
Aposentado da Polícia Rodoviária Federal (PRF) havia sete anos, Fábio Zortea, 59 anos, passou a dedicar o tempo livre à arborização e à limpeza da cidade onde cresceu, casou e teve três filhos. Vindo de uma família tradicional de Torres, era conhecido no município do Litoral Norte e não tinha inimizades. Popular entre os amigos dos filhos, gostava de casa cheia.
Considerado pelos colegas de profissão como calmo e negociador, acabou perdendo a vida na madrugada da última segunda-feira (23) justamente ao tentar pacificar uma confusão entre os filhos Fábio, 37 anos, e Luca, 33, com dois policiais militares. O desentendimento iniciou em uma abordagem policial na calçada em frente à casa da família, onde Zortea acabou morto com tiros no tórax e na cabeça por disparos de um PM. O caso é investigado pela Polícia Civil como homicídio doloso — quando há intenção de matar. Cinco policiais foram afastados do cargo pela Brigada Militar.
Zortea nasceu em Progresso, no Vale do Taquari, e aos 11 anos mudou-se para Torres com os pais. Foi criado em uma família de cinco irmãos e era filho do dono de um cartório. Trabalhou com o pai no começo da vida adulta até que o patriarca foi assassinado em um assalto à residência, no bairro Centenário. Com a partida do pai, a família perdeu o cartório, e Zortea, formado em Direito, prestou concurso para a Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Entrou para segurança pública em 1994, trabalhava na delegacia da PRF em Osório e se aposentou em 2014. Durante os 20 anos de profissão, só se afastava do ofício para acompanhar as cirurgias da filha, que nasceu com fissura labiopalatina e passou por 20 procedimentos em Porto Alegre, Criciúma e São Paulo.
— Ele ia comigo para todo lado atrás dos melhores tratamentos. Ele foi muito pai — recorda a filha, que prefere não se identificar.
A partir da aposentadoria, passou a se dedicar a plantar árvores pela cidade, limpar a faixa de areia e cuidar dos três cachorros: Layla, Baruki e Pretinha. Zelava dos jardins e ajudava a manter a praça em frente à Delegacia de Polícia. Nas rodas de conversa em Torres que comentam a morte de Zortea e recordam de sua trajetória, lembram dele recolhendo sujeira deixada por banhistas na praia.

— Ele sempre saía com uma sacolinha no verão juntando saco de lixo. Era muito ligado à natureza e apaixonado por Torres. Queria ver a cidade limpa — afirma a filha.
Na cidade, tinha um recanto favorito: boiar nas águas calmas de Furnas, entre a Praia da Cal e a Praia da Guarita. Culto, mantinha uma biblioteca em casa, não se afastava dos livros e acumulava repertório para qualquer assunto. Os sobrinhos contam que era fácil conversar e se apegar ao tio.

— Não tinha tempo ruim, estava sempre disposto — recorda uma sobrinha.
Em agosto, completou 38 anos de casamento. A esposa é dona de casa. Da união, nasceram três filhos: Fábio, uma mulher de 34 anos e Luca. Bancou o Ensino Superior dos três. Era o provedor do lar e a principal referência dos Zortea.
Os dois filhos homens moravam com o policial aposentado e a esposa num apartamento na área central de Torres. A família reside no mesmo endereço há 34 anos. A filha, que trabalha em Porto Alegre, vem todo final de semana ficar com os pais e os irmãos.
— Nossa família é muito unida. Sempre fomos muito amigos. Nossos amigos eram acolhidos pelo meu pai. Todo mundo gosta do meu pai — diz a filha.

Zortea ajudou a montar o consultório odontológico dela em Torres e opinava em cada detalhe.
— Era o centro da família. Tudo ele que resolvia. Qualquer problema que eu tinha era com ele.
Na PRF, Zortea era conhecido por ser o tipo de policial calmo, pacífico e exímio em contornar situações de ânimos exaltados. Na madrugada de segunda-feira, antes de ser atingido pelos PMs, repetia para o filho mais velho:
— Fabinho, calma, não reage, obedece.
Durante a discussão, Fábio, o filho, foi baleado em uma das pernas, está internado no hospital, mas fora de perigo. No último sábado, a família se reuniu para ver o pôr do sol no rio e o nascer da lua cheia na praia. É a última boa lembrança dos cinco juntos que vem à mente da filha:
— Parece que foi nossa despedida. Meu pai foi até o último momento da vida dele salvando pessoas e os filhos. Ele cuidou de nós ao máximo.




