
Desde que Jair Bolsonaro parou de brigar com todo mundo, seu governo passou a aparecer mais. Da resposta ao desmatamento da Amazônia ao primeiro passo da reforma tributária em Brasília, as ações vão ocupando o lugar das bravatas. A palavra de um presidente tem valor e peso. Tanto que uma vírgula fora do lugar derruba a bolsa. Por isso, convém aos chefes de governo escolher quando e sobre o quê falarão, não de forma reativa e irracional, mas como parte de uma estratégia de gestão.
No caso de Bolsonaro, era evidente a confusão que ele levou mais de um ano para, pelo menos aparentemente, compreender. Não basta ocupar espaço. É preciso saber como ocupá-lo. O destrambelhamento do presidente era tamanho que suas falas estavam se tornando irrelevantes e folclóricas. Alguns veículos simplesmente pararam de cobrir as desastrosas falações em frente ao Palácio. Embora a decisão parecesse um boicote, na verdade, ajudou Bolsonaro, pela redução do eco de tantos e tantos absurdos.
Agora, com o presidente mais calado, se recuperando da covid-19, é como se o alívio daquela tensão verborrágica abrisse espaço para debates mais produtivos. Mesmo o Fundeb, um tema polêmico, foi votado em padrões aceitáveis de racionalidade. Imagine Bolsonaro – ou Abraham Weintraub – dizendo que esse ou aquele ponto era coisa de maconheiro esquerdista. Imediatamente, os argumentos virariam bate-boca.
Bolsonaro não mudou a sua forma de ver o mundo. Vai continuar fazendo afagos nos aloprados, defendendo a cloroquina e denunciando o complô comunista que articula, sorrateiramente, a deglutição das criancinhas brasileiras. Mas, se não for apenas porque está doente e, finalmente, o presidente tiver aprendido a economizar palavras, deixando que os holofotes se voltem também para o governo e não apenas para ele, teremos uma chance de discutir ideias com um pouco mais de racionalidade e clareza.



