
A trajetória da porto-alegrense Karen Salvi é uma história de seu tempo. Formada em engenharia química aos 29 anos, achou que estava "velha" para disputar mercado com recém-formados. Quando havia multidão de concurseiros, situação que se alterou com a recessão e o novo governo, obteve vaga em uma estatal. A promessa do Brasil na época, o pré-sal, abria oportunidades. Com bom humor, disposição de aprender e apego à família, tornou-se piloto de navio petroleiro e acaba de se formar capitã de cabotagem – navegação na costa, que o atual governo pretende incentivar. Para contar o percurso de Karen em uma área pouco conhecida, a coluna contextualiza essa edição especial de final de ano da seção Respostas Capitais.
Escolha ao acaso
"Nunca havia pensado em ser piloto de navio, até porque é uma profissão pouco conhecida no Rio Grande do Sul. É mais comum no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo. Comecei na metade de 2005, em julho de 2006 entrei para a praticagem (estágio na atividade naval). O que mais estranhei foi a diferença cultural, tanto entre os colegas brasileiros como com muitos estrangeiros que vieram."
A descoberta de petróleo na chamada "província do pré-sal", anunciada em 2007, deflagrou grande movimentação de mão de obra, desde a construção de embarcações, como o polo naval de Rio Grande, até a operação de plataformas e navios de apoio. A mão de obra especializada se tornou rara e cara, o que condicionou escolhas profissionais como as de Karen.
Formação e concurso
"Cursei a Escola de Formação de Oficiais de Marinha Mercante (Efomm), que equivale a quatro anos de faculdade. Fiz uma especialização para o curso de Oficial de Náutica, que inclui um ano estudando e um ano a bordo, para fazer a praticagem. Na Marinha, chamamos o estagiário de 'praticante'. No meio do curso, passei no concurso da Transpetro."
De departamento de transportes da Petrobras, a Transpetro virou uma poderosa subsidiária. Chegou a ter 6,5 mil funcionários em 2016, 14 mil quilômetros de oleodutos e gasodutos, 47 terminais (20 terrestres e 27 aquaviários) e 55 navios. Foi um dos alvos da Operação Lava-Jato. Tem privatização prevista pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Atividade
"Era piloto, trabalhava em navio em turnos de quatro horas intercaladas. Fazia os períodos Das 8h às 12h e das 20h até 24h. A intenção é garantir que esteja sempre alerta, e também fazemos outras coisas. O normal é ter três pilotos: um primeiro e dois segundos. Um cuida da salvatagem, o sistema de boias, coletes e outros equipamentos para resgate, outro dos detectores de gás e fumaça. O primeiro cuida da documentação do navio e da carga e faz as 'derrotas' (como são chamadas as rotas de navegação). O sistema é trabalhar embarcada por quatro meses. O certo seria dois, mas nunca havia gente suficiente. As viagens maiores levavam cerca de 15 dias, chegando aos portos podia descer, mas tinha de voltar a bordo."
Funcionários de navios e plataformas são chamados de "embarcados" e têm escalas de trabalho bem diferentes da média, dependendo da atividade que exercem e da empresa à qual prestam serviço.
Em plataformas
"Durante certo tempo, atuei em plataformas de produção de petróleo. Nessas embarcações, trabalhava seis horas e folgava seis horas. Isso me desgastou muito, porque praticamente não dormia. Ficava embarcada por 28 dias, depois tinha 28 de folga. Também trabalhei em um navio que chamamos de lançamento de linha, com turno de 12 horas e folga de 12. Passava 12 horas olhando para os computadores, para fazer o posicionamento dinâmico. Era muito tedioso."
As plataformas são a parte do equipamento de produção de petróleo que fica na superfície do mar. Abaixo, há outro complexo sistema, que inclui bombas, cabos e sistemas automatizados de controle. Embora tenha de ficar parada, para não haver risco de desconexão com a parte subaquática, a plataforma é deslocada pelo movimento da água, por isso é necessário ajustar a posição constantemente.
Dia a dia a bordo
"A rotina é completamente diferente, tem academia disponível durante 24 horas. O problema é que, quando comecei, não tinha internet, então eu levava muitos CDs. Certa vez, coloquei meu computador sobre a cadeira e dormi. Acordei com a cadeira voando, porque o navio havia adernado 20°. Quando eu chegava em casa, em terra firme, colocava tudo no chão. Minha mãe perguntava o motivo e eu respondia 'é por que balança'. Às vezaes, ficava mareada quando descia, tinha de caminhar com cuidado para me equilibrar."
