
Aos 16 anos, Marco Antônio Potthoff Silva foi o protagonista do primeiro campeonato de surfe realizado no Rio Grande do Sul, na praia da Guarita. Depois de impressionar o júri carioca, saiu do mar de Torres carregado em cima da prancha para receber uma taça e o troféu dourado.
Aos 66, ele ainda frequenta a mesma praia — a "melhor do mundo", nas palavras dele. A prancha é muito menor do que a peça de três metros de comprimento e 20 quilos que arrastava cinco décadas atrás, mas ele segue o mesmo: um apaixonado pelo mar.
— Parece que não passou esse tempo todo — comenta o engenheiro mecânico que trabalha no ramo de frigoríferos.
Promovido pela Companhia Caldas Júnior, em fevereiro de 1968, o 1º Campeonato Estadual de Surfe contou com cerca de 15 competidores. O grupo de praticantes era restrito, composto basicamente por familiares e amigos que veraneavam na cidade. Naqueles tempos, Zero Hora ainda precisava explicar o que é o esporte, observando, na edição de 4 de janeiro de 1970, que demanda "coragem, uma tábua especial, que custa bem caro, e bastante equilíbrio".
Marco não esquece da multidão que prestigiou o torneio, escalando as pedras para obter o melhor ângulo. Jornais de então dão conta de aproximadamente 7 mil pessoas, mas, na memória dele, parecem mais de 20 mil. Os carros ainda podiam encostar na praia, o que aumentava a sensação de agito.
Aquele campeonato não chegou a alçar o esporte a um nível profissional, de acordo com Virgilio de Matos, ex-presidente da federação gaúcha e definido como uma "enciclopédia" da modalidade por seus pares. Ele conta que só nos anos 1980 surgiriam as marcas do segmento, que movimentam a economia com competições e premiações em dinheiro e patrocínio de atletas. Para Virgilio, o evento de 1968 serviu para dar visibilidade à modalidade no Estado.
— Só existiam surfistas em Torres até aquela data — relata.
Virgilio esteve na Guarita naquele fevereiro. Tinha seis anos, e sua família, que também veraneava em Torres, resolveu ir por curiosidade. Acabou, diverte-se, "contaminado".
O que mais lhe chamou atenção foram as pranchas gigantes de madeirite.
— Nos anos 1950, 1960, cada país produzia suas pranchas com os materiais peculiares de cada região. Na América Central, no Equador, na Venezuela, era com balsa, madeira leve que havia em abundância. Na Europa e nos Estados Unidos, era com madeira maciça. No Rio de Janeiro, um surfista resolveu fazer uma prancha de compensado naval e deu o nome de madeirite — explica.

Mas a madeirite não foi a prancha que inaugurou o mar gaúcho. Morto em janeiro de 2016, aos 79 anos, Oscar Martins de Lima tinha 19 quando confeccionou a primeira peça de que se tem notícia. Era, na verdade, uma pesada tábua de madeira de cedro, feita sem projeto e a partir de uma foto, em 1955. Em entrevista a RBS TV, em 2014, o engenheiro aposentado disse que ela ficou pronta em cinco dias.
— O que tu acha que a gente fazia aqui durante dois meses? Nada. Só tinha uma coisa por aqui, que era desafiar esse mar e fazer umas brincadeiras — disse.
Outro personagem marcante da história do surfe gaúcho é Jorge Gerdau Johannpeter, 81 anos, hoje presidente do conselho de administração do Grupo Gerdau. Em viagem de negócios, Gerdau, então com 28 anos, testemunhou a efervescência do esporte no Arpoador, no Rio de Janeiro. Comprou sua madeirite por lá, no fim da praia de Copacabana, e trouxe a novidade para o Rio Grande do Sul na metade da década de 1960, junto com seu irmão, Klaus, e outro pioneiro, Fernando Sefton.
Gerdau usava um pé de pato para pegar embalo — um apenas, porque subir na prancha com dois era impossível. Desbravou também praias catarinenses em busca de ondas perfeitas. Ele praticou até os 73 anos de idade.
— A gente começa a amar a natureza, a se integrar na força dela. Isso mexe com a gente — comenta.
Cerca de 15 pessoas da sua família seguiram seus passos no esporte. Um deles é o sobrinho e também empresário Eduardo Bier, dono da Dado Bier, que integrou a segunda geração de surfistas do Estado. Ele lembra com carinho das viagens para praticar o esporte — em especial, de um barraco de pescador comprado pelos tios em Imbituba, em Santa Catarina — e também das amizades que ficam:
— Tenho um grupo de uns 30 amigos que tem 40 anos de amizade de surfe.
"O surfe é tudo o que tu pode pensar em termo de liberdade", diz primeiro campeão
Enquanto Marco Antônio contava sua trajetória no surfe na praia da Guarita, no sábado passado (13), o surfista Cícero Bock Eufrazio, 38 anos, interrompeu a entrevista. Estava ouvindo a conversa de canto, na sombra do primeiro morro, e, mesmo sem conhecê-lo, pediu um abraço do engenheiro.
— Sou fã do surfe por causa deles — disparou Cícero, referindo-se às primeiras gerações de surfistas de Torres.
Marco tem orgulho de ter feito parte da história do surfe gaúcho como o primeiro campeão, ainda mais porque entrou na disputa achando que não teria chances diante de adversários mais experientes. Ele nunca abandonou a cidade que lhe oportunizou isso. Mora em Porto Alegre, mas tem apartamento em Torres há 30 anos, e prefere ir a pé até o Parque da Guarita — negou a oferta da reportagem para se deslocar até a praia de carona. Já não pega onda com a mesma frequência da juventude, mas segue tendo cinco pranchas.

