
Qual é a cidade mais violenta do Brasil? A resposta que vem à cabeça do brasileiro é, quase com certeza, o Rio de Janeiro. Um porto-alegrense que vá passar uns dias em terras cariocas já desembarca com medo, olha todo mundo com desconfiança, toma precauções extraordinárias. Em casa, deixa familiares nervosos, que mal conseguem conciliar o sono, receosos de um arrastão, de uma bala perdida, de um assassinato.
Frios, desapaixonados, os números contam uma história diferente. O Rio de Janeiro não é uma das cidades mais violentas do Brasil. Não é nem uma das capitais mais violentas do Brasil. Isso, repetida e inutilmente, mostram as estatísticas, como um recém-publicado ranking internacional de cidades com mais de 300 mil habitantes. Entre as 50 com maiores taxas de homicídios do mundo, há 17 brasileiras. Porto Alegre está na lista. O Rio, não.
Uma pesquisa recente indica que os brasileiros são peritos nesse tipo de engano, exímios em alimentar certezas que não correspondem aos fatos, mestres da distorção da realidade. Estamos falando de um estudo realizado pelo instituto de pesquisa social britânico Ipsos Mori, que ao longo do ano passado entrevistou 29.133 pessoas em 38 países. A ideia básica era questionar as populações sobre sua realidade local — taxas de homicídio, suicídios, gestação na adolescência, prevalência de doenças, consumo de álcool, posse de smartphones, mortes em ataques terroristas, etc, etc — e depois contrapor as respostas fornecidas em cada país ao dado estatístico real.
Todos os países mostraram algum grau de erro, em geral exagerando as situações para pior, mas não como os brasileiros, que em termos de concepção equivocada, no ranking final da acurácia, só foram superados pelos sul-africanos. A pesquisa revelou que nosso povo inzoneiro erra muito na avaliação da realidade, com frequência escalafobeticamente. Para a média dos brasileiros, por exemplo, 48% das jovens com idade entre os 15 e os 19 anos dão à luz a cada ano. O dado real é de 6,7%. Questionados sobre as taxas de homicídio, 76% disseram que elas aumentaram em comparação com o ano 2000 _ quando na verdade continuaram no mesmo patamar. Realizada anualmente, a pesquisa foi intitulada Perigos da Percepção. Em anos anteriores, era chamada pela Ipsos Mori de Ranking da Ignorância.
Somos mesmo uns ignorantes? Pode até ser que sim, mas a questão é mais sutil e mais complexa do que isso, como a própria mudança de nome da pesquisa parece sugerir.
O primeiro passo para avançar nessa discussão é entender como o ser humano forma suas percepções e que mecanismos levam aos vieses cognitivos, forma bacana de descrever a lambança interpretativa de cada dia. Como guia nesses meandros, temos a Phd em Psicologia Keitiline Viacava, diretora do Institute of Human Cognition and Behavior (INCh). Ela começa por explicar que há dois conjuntos de fatores que influenciam nossa percepção do mundo — os fatores endógenos e os fatores exógenos. No primeiro time encontram-se os mecanismos cerebrais, cognitivos e emocionais.
— Desse ponto de vista cognitivo, existem dois processos que influenciam a maneira como percebemos e capturamos as informações do ambiente. Um deles é mais automático, rápido, afetivo, emocional, altamente orientado pelo contexto. É o chamado sistema 1. O outro processo é aquele mais planejado, deliberado, no qual tomamos decisões de longo prazo, que é mais lento e chamamos de sistema 2 — diz Keitiline.
— Esses dois sistemas diferem do ponto de vista de energia gasta por nós ao avaliar uma situação. O sistema 1 exige menos energia, menos esforço cognitivo. O sistema 2 gasta mais energia. Tendemos a poupar energia, daí nossa tendência a priorizar o sistema 1, o mais automático, na avaliação da situação. E para fazer isso criamos atalhos mentais, heurísticas, para avaliar as situações sem gastar muita energia. Dessas heurísticas é que vem a explicação para os vieses cognitivos.
Na avaliação da quantidade de casos de gravidez na adolescência, por exemplo, não vamos buscar uma estatística. Vamos recorrer a uma heurística, um atalho mental, formando nossa percepção, aponta Keitiline, com as informações que estão disponíveis no nosso entorno: se ouvimos falar muito no tema, se conhecemos alguém que viveu a situação, se há casos na vizinhança. É o sistema 1 funcionando a todo o vapor. O resultado são respostas de aspecto afetivo, que fogem à racionalidade.
Por que lemos tão mal o nosso entorno?
Mas se é da natureza humana recorrer a tais atalhos mentais, por que há tanta diferença de acertos e erros na percepção da realidade entre os países analisados pela Ipsos Mori? Por que os brasileiros leem tão mal o seu entorno, enquanto suecos, noruegueses e dinamarqueses, para citar apenas os melhores, revelam uma percepção que quase coincide com os dados estatísticos?
