Carpinejar

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Poeta, cronista e jornalista, autor de 48 livros entre crônicas, poesia, reportagem e infanto-juvenil, duas vezes prêmio Jabuti.

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Opinião

Os inesquecíveis bobes nos cabelos

Eu passei a infância acompanhando a minha mãe e a minha irmã com bobes nos cabelos, recurso primitivo da época para ajeitar os penteados na véspera das festas

GZH

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Você se lembra da dona Florinda do programa do Chaves? Hoje ela não existiria mais.

Também perderia metade do encanto a matriarca do sincericídio, dona Hermínia, de Minha Mãe é uma Peça, criação do saudoso Paulo Gustavo.

Ambas as figuras eram caracterizadas pelos bobes nos cabelos.

Com a consolidação da chapinha e do babyliss, eles desapareceram da prática cotidiana do embelezamento. Bobes colocados na horizontal davam volume e criavam ondas. Bobes na vertical alisavam.

Eu passei a infância acompanhando a minha mãe e a minha irmã com bobes nos cabelos, recurso primitivo da época para ajeitar os penteados na véspera das festas.

Demorava para os fios ganharem curvas. Tratava-se de uma imersão que começava no final da manhã, atravessava o almoço e terminava no Jornal Nacional.

Elas não poderiam atender nenhuma visita. Gritavam a cada silvo da campainha: “não estou para ninguém”.

Armadas de vassouras, viviam correndo os três guris de perto, para não incomodarmos, para não entrarmos no quarto, território sagrado da preparação estética.

O secador representava uma função à parte. Chuveiro estava proibido para não cair a energia de repente.

As mulheres pareciam astronautas da beleza pisando na Lua.

Quando ficavam prontas, eu não mais reconhecia a minha irmã e a minha mãe. Evaporavam em nossa frente.

Elas se tornavam iguais às Panteras, sósias de Farrah Fawcett, com a moldura arredondada e volumosa brilhante adornando os rostos.

Lá vinham elas com o gelo seco abrindo o espetáculo de nossos olhos.

O cheiro de cera do piso do ambiente cedia espaço para a neblina do spray fixador.

O mais impactante para a minha sensibilidade é que eu testemunhava a lenta transformação da aparência, o antes e o depois, o camarim e o palco, o que aumentava o maravilhamento, o pasmo e a surpresa.

Sem o amparo de um salão e daqueles capacetes metálicos, havia todo um trabalho artesanal. Era necessário preparar um por um dos rolinhos com um número incomensurável de grampos.

Atualmente, não se vê mais o mesmo martírio. Em compensação, foram extintos os bastidores divertidos da arrumação.

As pessoas se trancam no banheiro e saem de lá em minutos, como num passe de mágica.

Não acompanhamos mais as etapas de transmudação, o esforço cinematográfico de produção de nossas celebridades caseiras.

Não desfrutei dessa experiência com a minha esposa. Já começamos a namorar com as benesses práticas da modernidade.

No máximo da informalidade, eu a observo com a touca transparente para o banho. Nada que dure muito tempo para sacrificar o mistério da relação.

Beatriz é que pega no meu pé na nossa intimidade. Não entende o motivo de eu usar pijama com bolso. Ela me pergunta se, por acaso, vou levar a minha identidade para a cama.

Nem a identidade cabe naquele bolsinho. Serve só como suporte para os comprimidos, coisa de velho cheio de deliciosas reminiscências familiares, que precisa se esforçar para se lembrar do presente e tomar os remédios de madrugada.


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