— O surfe é tudo o que tu pode pensar em termos de liberdade — define.
Marco Antônio lembra que a primeira vez que viu algo relacionado ao esporte foi em uma viagem com a família ao Rio, ainda adolescente. De volta à casa de veraneio da família na Prainha, ele se deslumbrou ao observar Jorge e Klaus Gerdau Johanpetter deslizando sobre as ondas. Junto com alguns amigos — como Martin Streibel e Roberto Bins —, tratou de aprender o esporte na prática.
O guri ganhou do pai, dono de uma loja de caça e pesca na Capital, a sua primeira madeirite, que nem leash tinha — e se tivesse, a prancha era tão pesada que arrancaria a perna, segundo ele. De dezembro a março, sua turma brincava no mar por horas.
— Até a mãe chamar para almoçar — recorda.
Com uns 15 anos, ele arranjou um jeito de dedicar-se ao surfe e ganhar uma grana ao mesmo tempo. Montou uma barraquinha de lanche na praia, Cachorro-Quente Grilo. Sua esposa, Solange Silva, chegou a experimentar e diz que tinha qualidade. Marco é mais realista.
— Não que era bom, era o único. O pessoal tinha que comer — ri.
Ele participou de mais algumas competições estaduais, mas acabou se afastando na sequência em razão do trabalho na Capital — o hot dog durou uns três anos apenas, logo começaria a trabalhar com frigoríficos.

Seguindo um padrão comum a pioneiros, o surfe virou coisa de família. Se levava seu filho Felipe para o mar quando criança, agora é a prole, aos 30 anos, que intima Marco Antônio para cair na água.
— Ficam conversando sentados em cima da prancha, dentro do mar. É um amor — derrete-se Solange.
Se depender da torcida de Marco Antônio, a tradição da família no surfe vai continuar. Além do sangue do avô, o neto mais novo, de oito meses, herdou do genro de Marco, Rafael, até o nome de campeão. Chama-se Leonardo Medina. Será o novo Gabriel Medina?
Evento resgata história do surfe
Realizado pela primeira vez em 2011, um evento denominado Madeirite se propõe a contar a história do surfe gaúcho na prática. A competição tem categorias divididas por décadas (anos 1960, 70 e 80) e disputas de pais e filhos, entre outros páreos. É também uma forma de homenagear as lendas do esporte. Na primeira edição, foi recriada a foto de Marco Antônio carregado em cima de uma prancha, após a vitória em 1968.
Para seguir a cronologia histórica, o evento começou em Torres. O próximo está sendo preparado para este ano em uma praia que ganhou destaque no surfe mais tarde: Atlântida, no município de Xangri-Lá. A data ainda não está confirmada.