Parte da resposta tem a ver com os fatores exógenos — aqueles ligados ao contexto e ao ambiente em que o individuo está inserido. Ou seja, além de olhar para a forma como o cérebro processa a informação, é preciso atentar para a informação que está chegando ao cérebro, aos estímulos que são oferecidos pelo ambiente e que favorecem determinados tipos de percepção. Voltando ao exemplo do Rio de Janeiro: se os casos de violência na cidade recebem muita notoriedade, é natural que se perceba a cidade como mais violenta, mesmo que o dado estatístico revele algo diferente.
— O quão repetidamente estou exposto a determinada informação tende a influenciar a minha percepção sobre aquele fenômeno — diz Keitiline.
O quão repetidamente estou exposto a determinada informação tende a influenciar a minha percepção sobre aquele fenômeno
KEITILINE VIACAVA
diretora do Institute of Human Cognition and Behavior
Essa ideia sai reforçada quando se faz uma análise sobre onde os diferentes povos erram mais. A pesquisa da Ipsos Mori mostra que os brasileiros, por exemplo, tendem a calibrar com menos exatidão temas que estão muito presentes no dia a dia, como a violência. A ideia é que se fala tanto nisso que tendemos a ter uma opinião mais afastada da realidade do que na maioria das populações. Em outros países, o mesmo fenômeno também acontece, mas em relação a tópicos distintos. Por exemplo: em sociedades que sofreram atentados nos últimos anos, a percepção de que houve um aumento nas mortes por terrorismo em comparação com as da década anterior é predominante, mesmo que o dado estatístico revele que houve uma queda. Da mesma maneira, as nações com percepção mais distorcida sobre a proporção de estrangeiros nos presídios tendem a ser aquelas em que o tema da imigração está mais presente. Os holandeses, por exemplo, acreditam que 51% dos prisioneiros são estrangeiros. O dado real é 19%. No mesmo quesito, os americanos estimam em 32% o que na verdade é apenas 5%.
Nesse sentido, observa Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, a distorção de percepção da realidade radiografada pelo estudo da Ipsos Mori é reveladora dos temas que geram mais preocupação e que desencadeiam reações emocionais mais fortes nos diferentes países:
— O medo, a ansiedade e o excesso de conversação podem passar a sensação de que aquele assunto está muito forte, muito em evidência, e isso cria essa distorção. É o que vemos no caso do terrorismo em populações do Hemisfério Norte. Não é só uma questão de inteligência ou ignorância. A questão da percepção tem muito a ver com o envolvimento emocional em relação ao tema, que desestabiliza a nossa razão.
Mecanismo de defesa da espécie humana
A questão emocional é ressaltada também por Keitiline. Ela nota que, na pesquisa do instituto britânico, são os temas de valência negativa — coisas que são percebidas como problemas — que costumam gerar erros de percepção maiores. Por terem um conteúdo emocional mais pronunciado — a taxa de homicídios mexe mais com as emoções do que a taxa de smartphones por 100 habitantes, para dar um exemplo —, as questões de valências negativa ativam o chamado sistema 1, ligado mais a uma resposta afetiva do que racional.
Isso não é de todo ruim e não é apenas ignorância. Trata-se também de um mecanismo de defesa, desenvolvido ao longo da evolução da espécie humana. Diante de uma ameaça, faz sentido, do ponto de vista de sobrevivência, que nosso cérebro reaja, inclusive exagerando o tamanho dessa ameaça. Achar que as coisas são piores do que são, portanto, pode ser a diferença entre a vida e a morte. Perceber mal pode vir para o bem.
Um outro aspecto a considerar é que, se tais mecanismos levam o ser humano a ter uma percepção exagerada dos problemas, talvez seja natural esperar que países com mais problemas tendam a distorcer mais a realidade. É possível que isso ajude a explicar por que, no ranking da Ipsos Mori, as populações menos acuradas em suas avaliações sejam aquelas de países mais pobres e conflagrados (África do Sul, Brasil, Filipinas, Peru, Índia, Indonésia, Colômbia), enquanto sociedades ricas e mais bem resolvidas apareçam no extremo oposto (Suécia, Noruega, Dinamarca, Montenegro, Sérvia, Canadá).
— Faz todo o sentido que um país que tenha mais problemas tenha mais vieses. É o sistema 1 operando para proteger aquelas pessoas. Quando operamos no sistema 1, fazemos operações que fogem da racionalidade. Mas quando tomamos uma decisão enviesada, ainda que aparentemente ela seja irracional, porque não está tão conectada com o dado da realidade, trata-se de um comportamento relevante do ponto de vista da manutenção da vida, porque evita que pessoas se exponham a situações de perigo — interpreta Keitiline.
