Após terem chorado no fim da sessão de Bacurau durante o Festival de Cannes, nesta quarta-feira (15), os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles afirmaram que a emoção foi provocada por exibirem o longa enquanto as artes no Brasil sofrem um "desmoronamento".
— Foi incrível mostrar esse filme num momento em que estão tentando esconder a cultura — afirmou Kleber em conversa com os jornalistas no dia seguinte à estreia.
Ele ainda mencionou os protestos em várias cidades brasileiras contra o congelamento de gastos na educação, que aconteceram de forma concomitante à projeção do longa em Cannes.
— Apoiamos de forma integral. É importante numa democracia expressar a infelicidade. Não podemos perder de vista o que educação significa. É o que significa resistência dentro de um sistema estranho no qual não se acredita — argumentou o brasileiro.
Ao seu lado, Dornelles completou.
— Tanto nós aqui em Cannes quanto eles lá no Brasil estamos fazendo a nossa parte para que não destruam o que foi conquistado.
Produzido pela dupla, o longa Bacurau colheu críticas que foram majoritariamente elogiosas. É uma distopia que imagina um Brasil num futuro próximo, tomado por uma escalada de violência e por uma cisão muito evidente entre as regiões Norte e Sul.
O título do filme dá nome à cidade onde o enredo se passa. Um lugarejo no meio do sertão, na região oeste de Pernambuco, assolado por invasões estrangeiras comandados por um alemão vivido pelo ator Udo Kier (Blade, O Caçador de Vampiros) e apoiados por dois sudestinos entreguistas.
A resposta que se segue aos assédios dos invasores é um banho de sangue que tem referência nos filmes de faroeste e faz ode ao cangaço, personificado na figura do transgênero Lunga (Silvero Pereira) e tratado na trama como um manifesto cultural contra o imperialismo estrangeiro.
Sobretudo entre os jornalistas estrangeiros, houve curiosidade se a história era uma resposta à ascensão de Jair Bolsonaro e ao apoio a políticas de armamento da população. Os diretores responderam que a história vinha sendo escrita bem antes, desde 2009.
— Mas de repente a realidade alcançou o roteiro — disse Kleber.
Entre os detalhes mais evidentes que citam os últimos acontecimentos políticos no filme está o fato de que os cineastas deram os nomes de Marielle e de Marisa Letícia a algumas das personagens.
Essa é a segunda vez que Kleber compete pela Palma de Ouro. A primeira vez, em 2016, foi com Aquarius, que ficou conhecido por ter sido exibido após um protesto anti-impeachment encampado pela equipe do filme no tapete vermelho.
Kleber falou sobre o processo que sua produtora responde no país, relativo ao financiamento de O Som ao Redor (2012). O Ministério da Cidadania, que substituiu o Ministério da Cultura, cobra que sejam devolvidos R$ 2,2 milhões porque acusa o diretor de ter feito uso irregular de um edital de baixo orçamento.
— É algo sem precedentes no cinema brasileiro — comentou o cineasta. — Estamos lidando com essa situação. Esperamos reverter isso porque essa acusação não faz sentido.
O alemão Kier brincou que nunca havia pisado no Brasil antes de fazer o filme.
— Imaginava que fosse encontrar só gente bonita, bebidas, Carnaval, mas em vez disso me botaram num carro e me levaram numa longa viagem.