
A exemplo do que aconteceu em boa parte do Brasil, Porto Alegre também viveu a onda dos festivais de música popular na segunda metade dos anos 1960. No centro do país, o mais famoso foi o Festival da Record, no qual apareceram nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo, entre outros.
Na Capital, os festivais que mais se destacaram foram o Sul-Brasileiro da Canção e o Universitário da Música Popular. O primeiro teve três edições (de 1967 a 1969) no Teatro Leopoldina e no Grêmio Náutico Gaúcho, com o mérito de reunir artistas de diferentes tendências musicais. Estavam lá os cantores do rádio Edgar Pozzer e Érica Norimar, os sambistas Alcides Gonçalves e Túlio Piva e a nova geração com César Dorfman, Raul Ellwanger, Fernando do Ó e o grupo Canta Povo.

Já o Festival Universitário da Música Popular (conhecido como Festival da Arquitetura, já que era iniciativa do diretório acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS) lotou o Salão de Atos em 1968 e 1969. Além de músicos locais, atraiu artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo em começo de carreira, como Danilo Caymmi, Zé Rodrix, Paulinho Tapajós e Beth Carvalho (por sinal, a sambista fez aqui a sua primeira apresentação em público como solista). Algumas canções receberam arranjos de maestros de expressão nacional, como Rogério Duprat, Luiz Eça e Antônio Adolfo. Independente disso, todas as concorrentes ganharam acompanhamento da Ospa, posicionada em frente ao palco, sob a regência do alemão Alfred Hülsberg.
Na primeira edição do Festival da Arquitetura, predominou o estilo tradicional de canção, com pitadas de “pós-Bossa Nova”, na linha de Chico Buarque e Edu Lobo, como assinalou Juarez Fonseca (colunista de Zero Hora) no artigo “Porto Alegre, anos 60: uma década musical quase esquecida”, publicado no livro Pensando Porto Alegre (Hominus, 2012). As 12 canções finalistas foram gravadas em disco pela Philips, só que, ao invés de intérpretes originais, a gravadora optou por convocar cantores já conhecidos nacionalmente. Assim, Jogo de Viola (primeiro lugar no festival), de João Alberto Soares, foi cantada por Edu Lobo e Sim ou Não, de Ellwanger, apareceu na voz de Junaldo no LP.
O II Festival da Arquitetura, por sua vez, trouxe os acordes dissonantes da Tropicália, de Caetano e Gil (a essa altura já exilados em Londres), o que causou polêmica. A banda O Succo, por exemplo, estava disposta a “romper as estruturas”, como se dizia na época. O baixista Chaminé (Flávio Dias) circulava nos bastidores vestido de ceroulas, com um penico na cabeça, enquanto os outros músicos – Mutuca (Carlos Eduardo Weyrauch), Cláudio Vera Cruz, Eliana Donatelli e Português – exibiam um ar de galhofa, o que motivou críticas da cantora Maria de Lourdes, mulher do pianista e arranjador Geraldo Flach. “Chaminé replicou com um palavrão, ao que Geraldo partiu para cima dele com um ‘bife’, sendo contido por outros músicos. Nesse momento, Português acertou a cravelha de seu contrabaixo elétrico na cabeça de Geraldo”, registrou Fonseca.
Algum tempo depois, enquanto Flach fazia curativo no Pronto Socorro, O Succo cantava Nem Só de Graves Vive o Homem (de Chaminé e Vera Cruz) com um pacote de talco no meio do palco (o plano era que os membros da banda jogassem uns nos outros). Nisso, “empolgado pela música e ainda alterado pela briga, Português chutou o pacote na direção da orquestra postada no fosso em frente – o que, além de sujar os ternos pretos dos músicos, acabou com o som dos violinos”, contou Fonseca. O vencedor foi Carlinhos Hartlieb, com Por Favor, Sucesso, que ganhou o direito de concorrer no Festival Internacional da Canção (FIC), da Rede Globo. Em tempo: a música de O Succo ficou em sexto lugar.



