Jamais imaginei que iria viver para testemunhar o que presenciei segunda-feira à noite: um caminhão-tanque com gasolina que passou em direção a um posto de combustíveis sendo saudado por quem acompanhava o transporte, reflexo de uma cidade sem nenhuma gota do produto nas bombas. Os caxienses, desde o final da semana passada, encontram-se reféns da falta de gasolina. Algo impensável.
O movimento dos caminhoneiros agora já escorrega perigosamente para ser sustentado menos pelos caminhoneiros e mais por interesses políticos. E a cidade permanece refém da falta de gasolina. Ainda assim, o movimento ganhou, desde o início, o apoio popular porque incorporou um descontentamento represado, especialmente contra a sanha dos governos pela cobrança de impostos, sem a retribuição na qualidade dos serviços e de infraestrutura. Recursos arrecadados que, com frequência cotidiana, são desviados para bolsos alheios pela corrupção.
A tal ponto foi esse apoio que começou a gerar ações espontâneas de pessoas comuns, que saíram a trancar ruas pela cidade, em solidariedade aos caminhoneiros. Escutei de um desses manifestantes espontâneos um desabafo que traduz bem a situação:
— A gente não aguenta mais — disse ele.
Esse é o sentimento de parte da população. O movimento dos caminhoneiros foi onde desembocou esse descontentamento. É compreensível, legítimo e justo, portanto, o apoio aos caminhoneiros, à custa do sacrifício de ficar sem combustível, especialmente antes de o movimento começar a resvalar para "outros interesses", como diria o velho Brizola.
De tudo isso que se viu, no entanto, emerge uma questão insondável: todos esses, grande parte da sociedade, que agora apoiam os caminhoneiros, e o fazem bem, por que nunca apoiaram da mesma forma, com a mesma intensidade e organização, a mal remunerada e brava categoria dos professores em qualquer uma de suas sucessivas greves em busca de valorização? Por que nunca o fazem é a pergunta de 1 milhão de dólares, o que se torna mais incompreensível diante do discurso fácil, generalizado na sociedade, de apoio à educação. Não há quem não se associe, no discurso, à causa da educação. No entanto, a sociedade nunca esteve ao lado dos professores, fortalecendo o movimento deles na busca por educação de mais qualidade.
Que grande mistério, a falta de apoio efetivo, objetivo aos professores. Enquanto não o fizerem, os mesmos que apoiam os caminhoneiros, enquanto a sociedade não valorizar o professor, aquele discurso oco de que a saída passa pelo apoio à educação não vale um vintém.
Espero viver para testemunhar a educação ser valorizada neste país, como testemunhei o caminhão-tanque que passou com gasolina rumo ao posto na segunda-feira.
Por enquanto, há pouca esperança. É triste.


