Às vésperas da assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que o Brasil abre por tradição criada pelo gaúcho Osvaldo Aranha, o próprio presidente Jair Bolsonaro havia afirmado que falaria sobre hidrogênio verde, em especial os projetos já em desenvolvimento no Nordeste.
Em discurso lido, portanto cuidadosamente preparado, o presidente candidato à reeleição entregou o que havia anunciado, sem abrir mão do discurso ideológico e da campanha eleitoral.
Afirmou que o Brasil começou sua transição energética "há meio século". Foi uma referência à criação do Proálcool, criado em 1975. Como não esclareceu isso no pronunciamento, pode ter deixado os ouvintes confusos. Só mencionou que, hoje, o país tem uma "indústria biocombustíveis moderna e sustentável, que contribui para a matriz energética mais limpa entre os países do G20".
Também mencionou os projetos de hidrogênio verde que se concentram no Nordeste. O motivo é a localização estratégica para exportações à Europa. Em seguida, provocou exatamente esses parceiros ao condenar as sanções europeias à Rússia, dizendo que essas medidas provocam uma crise energética global. Nada que não esteja em discussão na própria Europa, mas é uma estratégia diplomática duvidosa, para dizer o mínimo. E fez uma frase que será lida com sobrancelhas levantadas por esses mesmos investidores:
— É fundamental que, ao cuidarmos do meio ambiente, não esqueçamos das pessoas: a região amazônica abriga mais de 20 milhões de habitantes, entre eles indígenas e ribeirinhos, cuja subsistência depende de algum aproveitamento econômico da floresta.
O problema, nesse caso, está no modelo de "aproveitamento econômico da floresta". O que existe hoje é garimpo e desmatamento ilegal, sem condenação explícita nem combate visível do governo Bolsonaro. As iniciativas de bioeconomia, ou seja, da obtenção de renda com a floresta em pé, não foram mencionadas.
E o presidente candidato à reeleição usou novamente um cenário presidencial para a campanha eleitoral, ao dizer que faz parte do "Brasil do passado" a "corrupção sistêmica que existia no país", obrigando emissoras a tirar do ar o pronunciamento para não incorrer em quebra de regras:
— Somente entre o período de 2003 e 2015, onde (sic) a esquerda presidiu o Brasil, o endividamento da Petrobras por má gestão, loteamento político em e desvios chegou a casa dos US$ 170 bilhões de dólares. O responsável por isso foi condenado em três instâncias por unanimidade. Delatores devolveram US$ 1 bilhão de dólares e pagamos para a bolsa americana outro bilhão por perdas de seus acionistas.
Pouco antes de Bolsonaro falar na ONU, o fundo soberano da Noruega, maior do mundo desse tipo, com US$ 1,2 trilhão em recursos — na maior parte obtidos com receitas da venda de petróleo —, avisou que todas as companhias nas quais investe precisam ter zero emissão líquida de gases de efeito estufa até 2050, como prevê o Acordo de Paris.
Na semana passada o Parlamento Europeu aprovou, 453 a 53 votos, a proposta que proíbe a venda de produtos proveniente de áreas desmatadas em qualquer parte do mundo. Para entrar em vigor, a norma ainda precisa ser aprovada nos 26 parlamentos nacionais, mas as primeiras estimativas apontam que 80% da pauta de exportações do Brasil à União Europeia poderia ser afetada.