Quarenta e dois anos depois de desembarcar sozinho em Porto Alegre, sem ter onde dormir e com poucos trocados no bolso, o goiano de Piracanjuba Sebastião Melo (MDB) foi eleito neste domingo (29) para governar a capital gaúcha pelos próximos quatro anos.
A confirmação da vitória pôs fim à pilha de nervos que atormentava os aliados do emedebista, diante de um segundo turno que se tornou acirradíssimo por conta do crescimento da adversária Manuela D’Ávila (PCdoB), sobretudo na reta final, fato que levou emedebistas a temerem uma virada.
Melo foi eleito com 54,63% dos votos válidos, contra 45,37% da concorrente. Nesta segunda-feira (30), em reunião já anunciada, ele dará a largada no processo de transição com o prefeito Nelson Marchezan (PSDB). Melo pretende se reunir com o governador Eduardo Leite (PSDB) na terça-feira (1º) e, se possível, com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na quarta-feira (2). A intenção é discutir temas de interesse de Porto Alegre nas agendas. Depois de José Fogaça, que renunciou ao cargo em 2010 para concorrer ao governo do Estado, o MDB volta a comandar a cidade a partir do histórico prédio da prefeitura, localizado na Praça Montevidéu.
O emedebista reafirmou que, tão logo assumir o cargo em 1º de janeiro de 2021, suas primeiras medidas serão dedicadas ao setor econômico. Ele enviará à Câmara Municipal projetos de lei para cancelar os aumentos do IPTU que vencem a partir de 2022 e criar programas de parcelamento de dívidas e de oferta de microcrédito. O objetivo é incentivar a abertura e a manutenção de negócios em meio aos efeitos da pandemia.
— Vamos criar um comitê da covid-19. Vai ser balizador, com infectologistas, médicos e economistas. Vamos preparar a cidade para a vacina. Estou convencido de que o governo federal vai comprá-la — disse Melo em entrevista coletiva após a vitória, reafirmando que não pretende fechar atividades econômicas da cidade para combater o recrudescimento do coronavírus.
A campanha, que teve momentos tensos e trocas de acusações na reta final do segundo turno, ficou marcada por um arriscado jogo de xadrez praticado por Melo nos bastidores. Não foram poucas as sacadas ousadas e os reposicionamentos políticos, mas a destreza no movimento das peças permitiu o xeque-mate.
A mais notória das tacadas foi na formação da aliança. Em 2016, Melo perdeu o segundo turno para Marchezan tendo postura de candidato de centro, quiçá centro-esquerda, com a pedetista Juliana Brizola na posição de sua vice. O pragmatismo e a ambição de chegar à prefeitura prevaleceram em 2020.
Em tempos de polarização, o centrismo não se mostrava um caminho viável. Tomar lado era preciso. Ao perceber que o bolsonarismo não tinha um candidato natural em Porto Alegre, Melo usou sua conhecida habilidade de aglutinador político para fechar ampla aliança com a direita porto-alegrense. Levou o apoio de parlamentares bolsonaristas, como Bibo Nunes, Ubiratan Sanderson e Luciano Zucco, todos do PSL, dos militaristas e dos liberais.
O emedebista construiu na sua trajetória um predominante perfil popular, de votação em periferias, calcado no carisma de um homem simples, com cara de povo. Mas, com a aliança da hora, virou também o candidato dominante do Moinhos de Vento, do Parcão, da Bela Vista e da Praça da Encol, redutos da elite econômica. Ingressou em ramos da classe média-alta e adotou discurso repaginado, como a defesa convicta das parcerias público-privadas e das privatizações, o que ele não tinha feito em 2016. Melo surfou na onda do antipetismo e do antiesquerdismo, mesmo que esses sentimentos já não tenham a mesma intensidade que tiveram em 2018.
O comprometimento com a aliança foi tamanho que um dos assessores do agora prefeito eleito chegou a ler livros do filósofo Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, em uma tentativa de compreender melhor os pensamentos dos novos parceiros de palanque.
É como se o ônibus da viação Penha, que trouxe Melo para Porto Alegre em fevereiro de 1978, tivesse dado um cavalo de pau à direita, com o solavanco da manobra lançando o emedebista à cadeira de prefeito. Detalhes da vitória que se tornam indeléveis em sua biografia.
— Realmente, Melo fez uma aliança à direita. Isso esquentou o discurso de Manuela e energizou suas bases eleitorais, mas a aliança partidária construída pelo Melo foi a mais representativa de todo o espectro político da cidade. A vitória se deu em todos os níveis sociais — analisa o ex-prefeito José Fogaça, que atua como um dos conselheiros do prefeito eleito.
Ainda que o MDB negue autoria, a segunda jogada ousada se refere aos fatos que levaram à renúncia de José Fortunati (PTB). O petebista, que havia sido prefeito entre 2013 e 2016, tendo Melo como vice, tinha uma candidatura competitiva e disputava eleitorados semelhantes ao do emedebista. Havia uma luta palmo a palmo pela vaga no segundo turno, até que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), na semana da votação em primeiro turno, impugnou a candidatura do vice de Fortunati, André Cecchini (Patriota). Quem moveu a ação foi um candidato a vereador do PRTB, sigla aliada de Melo. Não havia mais tempo legal para substituir o vice, e Fortunati, encurralado e ameaçado de ter os votos anulados, teve de renunciar. O PTB, de imediato, passou a apoiar Melo. Fortunati, logo a seguir, obedeceu ao partido e fez o mesmo. Foi um lance fundamental para a arrancada que fez Melo findar o primeiro turno na liderança, à frente de Manuela, que vinha liderando as pesquisas naquela etapa.
O sucesso de Melo também é uma redenção pessoal. A derrota para Marchezan em 2016 deixou profundas marcas no político. Não só por ter perdido, mas também pelo drama da morte do amigo e assessor Plínio Zalewski durante aquela eleição. Zalewski era um intelectual que trabalhava havia anos com Melo. A relação entre ambos era mais do que profissional, até o dia em que Zalewski foi encontrado esfaqueado, ensanguentado e com um bilhete na mão no banheiro do diretório do MDB. Um suicídio brutal.
— O Plínio foi a maior de todas as dores, mais do que a da derrota. Ficamos sem entender até hoje. Para o Melo, foi horrível. Imagina encontrar o teu parceiro caído num banheiro, todo esfaqueado. Manter aquela campanha depois da morte foi horrível. E ainda acabamos perdendo a eleição — recorda a publicitária Valéria Leopoldino, esposa de Melo.
O calejado emedebista superou o episódio, voltou a advogar em 2017 — tempo em que Valéria diz ter sido difícil “pagar as contas” — e conquistou uma cadeira de deputado estadual em 2018. Melo perdeu diversas eleições em Porto Alegre, seja para vereador, prefeito ou deputado, mas teve a persistência como característica marcante. Não por acaso, no discurso da vitória, bradou que veio à capital gaúcha ainda jovem para "vencer na vida". Ao final de dezembro, ele deixará a Assembleia Legislativa para assumir a prefeitura. Será tempo de conferir se Melo conseguirá fazer aquilo que repetiu à exaustão na campanha: “Retribuir em dobro tudo que Porto Alegre me deu”.