Estudos em etapas distintas, com um número completamente diferente de voluntários e em populações com características próprias explicam por que uma mesma vacina pode ter resultados de eficácia discrepantes a depender do país em que a análise é conduzida. Na quarta-feira, véspera de Natal, pesquisadores da Turquia afirmarem que a CoronaVac teve eficácia de 91,25% contra a covid-19, um valor acima do registrado no estudo feito no Brasil.
A taxa obtida nos testes brasileiros deveria ter sido revelada na última quarta-feira (23) pelo Instituto Butantan, mas não foi anunciada a pedido do laboratório chinês, que pretende unificar os resultados dos estudos aplicados em diferentes países. Mas o secretário estadual da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, adiantou na quinta-feira (24) que a CoronaVac não atingiu 90% de eficácia no Brasil.
O consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Helio Bacha destaca que é normal haver discrepâncias por conta da demografia e geografia de cada país. É por isso, ele diz, que se produzem estudos "multicêntricos", um nome dado por cientistas para pesquisas feitas com um mesmo medicamento ou vacina em centros de estudo de mais de um país.
— Se houvesse uma expectativa de ter resultados iguais em diferentes países, não faríamos estudos multicêntricos. Fazemos porque temos respostas desiguais dependendo de geografia, condições climáticas, culturais e raciais — diz.
Mas o cerne da questão da discrepância de resultados da CoronaVac é que, ao que tudo indica, o estudo do imunizante no Brasil está em fase final, enquanto que o turco teve resultados divulgados no meio do caminho, aponta a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenada da Rede Análise Covid-19. Ela ressalta que ainda há poucas informações sobre o tema.
O site Clinical Trials, mantido pelo governo dos Estados Unidos e onde farmacêuticas registram a etapa de estudos clínicos, mostra que o Instituto de Saúde da Turquia aplicou a CoronaVac até agora em 1,3 mil participantes em meio à expectativa de recrutar 13 mil. Enquanto isso, no Brasil o estudo já fechou a análise com 13 mil voluntários, a ponto de o Butantan afirmar que poderia submeter os resultados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
— Na Turquia, foram dados de 1.322 voluntários e 29 eventos (infecções dentre participantes), sendo 26 em placebo. Daí tiraram os 91,25% de eficácia. Mas é uma população pequena. Existe intenção de expandir para 13 mil participantes, então ao que tudo indica essa é uma analise preliminar. Além disso, foram analisadas pessoas de 18 a 59 anos. Aqui no Brasil, incluímos idosos — pondera Mellanie, que também é pós-doutoranda em Bioquímica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A opinião é compartilhada por José David Urbaez, médico e diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, para quem o número de voluntários e de infecções detectadas no estudo da Turquia ainda é muito baixo.
— Em estudos em fase 3, habitualmente você fixa várias análises interinas para ver como está evoluindo o impacto (da vacina). Se uma das análises interinas trouxer resultado muito abaixo do esperado para a Organização Mundial da Saúde (OMS, que recomenda eficácia de pelo menos 50%), você começa a pensar que aquilo não está dando certo — diz o infectologista.
Não está claro por que a Turquia anunciou resultados preliminares de fase 3, antes de concluir o estudo, e por que Instituto Butantan e Estado de São Paulo anunciariam resultados da CoronaVac antes da consolidação dos dados a nível mundial, se o laboratório chinês não pedisse o adiamento para revisá-los e batê-los com os números de outros países.
— O pedido da SinoVac (de consolidar os dados antes do anúncio) é normal. Você faz uma análise de todos os resultados do estudo multicêntrico para ter um resultado maior (a nível mundial). Butantan e Estado de São Paulo erraram em querer adiantar a divulgação de um resultado que não estava pronto. E a Turquia tem seus poréns: não faz o mínimo sentido você divulgar os resultados de um estudo de fase 3 com só 1,3 mil voluntários. É um dado muito prematuro — acrescenta Urbaez.
Os analistas observam que uma eficácia acima de 50% já é excelente e que a população não deveria ter como expectativa uma taxa acima de 90%, como as vacinas da Pfizer e Moderna, cujo desempenho é uma exceção. A vacina da gripe, por exemplo, tem eficácia de até 60% e salva milhares de vidas todos os anos.
O médico infectologista Helio Bacha acrescenta que a CoronaVac é uma aposta importante de vacinação do governo federal, junto com a vacina de Oxford, produzida pela AstraZeneca em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A expansão feita de última hora para incluir Pfizer e Moderna também é necessária para começar o quanto antes a vacinação dos brasileiros, diz.
— Faltou o governo federal ter feito essa articulação antes para começarmos a vacinar agora, como Itália, Estados Unidos, Inglaterra, Costa Rica, Chile e outros da América Latina. A partir de agora, temos que parar com essa campanha antivacina. Temos declarações de autoridade contra vacinas que impressionam a história do compromisso de imunização do Brasil — lamenta o médico da SBI.




