Era Vivo (2014), de Marco Dutra; o oscarizado Me Chame Pelo Seu Nome (2018), de Luca Guadagnino; e o cult Frances Ha (2013), de Noah Baumbach.
Com a RT Features, Gabriela Amaral Almeida ainda deve lançar seu segundo longa-metragem, A Sombra do Pai, que será exibido em setembro no 51º Festival de Brasília. O projeto participou dos laboratórios de roteiro, direção, música e desenho de Som no Sundance Institute, nos Estados Unidos, onde contou com a consultoria de Quentin Tarantino, Marjane Satrapi, Ed Harris e Robert Redford, entre outros bambas do ramo.
