
Começou a ser ouvida na noite desta terça-feira (28) a primeira testemunha durante o julgamento de três réus por um ataque a judeus em Porto Alegre. Mais cedo, os três homens alvo das agressões descreveram o que aconteceu. Segundo a acusação, em 8 de maio de 2005, os estudantes foram cercados por um grupo de ideologia neonazista, que lhes atacou a socos, chutes e facadas. Os réus respondem pela tentativa de homicídio contra uma das vítimas. Ao todo, 11 testemunhas estão previstas para serem ouvidas. A estimativa é de que o júri se estenda, pelo menos, até quinta-feira (30).
Estão sendo julgados Valmir Dias da Silva Machado Júnior, Israel Andriotti da Silva e Leandro Maurício Patino Braun. Os três são acusados pelo Ministério Público de serem lideranças no grupo envolvido nos ataques às vítimas. Dos três réus, somente dois participam do júri nesta terça-feira – pela parte de Leandro está presente somente a defesa. Os três chegaram a ser presos na época do crime, mas foram libertados cerca de cem dias depois, e atualmente respondem em liberdade.
A primeira testemunha ouvida foi um médico, que na época do ataque era estudante de medicina. Assim como duas das vítimas ouvidas neste primeiro dia, ele falou por meio de videoconferência. Indagado pela juíza Lourdes Helena Pacheco da Silva, sobre o que recordava do fato de três pessoas agredidas na esquina das ruas Lima e Silva e República, na Cidade Baixa, o médico respondeu:
— Eu não chamaria de agressão. Que eu me lembre, parecia uma cena de filme de horror. Era um grupo de pessoas, uniformizadas, estraçalhando um cara no chão. Outras pessoas chutando ele no chão. Tinha outro grupo não deixando as pessoas ajudarem. Como se fosse uma barreira — recordou o médico.
Ele afirmou que tinha chego ao bar pouco antes, com amigos, e estavam aguardando do lado de fora, por uma mesa, quando presenciaram as agressões.
— Eles continuavam chutando, chutando. A pessoa se protegeu entre a calçada e o pneu de um carro. Um dos caras deu uma ordem e trouxeram ele de volta para a calçada e continuaram batendo. Eram pisões, chutes, foi horroroso — disse.
O médico descreveu que muitas pessoas tentavam ajudar, mas que o grupo não parava de agredir a vítima. Esta pessoa no chão era Rodrigo Fontella Matheus, atualmente com 34 anos, que segundo a acusação foi atacado por ser judeu. O jovem agredido estava usando quipá, acessório utilizado como símbolo da religião judaica. O médico descreveu que alguns dos agressores usavam soqueiras e que viu o momento em que um deles deu chute muito forte nas costas da vítima.
— Quando chutou o cara, eu pensei, morreu. Porque ele não se mexia mais. (...) Chutavam a cabeça, pisavam na cabeça dele — descreveu.
Quando o grupo dispersou, após a insistência das pessoas ao redor, o então estudante de medicina auxiliou a vítima com primeiros socorros, antes da chegada da ambulância.
— Eu fui atender a pessoa que estava no chão, estava toda ensanguentada, respirando meio mal — disse.
Neste momento, afirmou que viu no chão uma caixa com escritos em hebraico e imaginou que se tratava de um crime de ódio.
— Parecia um grupo paramilitar. Eram carecas, todos, cabeça raspada. Mas demorou para cair a ficha, que era um crime de ódio. No momento que estava atendendo o rapaz, vi o escrito em hebraico, aí eu percebi que eram skinheads — disse.
Contrapontos
O que diz a defesa de Israel Andreotti da Silva
Os advogados José Paulo Schneider dos Santos, Matheus da Silva Antunes e João Augusto Ribeiro Kovalski enviaram nota, na qual sustentam a inocência do cliente e alegam que Israel nunca teve posição de liderança nesses grupos neonazistas. A defesa sustenta que o réu chegou a integrar um grupo, mas se retirou antes de 2005. Confira a nota:
"A defesa de Israel Andreotti da Silva aguarda há quase 18 anos o desfecho deste injusto processo. Adverte-se que, durante o julgamento, serão apresentadas provas da inocência de Israel, sobretudo os áudios constantes no processo, que explicam, de maneira detalhada, a dinâmica e quem foram os verdadeiros responsáveis deste bárbaro crime. Será demonstrando, ainda, que Israel jamais exerceu liderança nos grupos investigados, sendo que a própria denúncia não lhe atribui tal fato. Ademais, será provado que, à época dos fatos, Israel não possuía qualquer tipo de contato ou ligação com as pessoas investigadas. Por fim, esta defesa confia nos Jurados e Juradas do Porto Alegre/RS que, com tranquilidade, responsabilidade e coerência irão desfazer aquele que é o maior e mais longo erro da história do judiciário gaúcho".
O que diz a defesa de Valmir Dias da Silva Machado Júnior
Os advogados Manoel Pedro Castanheira e Gustavo Gemignani enviaram nota, na qual também afirmam a inocência do cliente. Confira:
"A defesa de Valmir Dias da Silva Machado Júnior, por seus procuradores Manoel Pedro Castanheira e Gustavo Gemignani, afirma que será, na defesa em plenário, que se comprovará a total inocência de seu cliente, com a prova já apresentada no processo, desde seu início. Reafirma a total confiança de que será feita a justiça a Valmir."
O que diz a defesa de Leandro Maurício Patino Braun
Procurado, o advogado Rodrigo de Lima Noble optou por não se manifestar sobre o caso.
Outros julgamentos
- Em 15 de setembro de 2018, Thiago Araújo da Silva e Laureano Vieira Toscani foram condenados por tentativa de homicídio e duas lesões corporais a 13 anos de prisão, e Fábio Roberto Sturm, a 12 anos e oito meses.
- Em 23 de março de 2019, Daniel Vieira Sperk e Leandro Comaru Jachetti foram sentenciados a 14 anos de prisão. O mesmo Conselho de Sentença desclassificou a tentativa de homicídio imputada a um sexto réu para lesões corporais e foi declarada extinta a punibilidade do crime por prescrição.
- Cinco réus não foram pronunciados pela tentativa de homicídio e, portanto, não serão julgados pelo Tribunal do Júri.




