
Eu me tornei jornalista porque queria ser jornalista de rock. Lia as revistas e, nossa, como queria escrever sobre aquelas bandas, contar como foram os shows, comentar os discos. Sou jornalista há 27 anos e o que menos fiz foi escrever sobre música. Resenhei espetáculos pontuais e entrevistei alguns artistas, mas fugi até mesmo (ou sobretudo) dos shows que mais me marcaram a ferro em brasa, como Wilco e Nick Cave. Mas quando Robert Smith surgiu no palco da Antel Arena, no dia 27, em Montevidéu, todo vestido de preto e com uma camiseta homenageando a cidade, algo se moveu no firmamento das minhas emoções.
Poucas bandas moldaram meu gosto musical, minha formação no rock, meu senso estético como o The Cure. Nenhuma está há tanto tempo comigo, mantendo intactas minhas impressões sonoras. Smith chegou sorrindo, e me peguei chorando. A música de abertura, a inédita Alone, é precedida por ruídos de raios e trovões, antecipando a tempestade que se aproxima. É lenta e climática, uma balada como só o Cure sabe fazer. Smith aproveita a longa introdução para caminhar de uma ponta a outra do palco, conhecer a plateia. Tem o olhar apaixonado, um riso de encantamento. Quando canta os primeiros versos, eles vêm com a veemência de quem ilustrou o pop com a doce tristeza dos amores ingratos. “Este é o fim de cada música que cantamos/ O fogo se transformou em cinzas / E as estrelas escureceram com lágrimas”. Bate fundo lá dentro. E é só a primeira música.
Depois, vem Pictures of You, inaugurando a sincronia entre Smith e Simon Gallup, acorde a acorde, frente a frente, nos transportando para 1989 enquanto a colcha de teclados desce sobre a plateia para aquecer o coração dos fãs. High e Lovesong completam a primeira sequência matadora da noite. De repente, Smith puxa uma flauta e introduz Burn, uma pérola composta para a trilha sonora do filme O Corvo e que jamais entrou na discografia oficial da banda, preparando o ambiente para o desfile de hits que vem a seguir. Uma atrás da outra, com pouco tempo para respiro emocional, surgem Fascination Street, A Night Like This, Push, In Between Days e Just Like Heaven.
Podia ter acabado ali. Mas não estava nem na metade do show. É hora de um mergulho no que à certa época se convencionou chamar de rock gótico, algo que o Cure sabe fazer de melhor. Canções soturnas, envolventes, com o baixo pulsante de Gallup nos conduzindo pelos desvãos de mentes atormentadas. A sessão começa com At Night, passa por Play For Today, A Forest e Primary até chegar a Shake Dog Shake. Única canção do álbum The Top no setlist, Shake Dog Shake é hipnótica, magnetizante. A guitarra de Reeves Gabrels fica tecendo um redemoinho na nossa cabeça, mostrando quem são os pais do shoegaze e porque, duas semanas antes, o Dinosaur Jr. chamou Kevin Shields, do My Bloody Valentine, para tocar The Cure no palco do Garage, em Londres.
Vertiginosa, From the Edge of the Deep Green Sea encaminha o final do show, arrematado com a etérea e também inédita Endsong. O primeiro bis tem Charlotte Sometimes, Plainsong e Disintegration, canções graves e lúgubres que evocam paixões não correspondidas de uma adolescência distante. Lá se vão duas horas de espetáculo e há uma catarse contida entre as 15 mil pessoas que lotam a moderna Antel Arena, um ginásio de acústica perfeita nos subúrbios da capital uruguaia. Ninguém sai do lugar, pouca gente fala. Há um enlevo coletivo irradiando-se pelo ar.
Então eles voltam ao palco. E começa Lullaby. Certas canções têm poder de catalisar emoções, fustigar sentimentos, reunir o que está disperso na memória e envolver essas lembranças com o fulgor de uma juventude rediviva, mesmo que se esteja às portas dos 50 anos. Lullaby é o pórtico que faz a passagem, a canção de ninar que embala para um fim de noite arrebatador, emendando a discoteca de The Walk ao frescor pop de Friday I’m In Love e Close to Me, até o desfecho apoteótico com Boys Don’t Cry.
Robert Smith sempre foi nosso maior anti-herói deprê. Ian Curtis se enforcou. Morrissey se tornou um reacionário tardio. Smith manteve sua essência sem jamais transigir. Aos 64 anos, preserva os olhos pintados, os lábios vermelhos, o cabelo desgrenhado e a dancinha desajeitada que nos comove, ainda mais tão de pertinho como na semana passada. Eu tento rir disso tudo, mas nem escondo as lágrimas em meus olhos. Pois garotos choram, sim. E marmanjos de cabelo grisalho mais ainda.


