A "guerra do arroz" provoca cobranças internas no governo federal, com o pedido de explicações do Ministério da Economia ao da Justiça pela notificação a supermercados. A medida, que ecoava o pedido de "patriotismo" feito pelo presidente Jair Bolsonaro ao setor, provocou arrepios na quarta-feira (9), por lembrar intervenções do Brasil nos anos 1980, na Argentina e na Venezuela, todas sem efeito para frear a alta de preços.
Nas redes sociais, por incrível que pareça, surgiram até negacionistas da disparada dos preços. Mas com exceção da correta isenção de imposto de importação do arroz adotada pelo Ministério da Agricultura, o governo ainda bate cabeça para tentar amenizar o problema.
Uma das dificuldades é que, agora, há pouco a fazer sem quebrar normais legais e regras de mercado. Antes que os preços decolassem, faltaram uma análise mais abrangente da situação do Brasil na pandemia e uma revisão de políticas públicas. Uma delas foi a aposta na desvalorização do real ante o dólar, o famoso "juro baixo e dólar alto" do ministro Paulo Guedes.
Especialista em câmbio, Sidnei Nehme observa que a alta dos preços é a ressaca do "câmbio alto estimulado pelo ministro da Economia". Considera uma "conclusão inquestionável" que a causa da pressão é o dólar em patamares elevados e lamenta que a correção não seja "tão rápida quanto a necessária" para evitar o retorno da inflação. Observa, ainda, que estratégia não alcançou o objetivo de "baratear" o país para elevar exportações e atrair investimentos estrangeiros, no lado do câmbio, e dos nacionais, no lado do juro.
Na época, o baixo crescimento era uma garantia não escrita de que a alta do dólar não provocaria volta da inflação. A recessão anunciada pela pandemia reforçou essa percepção, mas a equipe econômica "esqueceu" de projetar a alta no consumo com o pagamento do auxílio emergencial, que elevou a renda das camadas mais pobres da população.
Outra falha foi o esvaziamento dos estoques reguladores de produtos não perecíveis, como arroz, feijão, milho e soja – os que mais subiram. Especialistas observam que esses estoques hoje correspondem a uma semana ou menos de consumo nacional. No passado, equivaliam a meses. Os de arroz, por exemplo, caíram de 211,2 mil em agosto de 2014, para 20 mil, conforme dados da Conab. Mas é um esvaziamento que iniciou ainda no governo Dilma: haviam caído para a faixa de 50 mil em agosto de 2015.
Como a coluna já advertiu, ainda há aumentos de preços no atacado que serão repassados ao consumo nos próximos meses, com velocidade de repasse variada, dependendo dos estoques de cada produto. Um dos que mais preocupa a economia gaúcha é o do minério de ferro, que desemboca no aço, que chega a empresas ligadas tanto à construção civil quanto ao setor metalmecânico, com grande peso no Estado. Empresários relatam que o efeito de uma eventual escassez ou disparada no preço do aço pode ter "efeito mais danoso do que já nos causou a pandemia".
Os principais índices de inflação
IGPs: Índices Gerais de Preços, calculados pela Fundação Getulio Vargas. Têm três variações, IGP-M, IGP-DI e IGP-10, com diferença apenas no período de apuração. Cada um é composto por três subíndices: Índice de Preços no Atacado (IPA), com peso de 60%, Índice de Preços ao Consumidor (IPC), com peso de 30%, e Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), com peso de 10%.
IPCA: Índice de Preços ao Consumidor Ampliado, calculado pelo IBGE, é considerado o índice oficial do Brasil porque serve de referência para o Banco Central. Mede a variação de preços de produtos e serviços consumidos por famílias com renda entre um e 40 salários mínimos.
INPC: Índice Nacional de Preços ao Consumidor, também do IBGE, mede avariação nos preços de produtos e serviços consumidos por famílias com renda entre um e oito salários mínimos. É a referência para negociações de reajustes salariais.
IPCs: Índices de Preços ao Consumidor calculados pela FGV, tem quatro variações, entre as quais a mais conhecida é o IPC-S.





