A avó de um soldado do efetivo variável que presta serviço militar obrigatório no 6º Batalhão de Engenharia de Combate (6º BE Cmb) em São Gabriel, na Fronteira Oeste, denunciou casos de agressões contra o neto, de 18 anos, dentro da unidade.
A mulher registrou ocorrência na Polícia Civil, que encaminhou o caso à Auditoria Militar em Bagé. O comando do 6º BE Cmb abriu um Inquérito Policial Militar (IPM).
Conforme a avó do soldado, as agressões ocorriam há cerca de um mês. Ela desconfiou do comportamento do neto, que mora na mesma casa e é criado por ela. Na última quinta-feira (22), a mulher conseguiu pegar o celular do jovem e encontrou vídeos que mostravam as agressões.
Em um deles, ao qual a reportagem teve acesso, o jovem era segurado por um militar, enquanto era agredido por outros dois e um quarto homem gravava as imagens. O soldado então relatou à avó que as agressões ocorriam diariamente e que ainda recebia os vídeos dizendo que no dia seguinte "teria mais".
— Ele estava em um cargo e passaram ele de seção. E lá começou. Ele fazia o serviço de todo mundo lá, batiam nele, trancavam a porta e não deixavam ele sair. Tinha que terminar o serviço dos outros também. Eu perguntava porque ele não saía na mesma hora que todo mundo. Ele ficava até tarde. Os outros saíam 17h, e ele chegava em casa quase sempre às 19h — conta a avó.
E mesmo com as provas, o jovem teria relutado em denunciar o caso.
— Ele foi tomar banho, aí eu consegui pegar o celular e vi tudo. Mas ele não queria denunciar, dizia que era brincadeira deles, que eles mesmos diziam que era brincadeira e que isso acontece com todos — afirma.
Depois de convencê-lo, ela o levou até o Hospital do Exército e depois a um psicólogo. O soldado está afastado, por conta de um atestado para tratamento psiquiátrico.
O jovem presta serviço militar obrigatório desde janeiro deste ano. A avó relata ainda que o sonho do neto é ser militar:
— Isso é o que mais me dói. Eu dizia para ele falar que não queria servir. Mas ele dizia: "Eu quero ser militar, quero servir a pátria". E aí acontece isso — desabafa.
O que diz o Exército
Os militares que estariam envolvidos nas agressões seguem trabalhando normalmente até que o inquérito seja concluído. Assim que a investigação terminar, o parecer é encaminhado ao Ministério Público Militar, que decide se houve crime ou transgressão disciplinar.
A reportagem não teve acesso aos nomes dos envolvidos.
Em nota, o Comando Militar do Sul confirmou a abertura do IPM e ressaltou que o Exército não admite atitudes como essas. Ainda segundo o texto, o soldado e os familiares estão recebendo auxílio.
"O Comando Militar do Sul informa que o Comandante do 6º Batalhão de Engenharia de Combate, com sede em São Gabriel, ao tomar conhecimento do vídeo que mostra agressões a um militar dentro de sua Unidade, determinou a instauração de Inquérito Policial Militar para apurar os fatos. Desde já, o Exército Brasileiro ressalta que não coaduna com esse tipo de atitude. E que o militar que sofreu a agressão e seus familiares estão recebendo toda a atenção e o auxílio necessário por parte do 6º Batalhão de Engenharia de Combate", diz a nota.
O Comando Militar do Sul reiterou ainda que a investigação está em curso, com direito ao contraditório e à ampla defesa. O prazo de conclusão é de 40 dias, podendo ser prorrogado.