
Marcia C. Barbosa
Professora titular da UFRGS e diretora da Academia Brasileira de Ciências
Marcia está ouvindo atenta o radialista que anuncia que naquele dia, 20 de Julho de 1969, o primeiro homem havia pisado na lua. Para aquela menina de nove anos, a viagem espacial deixava de se uma ficção científica descrita na literatura de Julio Verne e apresentada no seriado Jornada nas Estrelas e se tornava uma realidade. O céu nunca mais seria o mesmo para a futura cientista.
A ida do homem à Lua, um empreendimento científico e tecnológico de grande importância, tem sua origem em um processo político. No dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta russo Yuri Gagarin foi para o espaço na nave Vostok 1. Um russo ter sido o primeiro homem a orbitar a terra foi um gol de placa dos comunistas na geopolítica da Guerra Fria.
John F. Kennedy, reconhecendo que a supremacia científica demonstrada pelos soviéticos teria repercussões no balanço de forças entre o capitalismo e o comunismo, precisava lançar uma reação. Percebeu que somente teria chances de reverter a liderança soviética com um projeto de longo prazo. Ele, um presidente sem formação científica mas bem assessorado, propôs levar um norte-americano ao solo lunar em 10 anos. Para obter os recursos necessários à empreitada, foi ao Congresso e, em um discurso magistral, convenceu os legisladores a aprovarem um orçamento significativo para o programa espacial. Foi uma façanha, dado que, naquele momento, os Estados Unidos passavam por uma crise econômica. Somente um verdadeiro estadista como Kennedy é capaz de reconhecer que ciência e tecnologia são propulsores da economia.
Para levar o homem à Lua, a National Aeronautics and Space Administration (Nasa) teve de superar barreiras científicas e tecnológicas desde calcular velocidades para saída e entrada da nave na atmosfera terrestre até desenvolver materiais resistentes ao calor e à radiação para a construção da cápsula espacial. Esse conhecimento gerou uma série de produtos que melhoraram a vida aqui na terra. Um desses desafios era o combustível, que precisava ser levado para toda a viagem. Imagine-se cruzando o Brasil e tendo de levar no carro toda a gasolina para o percurso. A aeronave deveria ser leve e, portanto, armazenar combustível para a viagem era um problema sério. Uma fonte interessante é metano líquido. Além de não ser pesado, trata-se de um material razoavelmente barato. No entanto, para mantê-lo no estado líquido era necessário resfriamento. Foi então desenvolvido um tanque criogênico capaz de fazer isso. Esta mesma tecnologia é hoje testada em carros.
Uma questão de menor escala, mas igualmente importante, era a roupa dos astronautas. Em 1967, houve um incêndio a bordo da aeronave, e os técnicos compreenderam que o material da roupa dos astronautas precisava ser resistente ao fogo. Afinal, em caso de incêndio, eles não poderiam fugir, como fazem os habitantes de um prédio em chamas, pois não há para onde fugir no espaço. Então, foi projetada uma roupa muito resistente ao fogo, que é hoje usada pelos bombeiros combatentes de incêndios em florestas.
Só que uma roupa tão resistente ao fogo tem seus inconvenientes. Ela deixava os astronautas com calor particularmente nos momentos de maior aquecimento da aeronave. Para contornar isso, desenharam uma roupa "íntima" com refrigeração à água . Hoje, esse sistema de refrigeração corporal é usado por pilotos de corrida de automóveis.
O sapato igualmente precisava ser leve e resistente e ter um amortecimento para não impactar à baixa gravidade. Foi criado então um calçado com um sistema de amortecimento que hoje é usado nos tênis de corrida.
Mas as mais fantásticas das tecnologias desenvolvidas para o programa foram os circuitos integrados. Para controlar os sistemas da nave, era necessário um computador — algo que, na época, era enorme e lento. Surgiram nesse momento os circuitos integrados, que foram responsáveis por tornar compacto o processamento. Essa diminuição do tamanho dos processadores domina hoje nossas vidas, da TV ao celular.
O programa espacial inspirou Marcia e outros jovens de todo o mundo a sonharem se tornar astronautas e, nesse caminho, se formaram professores, técnicos e cientistas, profissionais que viabilizaram o crescimento tecnológico de seus países.
A ida do homem à Lua foi um projeto de nação que levou os Estados Unidos à liderança tecnológica do planeta, mas que igualmente trouxe benefícios a todos nós, porque ciência gera desenvolvimento.

