
Em meio a casas e condomínios da zona sul de Porto Alegre, há uma construção deslocada mais de 10 mil quilômetros. A obra grega, composta por 18 colunas, pode ser vista da Avenida Copacabana, na Vila Assunção. É identificada como Teatro Yolanda Trebbi, embora não se tenha informação de algum espetáculo sediado ali nas últimas décadas.
A construção ganhou forma nos anos 1970, por iniciativa do advogado Paulo do Couto e Silva, falecido no ano passado. Após uma viagem ao país europeu, ele decidiu decorar o terreno nos fundos da sua casa e convidou uma amiga da família, formada em Belas Artes, para fazer um projeto. Era ela a tal Yolanda — como homenagem, o advogado batizou o teatro com seu nome.
— O Paulo lhe pediu que fizesse umas colunas, alguma coisa alusiva à Grécia. Ela demorou para entregar o projeto, e quando apresentou esse teatro, o Paulo se entusiasmou — conta a viúva do advogado, Balbina Sarmento Leite do Couto e Silva, 89 anos.
A ideia inicial era levar alguma programação cultural ao espaço, mas, com medo da violência na Capital, a família desistiu.
— As pessoas vão ficando sem entusiasmo para fazer alguma coisa — comenta Balbina.
Por muitos anos, o teatro serviu de cenário para festas da família, e os filhos do casal também cresceram brincando entre as colunas. Um sistema de som de ponta para a época foi trazido por Couto e Silva dos Estados Unidos, e, aos domingos, o casal costumava ouvir Mozart, Beethoven e Bach sentado alguns metros adiante, na varanda da casa.
— Se ouvia em toda a Assunção — relembra Balbina.

Já faz um tempo que não ocorrem mais grandes celebrações ali. Balbina conta que, quando o marido adoeceu, "não havia mais clima". O teatro já apresenta vestígios da ação do tempo. Não há previsão de reforma, mas Balbina pretende fazer a limpeza do mármore no verão para voltar a ficar branco.
Mesmo isolado com uma grade e sem espetáculos, o espaço não escapou da criminalidade. Há alguns anos, foram roubados dois bustos de bronze, de Eurídice e de Orfeu. As esculturas haviam sido encomendadas a Antônio Caringi, autor da estátua do Laçador. Elas não foram reavidas.
Restou um busto no teatro grego. É a imagem de Dionísio, deus das festas, do vinho e do teatro. Sob a obra, um pedacinho de mármore trazido da Grécia está exposto, rodeado com inscrições no antigo idioma.

— É grego pra mim — ri dona Balbina, quando perguntada sobre a tradução.
Na frente do teatro grego, há ainda um espelho d'água em formato de meia lua. Acompanhando as linhas dele, três degraus compõem as arquibancadas do anfiteatro a céu aberto. Duas fileiras de ciprestes — cujas sementes vieram da Grécia, é claro — e uma nova citação em grego, no topo do teatro, compõem o cenário escuso dos olhares curiosos. Essa citação, dona Balbina conhece: "a vida é breve, a arte é eterna".
— Uma frase simples, mas diz tudo — reflete ela.