Perigo às portas das eleições
Não se está querendo dizer, com isso, que o erro de percepção da realidade é uma maravilha e que o dado do Ipsos Mori não deve preocupar o brasileiro. Não é por acaso que o título da pesquisa é Perigos da Percepção — porque, de fato, o erro de percepção pode ser muito perigoso. Afinal, tomamos decisões com base na nossa percepção da realidade, e se essa percepção for falha, a decisão pode ser desastrosa. Basta pensar nos estrago eleitoral que o viés perceptivo pode fazer, comprometendo o próprio futuro de um país.
— É algo gravíssimo. A pessoa vai tomar uma decisão política de acordo com aquilo que ela entende que é verdade. Mas e se ela tem uma versão completamente equivocada da verdade? Temos no Brasil um caldo de cultura pronto para aventureiros. É importante dizer que as pessoas não têm uma perspectiva equivocada por serem equivocadas por natureza, é por haver todo um discurso político e midiático que produziu isso. Então, o brasileiro acha que todas as adolescentes ficam grávidas, que a maior parte dos crimes é cometida por menores de idade, que há uma degradação moral, que vamos levar um tiro se atravessarmos a rua. Se formos olhar, não é verdade. Mas gera discursos como o da redução da maioridade penal e de que temos de nos armar, por exemplo — lamenta a cientista política Céli Pinto, da UFRGS.
Essa é uma preocupação partilhada por Fábio Malini, para quem a reação emocional, e não racional, deixa o brasileiro especialmente vulnerável diante de discursos populistas:
É algo gravíssimo. A pessoa vai tomar uma decisão política de acordo com aquilo que ela entende que é verdade. Mas e se ela tem uma versão completamente equivocada da verdade?
CÉLI PINTO
Cientista política
— Tradicionalmente, o populismo é conceituado como trazer as massas para o discurso político pelo apelo emocional. É disso que estamos falando. O envolvimento emocional atropela o dado, que é frio. Isso pode se refletir em resultados eleitorais. Já tivemos vários governos populistas e me parece que vamos ter mais.
Diante disso, fica evidente a importância de reduzir a distância entre a percepção do fato e o fato em si. Um caminho para isso passa por criar as condições para que o indivíduo acione mais o sistema 2, ligado à razão, do que o sistema 1, automático e emocional. De acordo com o professor de Psicologia da Educação da UFRGS Fernando Becker, a saída está no ensino. Becker entende que os erros de percepção estão relacionados com a questão educacional e, portanto, devem ser resolvidos pela questão educacional.
— Nosso conhecimento é formado por duas instâncias, a percepção e a razão. A percepção tem toda a importância que se quiser dar a ela, mas comete erros o tempo todo. Quem corrige esses erros é a razão. E a razão é formada pela escola, ainda que não só pela escola. Quanto menos funcionar o processo educacional, mais facilmente o indivíduo transforma o preconceito em verdade absoluta. A educação fornece as ferramentas para dizer se aquilo que você percebeu num relance tem ou não probabilidade de ser verdade, ela é um instrumento para compreender melhor a realidade. Por isso, quando vemos o panorama brasileiro de analfabetismo e de analfabetismo funcional, que é a capacidade de não conseguir interpretar a realidade, percebemos como o quadro é desanimador — analisa Becker.
Keitiline confirma que há uma relação significativa entre um nível educacional mais elevado e a capacidade de ativação do sistema 2. Ou seja, quanto mais instruída, mais uma população será capaz de controlar as heurísticas, porque a educação é uma espécie de treinamento cognitivo, que dá musculatura à parte racional. Ao mesmo tempo, ela ressalta que o raciocínio crítico planejado sempre será mais lento do que o automático, por melhor que seja a instrução. A educação, portanto, não seria suficiente:
— Outra coisa que se pode fazer é oferecer às pessoas informações fidedignas, que ajudem a ajustar a percepção. Se oferecemos informação de qualidade repetidamente, a pessoa não precisa recrutar o sistema 2 o tempo todo e se esforçar. Ela vai automatizar o comportamento.
Um último aspecto da pesquisa da Ipsos Mori merece menção, antes do ponto final. O instituto também perguntou aos entrevistas dos 38 países se eles estavam confiantes de que tinham dado respostas corretas. O resultado é instigante. Entre as mais confiantes, mais convencidas das suas certezas, apareciam algumas nacionalidades com maior grau de distorção da realidade: indianos, filipinos, peruanos e turcos, por exemplo. Em contrapartida, suecos, noruegueses, alemães e britânicos _ todos eles entre os melhores no ranking da percepção _ apareceram entre os que mais duvidavam da própria capacidade. Há aí uma lição: ter consciência de que podemos errar já é um caminho para acertar. Já é o sistema 2 em ação.
Fontes:
Os dados reais foram colhidos da própria pesquisa Perigos da Percepção, que usa as seguintes fontes: Organização Mundial da Saúde (mortes por suicídio e veículos registrados), Banco Mundial (taxa de homicídios, diabetes e mulheres de 15 a 19 anos que dão à luz), newzoo 2017 (smartphones), Gallup (crença em Deus) e Allin1Social (conta no Facebook).




