
Na Europa das famílias reais e dos primeiros-ministros encastelados em seus gabinetes, a imagem do presidente de Portugal de bermuda azul-celeste, usando máscara de proteção e mantendo o distanciamento físico de outras pessoas na fila de um supermercado de Cascais, é símbolo de um continente que busca referências para sair do confinamento. A foto de Marcelo Rebelo de Sousa, como homem comum, gente como a gente, pode ser simbólica da Europa que emerge da pandemia que atingiu a todos, colocou políticos e cidadãos, rainhas e súditos em frágil pé de igualdade diante do vírus.
A imagem de simplicidade do chefe de Estado viralizou do outro lado da fronteira, na Espanha, chamou a atenção entre os franceses e seus políticos engravatados e repercutiu do outro lado do Canal da Mancha, entre os britânicos de líderes famosos pela fleuma. Não chegou, entretanto, a ser surpresa para os próprios portugueses.
Eleito em 2016 com uma campanha franciscana (equipe diminuta e gastos mínimos), Rebelo de Sousa nunca mudou-se para o Palácio de Belém, sede da presidência. Preferiu continuar morando em sua casa em Cascais, onde costuma tomar banho de mar cedo da manhã - com exceção durante a pandemia -, caminhar pelo centro e fazer as próprias compras, como no domingo (17) em que foi flagrado em um supermercado da rede Continente. Quem tirou a foto e postou, segundo o jornal Correio da Manhã, foi o humorista português Eduardo Madeira. A legenda no Instagram: “Como não curtir”.
Chama a atenção o comportamento exemplar do presidente:: sempre de máscara, Rebelo de Souza evita contato físico com cidadãos. Quando abordado com pedidos de beijos e abraços (sua popularidade se manteve intacta desde a eleição), ele permite, no máximo, o cumprimento com o cotovelo.
Na Espanha, internautas aplaudiram virtualmente a foto: “Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal. Distância física, máscara. Bravo!”, afirmou Pablo Fuente no Twitter. “Quando os políticos são pessoas e não personagens. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal. Um cidadão mais”, tuitou Rosa Tamés.
Não é a primeira vez que sua foto ganha repercussão internacional por conta de sua simplicidade e empatia. Durante a crise dos incêndios em Portugal, em 2017, a revista americana Time destacou uma imagem em que o político abraça uma das pessoas afetadas pelo fogo. À época, foi chamado de “o presidente dos afetos”.
Fundador do Partido Social Democrata (PSD, de centro à centro-direita), Rebelo de Sousa dá forte exemplo no momento em que os europeus começam a sair do isolamento - ainda temerosos de uma segunda onda da pandemia.
- É tempo de fazer a abertura com cuidado, pequenos passos, e ir perdendo o medo, ir aparecendo e consumindo - afirmou, antes de garantir que irá retomar visitas a museus e a frequentar restaurantes.
Portugal foi um dos países menos atingidos pelo coronavírus na Europa. Registra até agora 29,2 mil casos e 1,2 mil mortes. Bem diferente da situação da vizinha Espanha (231 casos e 27 mil óbitos). Mesmo considerando a diferença populacional entre as duas nações, a proporção de mortos por 1 milhão de habitantes é quatro vezes maior entre os espanhóis. Tudo indica que Portugal se beneficiou por ter agido cedo diante do coronavírus, fechando fronteiras com a Espanha e suspendendo aulas tão logo os primeiros casos foram identificados. O decreto que determinou o estado de emergência veio na sequência, com restrições de circulação, convívio social, interdição de praias e fechamento de atividades não essenciais.



