O barulho do vaivém do balanço e da bola batendo indica a novidade em Venâncio Aires: crianças voltaram a ocupar os seus espaços em centros recreativos no contraturno. Impedidas desde março pelo coronavírus, elas puderam retornar, com autorização da prefeitura, no último dia 11. A cidade do Vale do Rio Pardo é uma das primeiras do Rio Grande do Sul a retomar esse tipo de atividade, ainda que de forma parcial.
No lado de fora do centro recreativo Nuvem de Algodão, no bairro Xangri-Lá, já se percebe fitas vermelhas em X no chão, indicando onde as crianças podem aguardar antes de ingressar no pátio, para evitar que se aglomerem. Na entrada, um tapete sanitizante foi colocado, com água sanitária. Sob ordem da proprietária e monitora Fernanda Luísa Rech, cada aluno precisa contar 15 segundos antes de dar o passo à frente. Depois, a febre é aferida, o álcool em gel é espalhado nas mãos e a máscara é conferida. Só então, pode-se entrar.
Apenas sete alunos voltaram às atividades no local, mas outros são esperados para os próximos dias. Quatro crianças estavam na Nuvem de Algodão na tarde desta sexta-feira (21). Sob orientação de monitores, elas brincavam individualmente, duas em mesas separadas e duas na mesa maior, que possibilitava que elas permanecessem distantes. Tapetes, almofadas e sofás foram retirados para facilitar a limpeza.
De acordo com a professora, o ballet e o jiu-jitsu, que antes eram oferecidos, foram suspensos em função do contato humano. O balanço, que é duplo, pode ser usado por um só aluno. O futebol ainda acontece, mas adaptado: não pode ter bola dividida, então é só chute a longa distância.
As próprias crianças estão cuidadosas. Enquanto a reportagem estava no local, percebeu a tentativa de aproximação de um colega do outro no balanço. Sem ser advertido por um adulto, um dos meninos logo disparou:
— Não pode, é um só por vez. Vou contar pra sôra.
A volta às atividades é uma alegria para as crianças e um alívio para os adultos - tanto os pais quanto os monitores. A diarista Ereni Schwertz, 45 anos, gastou todas as opções de onde deixar o filho Murilo, de nove anos, enquanto tinha de ir trabalhar. Como seu ganha-pão é limpar a casa das outras pessoas, para ela não existe home office. O filho ficou na casa da irmã, da dinda, de vizinhos e a mãe chegou a deixar de ir ao serviço por um mês. A situação estava insustentável.
— Foi um alívio. Eu trabalho o dia todo, me sinto muito mais segura com ele vindo para uma escola que tem regras de higiene, maior cuidado, protocolo. Melhor do que estar em qualquer lugar, como as casas clandestinas, que a gente sabe que existe — comenta.
Para a proprietária, ter os alunos de volta significa a retomada do sustento:
— Estou me sentindo agradecida. Eu fechei as portas em 18 de março. Desde então, estava sem retorno financeiro. Não entrou nada até agora. Eu tenho duas funcionárias que segui pagando.
Ela também confessa sentir alívio ao ver os alunos de volta:
— Deu uma saudade. Entrar aqui e ouvir os gritos, os risos, as histórias deles. É como se saíssemos de um dia cinzento, uma tempestade, e o sol voltasse a brilhar.
A alegria é compartilhada pelos pequenos. Filho de Ereni, Murilo estava com saudade. Agora, está confiante:
— Eu queria ver meus amigos e a sôra, que cuida de mim há muito tempo. A gente vai vencer esse vírus. Todos juntos conta o corona.
Prefeitura defende protocolos
Responsável pela fiscalização e autorização para retomada de atividades na cidade, a coordenadora técnica da prefeitura Danielle Mohr ressalta que a liberação é parcial, para crianças de 6 a 12 anos, em só quatro dos centros de turno opostos do município e com menos de 50% da capacidade. As turmas estão reduzidas. A maior tem nove crianças, enquanto a menor, tem três.
Segundo ela, foram analisadas a capacidade dos prédios e a estrutura dos centros antes de autorizar a abertura, em um comitê formado por técnicos da prefeitura e da área da saúde.
Ainda segundo a técnica, a prefeitura fez uma análise de cada uma das famílias, verificando se os alunos possuem alguma doença, convivem com pessoas do grupo de risco e se visitam com frequência os avós. Os pais tiveram de assinar um formulário antes da retomada, no qual consta um compromisso de redução do convívio social.
A prefeitura afirma que todos os alunos, pais, familiares e professores foram testados. Uma nova rodada de testagem está prevista para 31 de agosto.
— É importante dizer que nosso objetivo foi reduzir ao máximo o risco durante o convívio coletivo, nessa etapa que chamamos de ensaio, por ser uma liberação parcial dos centros de contraturno. Entendemos que está sendo muito exitoso e, se tudo seguir como o esperado, pretendemos ampliar para os demais estabelecimentos que também oferecem esse tipo de serviço na rede privada — disse.
A prefeitura garante ter consultado o Ministério Público local antes de autorizar a retomada. O Executivo municipal argumenta que se tratam de "atividades de apoio à educação", categoria que é permitida pelo modelo de distanciamento controlado estadual.
Consultada na noite desta sexta (21) por GaúchaZH, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) informou que a questão segue em análise e está com o Comitê Científico do governo.


