
Um aspecto fundamental - e ainda pouco falado - em meio à enxurrada de análises sobre o ataque das forças russas à Ucrânia precisa de atenção imediata: o que vai acontecer com as milhares de pessoas que deixam suas casas às pressas para escapar da ameaça bélica? As cenas da fuga em massa chocam e, de certa forma, nos aproximam dos ucranianos. E se fosse conosco?
Kiev despertou em pânico em meio aos bombardeios, algo que não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Assustadas, famílias inteiras entraram em seus carros e formaram longas filas para ir para longe da fronteira com a Rússia. Ao mesmo tempo, centenas de pessoas recorriam às estações de metrô para se proteger.
A questão preocupa, em especial, pesquisadores como Lara Agustina Sosa Márquez, que se dedica ao estudo das migrações. Formada em Relações Internacionais, Lara faz doutorado-sanduíche em Ciências Sociais na PUCRS e na Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt, na Alemanha, onde vive. Ela acompanha os desdobramentos do conflito com angústia.
— Desde que ficou óbvio que ocorreria a invasão, mal dormimos aqui. Os vídeos e as fotos mostrando a população deixando Kiev são muito impactantes. Essas pessoas vão para onde? Já temos uma crise de refugiados na Europa e ainda há forte tensão em torno disso. Uma coisa que percebi aqui é que há uma xenofobia grande em relação a quem é do Leste europeu. Que plano a União Europeia e os aliados vão desenvolver para além de sanções econômicas à Rússia? Até agora, a pauta humanitária não recebeu prioridade — diz Lara, por telefone.
A vizinha Polônia, ressalta a pesquisadora, se dispôs a acolher os migrantes, e países como a Alemanha se ofereceram para prestar apoio aos poloneses nesse processo, mas será preciso mais do que isso. Ao que tudo indica, há uma nova crise humanitária em curso, que chega em meio ao avanço dos extremismos na Europa e após o auge de uma pandemia sem fim.
— Trabalho na minha tese com a ideia da “loteria do nascimento”. Dependendo de onde você nasceu, você ganha na loteria ou perde. Isso vai definir se você será aceito ou não, se terá visto ou não, e os ucranianos precisam de visto para entrar em muitos países europeus — ressalta a pesquisadora.
Além de acolhimento, será preciso discutir como os refugiados serão recebidos e integrados. E o conflito, infelizmente, parece estar só começando.




