
Após quatro anos seguidos encolhendo em área semeada, o trigo inicia tímida reação no Rio Grande do Sul, Estado que tem no grão sua principal cultura de inverno. Segundo a Emater, o plantio deve ocupar 739,4 mil hectares, expansão de 4,12%, conforme pesquisa realizada na primeira quinzena de abril em 246 municípios gaúchos (que somam 89% da área de trigo no Estado). Os números do órgão estadual são diferentes dos previstos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que utiliza outra metodologia, e que prevê manter os 681,7 mil hectares do ano passado, mas aumento em produção e produtividade.
Um dos estímulos para a freada na retração do plantio vem do preço da saca, que ficou em R$ 40,59 na média do ano. Em 2018, o valor médio era de R$ 37,43. Se o mercado se mantiver favorável, e a safra for produtiva, a família do produtor Jairo Gaviraghi, 47 anos, pretende expandir o espaço do trigo em 45% na próxima temporada.
No atual ciclo, o plantio na propriedade de Santa Rosa começou no início de junho. A expectativa é de colher 60 sacas por hectare, cinco a mais do que em 2018 e bem acima da média do Estado no ano passado, que ficou em 41,15 sacas por hectare.
— Se o ano for bom, podemos plantar mais trigo na nossa área ou até ir comprando mais terra. Uma vez, a gente plantava 40 hectares só – conta Gaviraghi, ao lembrar da década de 1970, quando seu pai dependia do trigo.
Com o passar do tempo, a soja tornou-se a principal fonte de renda na propriedade de 120 hectares.
— Sempre tentamos ganhar dinheiro com o trigo, mas o maior problema é deixar a terra parada, sem nada plantado. Depois, a soja fica com custo alto de produção — comenta o agricultor.
Isso ocorre porque o trigo, além de produzir grão, oferece a palha. É esse subproduto que recobre o solo, evitando a proliferação de ervas e outras pragas, e mantém a fertilização na terra. A proteção natural baixa o custo da cultura seguinte – neste caso, o da soja.
— O trigo barateia o plantio da soja, porque mantém a lavoura limpa. Se não plantar nada, vem tudo quanto é inço e gastamos mais depois para dessecar e adubar — conta Gaviraghi.
O produtor Narciso Barison Neto, 78 anos, é um entusiasta do trigo. Na propriedade, em Vacaria, destina de 2 mil a 3 mil hectares por safra ao cultivo do cereal no inverno. No verão, a lavoura é tomada por soja e milho:
— Temos algumas culturas de inverno, mas nada se compara ao trigo, mesmo com problema de preço.
Em 2018, Barison Neto colheu entre 66 e 83 sacas por hectare a R$ 1 mil a tonelada. Projeção para 2019 é ter rendimento de até cem sacas por hectare.
— Para mim, o trigo é quase mais importante do que soja e milho — ressalta.
Tempo chuvoso impactou início de plantio
No Estado, a semeadura do trigo começou na segunda quinzena de maio pela região Noroeste, e se encerra em julho, na Serra. Conforme a Emater, o tempo úmido na arrancada atrasou o início do ciclo, que se encerra entre outubro e novembro, com a colheita.
A explicação do diretor-técnico da entidade, Alencar Paulo Rugeri, para 2018 ter registrado o menor espaço para a cultura dos últimos 10 anos está na desvalorização histórica do produto.
— Trigo não tem muita rentabilidade por conta de uma série de fatores conjunturais e isso faz com que a área plantada não aumente de tamanho — comenta Rugeri.
A aposta dos produtores para valorizar a cultura passa pela segregação. Dependendo da qualidade, o grão é destinado para massa, ração ou biscoito. O presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Hamilton Jardim, reclama do custo de produção do trigo gaúcho comparado com os concorrentes do Mercosul:
— É uma cultura de alto custo e muito exposta a riscos climáticos. A tecnologia, a adubação e o controle de doenças. Tudo é caro. E exige alta produtividade com qualidade para dar retorno.
Gaviraghi conta que, para ter lucro, precisa produzir mais de 60 sacas por hectare, já que o custo da lavoura gira em torno de R$ 1,5 mil por hectare, incluídos na conta dessecação, adubo, semente, equipamentos e combustível. Conforme a Emater, Ijuí terá a maior área semeada no Estado em 2019. Serão 221,12 hectares que podem render 447,3 mil toneladas. Porém, a produtividade mais alta deve vir de Caxias do Sul: 3,6 mil quilos por hectare. Rugeri explica que as condições climáticas e de solo fazem a região despontar.
Aumento do preço do cereal estimulou ampliação de área
O sistema de rotação, além da vantagem agronômica, evita que as máquinas permaneçam por meses guardadas nos galpões. Os três tratores que a família Postalli utiliza no verão para o cultivo de soja são também colocados para funcionar no inverno, nas lavouras de trigo, há pelo menos 30 anos.
No começo, o cereal garantia o sustento da propriedade, localizada em Marau, no norte do Estado. Hoje, sua principal função é fazer a cobertura de solo. Até 2018, somente 30 dos 90 hectares da propriedade eram destinados ao trigo. Mas, diante da valorização do grão de inverno, neste ano a lavoura aumentou para 50 hectares.
— Estamos esperando um preço bom. Apesar disso, mesmo que o tempo ajude, que seja uma safra ótima, o lucro por hectare do trigo é 20% inferior ao da soja — diz Leandro Postalli, 24 anos.
Morador de Marau, ele preparava a terra no dia 6 de junho para iniciar o plantio no dia 20 de junho. Pretende colher 50 sacas por hectare, cinco a mais do que no ano passado.
O produtor rural e presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro), Paulo Pires, credita a produtores como Postalli, Jairo Gaviraghi e Narciso Barison Neto a perspectiva de aumento, ou ao menos, de manutenção da área plantada no Rio Grande do Sul.
— Esses agricultores que acreditam que vão colher bem é que irão garantir a manutenção ou até o aumento da área — considera o dirigente.

Moageiras precisam importar 7 milhões de toneladas ao ano
Pires calcula que um hectare de lavoura de trigo exige investimento de R$ 2,1 mil em média, equivalente a, aproximadamente, 50 sacas de trigo. E cita duas frustrações dos produtores para explicar a redução contínua de área plantada de 2015 para cá, uma em 2013 e outra em 2016.
— Foram anos de safras muito boas. Colhemos trigo de qualidade e grande volume, mas o mercado interno não absorveu. Ficamos com excedente e caiu o preço — explica.
O baixo valor da saca causou decepção e a área de plantio encolheu.
— Não colher é ruim, mas colher e não conseguir vender também é. Foram anos fantásticos para a produção — relembra o dirigente da Fecoagro.
Rubens Barbosa, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (Abitrigo) detalha que a indústria consome toda a produção local e precisa importar o que falta para suprir a demanda de 12 milhões de toneladas ao ano. Hoje, o Brasil produz 5 milhões de toneladas de trigo e importa 7 milhões de toneladas. Para reduzir o desequilíbrio, no início deste ano, a entidade propôs ao governo a criação da Política Nacional do Trigo. O objetivo é estimular a expansão de áreas tradicionais e a criação de novas regiões produtoras.
A indústria moageira brasileira processou 12,17 milhões de toneladas de trigo em 2018, volume 3,4% maior do que os 11,77 milhões de 2017. As regiões Norte e Nordeste, com 3,71 milhões de toneladas, ficaram em primeiro lugar no país, seguidas de Paraná (3,47 milhões) e de indústrias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul que, juntas, produziram 2,17 milhões de toneladas.