Em grandes navios e plataformas, costuma haver um módulo de hospedagem, onde ficam os quartos para dormir, refeitório, salas de jogos, academia e outras facilidades.
Tempestades
"Todo mundo fala em balanço de navio, mas só há balanço quando oscila de um lado para o outro, lateralmente. Quado o mar move o navio de baixo para cima, levantando a proa (frente da embarcação), chamamos de 'caturro'. Para o pessoal da praça de máquinas, é horrível, mas eu achava maravilhoso. Já o balanço me dá dor de cabeça. Fiquei uma ou duas vezes mareada nesses episódios. Quando pegamos tempestades, achamos bom, dizemos que 'lava o convés', põe uma água doce (da chuva). Mas nada dramático aconteceu. O papel do piloto na tempestade é deixar a viagem o mais confortável possível para as pessoas a bordo".
Concurso e desistência
"Decidi sair da Transpetro, mesmo sendo concursada, porque pedi para ser incluída nos navios com destino a Porto Alegre e não me atenderam. Na época, empresa estava desesperada por pilotos, não poderia ter feito isso. Aproveitei e fui para o mercado privado, que pagava melhor. Decidi sair e ir para a navegação de apoio offshore, que dá apoio logístico às unidades de exploração e produção de petróleo."
A indústria de produção de petróleo é complexa e inclui múltiplas atividades. No auge da movimentação provocada pelo pré-sal, empresas internacionais traziam profissionais do Exterior para atuar no Brasil e, aqui, disputavam a peso de outro os qualificados para atuar na área.
Questão de gênero
"Na época da praticagem, por ser a única mulher, houve situações desconfortáveis. Não dá para chamar todas de assédio, mas não é fácil. No navio, existe hierarquia, as pessoas podem tentar, mas a gente finge que não entende. Certa vez, um supervisor técnico começou a me deixar em situação muito constrangedora, de assédio. Quis colocar minha escala na mesma que a dele. Dizia que precisava me proteger. Conversei com meu supervisor para evitar essa situação. O que foi combinado era que mudássemos para eu não embarcar mais com ele, mas mesmo assim ele manipulou todo mundo. Nada aconteceu com ele, e o clima ficou bem ruim para mim."
Mulheres só foram admitidas nas escolas de formação de oficiais a partir da segunda metade da década de 1990. As primeiras nove oficiais da Marinha Mercante Brasileira se formaram em 2000. E só em 2011 uma mulher foi promovida a chefe de máquinas de um navio no Brasil.
Aperfeiçoamento contínuo
"Cheguei a ser contratada para atuar em uma plataforma de última geração, mas tive de explicar à empresa que o melhor era eu ir para uma mais antiga. Havia feito um curso de sistema de posicionamento dinâmico, por meio de computadores. Era o que mais dominava, então disse que só ficaria na vaga se fosse para trabalhar com isso. Se eu tivesse aceitado trabalhar com uma tecnologia que não conhecia, iriam dizer que a ruim era eu."
Assim como em outros segmentos, o uso de recursos eletrônicos no comando de navios e plataformas cresce. O Brasil tentou se tornar um fabricante desses equipamentos, mas o alto custo e a falta de mão de obra qualificada praticamente enterraram o sonho de produzir plataformas no país, do qual o polo naval de Rio Grande era parte.
Capitã de cabotagem
"Acabei de me formar como capitã de cabotagem. Esse tipo de profissional pode comandar um navio, inclusive petroleiro, na costa brasileira ou ser imediato (primeiro cargo abaixo do capitão ou comandante). Como estou há muito tempo sem navegar, ninguém vai me contratar direto como capitã. Vou atuar como piloto, depois como imediata. Agora, estão chegando muitas plataformas. Imagino que eu deva voltar em março de 2020. Vai faltar gente. Há muitos desempregados, mas poucos com especialização em plataforma de produção."
Conforme a Petrobras, 11 novas plataformas vão passar a operar no Brasil até 2021. Não são mais montadas no Brasil, como no auge da indústria naval, mas podem representar atividade para empresas que produzem módulos, como a EBR, de São José do Norte, e emprego para profissionais como Karen.
Outros barcos
"Quando fui para a Inglaterra, quis dar um passeio de barco pelo Rio Tâmisa. Estava chegando e comecei a contar os colete. Quando todos subiram a bordo, vi que tinha gente demais. Pensei 'isso aqui vai adernar, eu nado bem, mas com gente em cima de mim não vai rolar'. Não ando de barco de passeio."





