Espremido entre dois gigantes, o Brasil se vê no meio da guerra comercial entre Estados Unidos e China. No foco da tensão, um dos temas geopoliticamente sensíveis da atualidade: a tecnologia de internet móvel de quinta geração. A despeito das afinidades ideológicas do governo Bolsonaro com o atual inquilino da Casa Branca, o país deve nortear o processo de escolha da rede, no leilão previsto para o próximo ano, estritamente pelos interesses nacionais, com todas as garantias de segurança possíveis.
O Brasil não pode mais perder tempo em relação à tecnologia 5G, sob pena de continuar em desvantagem na corrida global pela competitividade
O 5G promete uma revolução nas telecomunicações pela altíssima velocidade, cerca de 10 vezes acima da utilizada hoje no Brasil, maior estabilidade, menor consumo de energia e pela imensidão de possibilidades de interconexões que cria entre veículos, eletrodomésticos, residências e mesmo nos serviços urbanos, sendo possível o estabelecimento, na prática, de conceitos como o de cidades inteligentes. O 5G é o futuro que já chegou para algumas nações, mas os brasileiros estão hoje alijados da possibilidade de contar no curto prazo com os benefícios de uma tecnologia de vanguarda e crucial para o desenvolvimento do país. O leilão, que chegou a estar previsto para este ano, acabou adiado devido à pandemia, mas agora o Brasil não pode mais perder tempo, sob pena de continuar em desvantagem na corrida global pela competitividade.
É preciso, portanto, celeridade na decisão sobre a adoção do 5G, sem afastar qualquer concorrente com qualificação reconhecida. Uma disputa mais acirrada abre para o Brasil a possibilidade de extrair o maior número de vantagens possível, como preço e prazos mais convenientes. Os EUA alegam que a rede da empresa chinesa Huawey permite espionagem e coleta de dados por Pequim. Conseguiu, dessa forma, que várias nações aliadas banissem a companhia. Mas, sejam quais forem os fornecedores, é necessário exigir auditorias e certificações das tecnologias e dos aparelhos em relação a segurança cibernética para estar resguardado em questões estratégicas.
A pressão norte-americana ficou mais explícita com a presença em Brasília nesta semana do conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O'Brien, em uma agenda oficialmente destinada à assinatura de acordos para facilitação do comércio e investimentos, em áreas como o 5G. Com a proximidade das eleições nos EUA, a Casa Branca precisa mais do que nunca mostrar serviço em um tema de envolvimento pessoal do presidente Donald Trump. Com sólidas relações diplomáticas e comerciais com os dois países, o Brasil precisa ter uma postura sem subserviência, sanar quaisquer riscos a interesses verdadeiramente estratégicos de longo prazo e tomar com celeridade o caminho indicado pelo melhor custo-benefício.
A lógica vale para a disparatada controvérsia sobre a vacina de origem chinesa desenvolvida no Brasil pelo Instituto Butantan. Bolsonaro voltou ontem a elevar o tom e, contrariando o seu ministro da Saúde, disse que o governo federal não vai adquirir o produto para imunizar a população. Politizar uma questão de saúde pública é um erro que pode ser pago com mais vidas perdidas.