
* Professor de Teoria da História na UFRJ
Terceiro dos seis volumes de Minha Luta, a série de romances autobiográficos do norueguês Karl Ove Knausgård, A Ilha da Infância cobre um período crucial da formação da personalidade, quando os afetos são moldados e a maneira como nos relacionamos com os outros e com o mundo começa a ser forjada: os anos entre o nascimento e a puberdade. Mas A Ilha da Infância é também - ou especialmente - um livro sobre "o meio do caminho da nossa vida" e a urgência que sentimos, nas fases críticas da experiência adulta, de recuperar o passado e entender como nos tornamos quem somos. Pode soar estranho o uso da primeira pessoa do plural, o "nós", em referência a uma autobiografia, mas é possível que o autor de A Ilha da Infância compartilhe com Montaigne a crença de que "todo homem carrega em si a forma inteira da humana condição" - pois ao falar de si mesmo, Knausgård nos conduz aos cantos mais poeirentos e inacessíveis da nossa própria interioridade.
Ao contrário da escritora americana Zadie Smith, que afirmou necessitar do "próximo volume como se fosse crack", terminei A Ilha da Infância e imediatamente quis reler A Morte do Pai e Um Outro Amor. É que, no terceiro livro da série, Knausgård apresenta a sua luta a partir de um novo ângulo. E isso transforma radicalmente o "sentido de todo" que havíamos construído, mesmo que provisoriamente, ao ler os outros volumes. O próprio significado existencial da empreitada literária é o tema de uma das passagens de natureza ensaística que costuram a narrativa de A Ilha da Infância. Knausgård fala dos álbuns de retrato de sua família. São "fotografias de uma época", ele diz, "e não das pessoas, que não se deixam capturar". "É totalmente impossível para mim identificar-me com o bebê de colo que os meus pais fotografaram, na verdade é tão difícil que parece até errado usar a palavra 'eu' para falar dele". Melhor seria ter nomes diferentes em cada fase da vida: "que o feto pudesse chamar-se Jens Ove, por exemplo, e o bebê de colo Nils Ove, e o menino dos cinco aos 10 anos Per Ove", e assim sucessivamente. "O primeiro nome representaria o que há de único em cada idade, o segundo representaria a continuidade, e o sobrenome representaria a família".
Cada etapa da existência individual é uma ilha, e o arquipélago equivale à integralidade - necessariamente fictícia - do "eu". Um dos desafios de A Ilha da Infância é resgatar a dimensão de continuidade entre essas ilhas de passado e futuro, o que só é possível por meio da narrativa. E esse elemento de coesão da identidade é abordado, no terceiro volume de Minha Luta, pelo ângulo da relação conturbada do menino Karl Ove com o seu pai. Já sabíamos da tensão entre os dois, mas só agora tomamos ciência da perturbação desse homem de olhos injetados e temperamento indócil que, sob o pretexto de educar, trata os filhos com rigor e sadismo. Como o Marcel de Em Busca do Tempo Perdido, Karl Ove é um menino nervoso, hipersensível, e seus receios mais básicos - os barulhos do encanamento, o vento lá fora, pessoas mortas - parecem variações de um terror primordial: "bastava imaginar o meu pai, imaginar que ele existia, para que o medo começasse a tomar conta de mim".
Mas A Ilha da Infância não se resume aos infortúnios da relação entre pai e filho. As longas descrições, minuciosas e sinestésicas, dos estados de ânimo de uma criança, mescladas ao detalhamento quase fotográfico da paisagem de Tromøya, produzem a sensação de que estamos na pele do menino Karl Ove, observando o mundo com os seus olhos e embarcando nas suas investigações mais espinhosas: o cereal da manhã é mais gostoso seco ou molhado? É possível reconhecer o estado de humor do pai pelo som dos seus passos? Até quando reter as fezes para obter o máximo de prazer? E o notável é que esse efeito de ineditismo, inerente à percepção infantil, não é obtido pelo recurso naturalista a uma linguagem tatibitate, ou por meio de sofisticados jogos formais com a perspectiva, como em Pelos Olhos de Maisie, de Henry James. Estamos diante de outra variedade de bruxaria.
É como se entre Knausgård e o leitor houvesse apenas um vidro cristalino. Seu estilo é a sua voz, e ela não deixa de soar autêntica e comovente, sempre enlevada pelo ethos da sinceridade e pelo pathos da verdade. Mas a luta de Knausgård não é apenas existencial. É sobretudo estética, a perseguição de uma forma literária que dilua a aparência da literatura, permitindo ao coração falar nos seus próprios termos. Que ele nos convença de ter sido capaz de um feito desses atesta a sua excepcionalidade como escritor. Se a história literária fosse uma piscina olímpica, Knausgård deixaria a impressão de ir no sentido contrário dos outros nadadores, se voltando para Proust, Stendhal ou Rousseau num anacronismo deliberado. Mas sem que tenhamos percebido, com gestos sutis e elegantes, ele fez a virada e está na frente de todos, dando longas braçadas rumo à inatingível "humana condição".



