
O envolvimento do presidente da Argentina, Javier Milei, na aparente fraude que envolve a criptomoeda $Libra, pode não levar ao impeachment desejado pela oposição, como detalhado pelo colega Rodrigo Lopes, mas desgasta sua imagem em fase de popularidade em alta. Na melhor das hipóteses, o responsável por decisões sobre o futuro do país caiu em um golpe. Na pior, contribuiu com um esquema que fez muita gente perder dinheiro e pouca gente ganhar.
Foi tudo muito rápido, como costuma ocorrer no universo digital em geral, e em particular no que envolve armadilhas: na sexta-feira (14), Milei postou um link que conduzia ao investimento na $Libra. E incentivou a aplicação, afirmando que se tratava de "projeto privado" para "incentivar o crescimento da economia argentina". A cotação disparou para, logo em seguida, desabar e virar pó.
No dia seguinte, Milei apagou a publicação e fez outra alegando não estar "informado dos detalhes" e, depois de tomar conhecimento, ter decidido "não seguir divulgando" – seguido de um ataque de baixo calão que evidencia o quanto foi impactado pelo episódio. Como é possível que, conhecendo o próprio poder nas redes, não tenha buscado saber mais antes de chancelar uma memecoin?
Como, desde a posse de Donald Trump em seu segundo mandato na Casa Branca, Milei tem tentado ecoar o presidente americano, pode ter sido tentativa de copiar a $Trump, memecoin lançada às vésperas de sua posse. Ao menos, o "ativo", no caso do presidente americano, era próprio. No caso de Milei, foi iniciativa de terceiros.
Nesta segunda-feira (17) na Argentina, o caso está em todas as manchetes de jornais, com detalhes escabrosos – um dos quatro envolvidos no projeto, Hayden Mark Davis, deu uma longa entrevista a um site especializado na qual diz estar "em perigo" (confira clicando aqui). Ele sustenta não ter sido uma fraude ("estafa"), mas admite ter lucrado US$ 110 milhões com a malfadada $Libra, valor que agora quer devolver. Ora, se não ganhou ilicitamente, porque restituiria?
Também defende Milei, mas diz "não saber" se outros sócios – Mauricio Novelli e Manuel Godoy, do Tech Forum Argentina, se beneficiaram por ter a informação privilegiada de que o presidente argentino chancelaria a cripto. E fez uma espécie de confissão com a maior candidez:
– A (acusação) de informação privilegiada me parece sempre uma estupidez porque em qualquer meme as pessoas que se beneficiam são os que a montam. Os que mais se beneficiam ou os que mais perdem sempre são os que estão mais perto.
Existe uma investigação aberta pela Casa Rosada, no âmbito do Escritório Anticorrupção (OA) e uma força-tarefa foi criada para o caso.
Atenção para memecoins
Uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo, a Binance, define memecoins como uma categoria construída não com base em inovação tecnológica, mas no poder coletivo da cultura da internet. Seu valor não é baseado na utilidade ou na escassez, mas no humor compartilhado e na disposição de acreditar na piada.
E adverte: "Para o usuário médio, envolver-se com memecoins significa um experimento de alto risco com psicologia coletiva. O primeiro princípio que os usuários devem lembrar é que esses tokens desafiam a lógica tradicional de investimento, prosperando não na utilidade ou valor fundamental, mas nas correntes inconstantes da viralidade". Isso, quando há boas conexões e intenções. Quando não há, fica ainda mais complicado.