
Ex-gerente do tráfico de drogas no bairro Mario Quintana fez acordo com a Justiça e revelou detalhes sobre o funcionamento do crime organizado no Rio Grande do Sul, gerando, nos últimos dois anos, pelo menos 60 processos de homicídio e ajudando a isolar três líderes em penitenciárias federais.
Desde que descreveu ao Ministério Público, à Polícia Civil e ao Judiciário os crimes da facção Bala na Cara, o homem vive fora do Rio Grande do Sul e muda frequentemente de Estado. Em fevereiro, ele conversou com GaúchaZH.
Como entraste para a facção?
Como todo mundo entra, fui devagarinho. Nunca vendi droga. Conheci o Minhoca (José Dalvani Nunes Rodrigues) quando tinha 10, 12 anos, e comecei a andar na volta dele. O que ele mandava fazer, eu fazia.
Qual era a tua função como segurança do tráfico?
Onde ele (Minhoca) fosse, eu ia. Quando tinha uma função para ele fazer e não queria fazer, eu ia. Tinha de buscar uns quilos (de droga) na Bonja (bairro Bom Jesus), eu ia. Tinha de levar R$ 100 mil na Bonja, eu ia. Ir no banco depositar R$ 100 mil, ia.
Por que a gurizada acaba entrando no tráfico?
Tu tá vendo os caras mais velhos com tênis de R$ 1 mil, boné de R$ 300, uma camiseta de time de R$ 200. Vai pedir para tua mãe e ela não tem R$ 1 mil para te dar num tênis. Tu vê a forma mais fácil. Vê o piá da tua idade, teu amigo, vender e ter as coisas. Tu vai querer também. Ia para o baile quando tinha 13 anos e minha mãe me dava 20 pila. Pagava minha entrada e tomava uma água. Via os caras gastando R$ 1,5 mil num camarote. Queria estar com eles. É o que acontece com a maioria.
Um dia tu pode ter R$ 5 mil na tua mão e no outro não vai ter nada. E tá sempre arriscando de morrer pela polícia, pelos contra (rivais) ou pela tua facção.
O que diria para um guri que está em vias de ingressar no tráfico?
Não vale a pena, não vale a pena... Um dia tu pode ter R$ 5 mil na tua mão e no outro não vai ter nada. E tá sempre arriscando de morrer pela polícia, pelos contra (rivais) ou pela tua facção. Não tem amigos na facção. Não sabe se vão mandar te matar. Vi muito isso acontecer. Se tivesse a mesma cabeça que tenho hoje, quando piá, não tinha entrado. Ia trabalhar com meu pai, bem feliz.
Como era tua função como gerente do tráfico?
Era gerente do dinheiro e da maconha. Quando chegava no depósito, tinha de pesar tudo, arrumar lugar onde deixar. Se chegasse uma tonelada e meia, tinha de levar 500 quilos. Todo o dinheiro vinha para mim, vinha gente da Serraria, do Interior, perto de Camaquã, gente de Pelotas, de Caxias. Um chefe me mandava o número das contas e eu depositava. Quando tava com muito dinheiro, mandava para a Bonja.
Circulava muito dinheiro?
Muito. A Mario Quintana rende mais ou menos R$ 200 mil por semana. Teve uma época em que o banco ficou em greve e eu tava com R$ 800 mil em casa. Na Bonja, tinha R$ 1,5 milhão porque não conseguia depositar.
Pensaste em algum momento que iria morrer?
Toda vez que botava colete, pegava um fuzil e encontrava os hômi (policiais), pensava que ia morrer. Os guris viam uma viatura e queriam atirar. Eu dizia: "Não, vamos ser presos, passar uma temporada na colônia do Central, mas não vamos atirar". Uma coisa é trocar tiros com os contra, uma hora a bala deles vai acabar. Não tem como chamar ninguém. A polícia tem.
Sobre as drogas vindas de fora, quem mandava?
Era um chefe, o Minhoca é atacadista. Ele pega os quilos e distribui. O chefe que pegava direto do Paraguai. Eu não trazia. Ele falava: "Comprei tantos quilos e tem tanto pra tu levar". Atravessava e depois vinha em caminhão ou ônibus.
Na Mario Quintana, a gente tinha uns oito fuzil, AR-15, 556. Na Bonja, era muito mais. Fora aquelas submetralhadoras caseiras. Aquilo era "mato".
E as armas vinham de fora?
Um chefe tinha contato com o Comando Vermelho (facção do Rio de Janeiro). Alguém atravessava e vendia para ele com preço de atacado e mais o frete para cruzar para o Brasil. Vinham uns para cá e o resto ia para o Rio. Na Mario Quintana, a gente tinha uns oito fuzil, AR-15, 556. Na Bonja, era muito mais. Fora aquelas submetralhadoras caseiras. Aquilo era "mato" (em grande quantidade).
As munições, como conseguiam?
Quando vem, vem um monte. Imagina um galpão cheio de arma, droga e bala. Eram caixas e caixas. Bala é o que mais tem. Eu ia buscar bala e tinha de colocar dois sacos de lixo preto para não arrebentar.
Havia esquartejamentos?
Eu nunca gostei. É uma pessoa que tu tá picando. Ninguém quer ficar na volta. Todo mundo paga de leão, de Bala na Cara. Mas, na hora do bagulho, ninguém fica olhando. Quantas vezes eu fui esquartejar e os caras iam para rua? Eu ia em casa tomar banho e os caras não queriam nem pegar o corpo e colocar no porta-malas.
Não havia repúdio?
O cara tem um caráter e pensa de um jeito, mas tem de obedecer. Todo mundo pensa "se não quiser, não faz". Mas vai vir outro e vai fazer. E te fazer (matar) também. Quando o cara tava lá, pensava, mas não via. Agora, isso fica martirizando na tua cabeça.
Começaste a pensar mais na tua saída depois da morte do teu amigo?
Comecei a ver que são muito cobra (pessoas em quem não se pode confiar). O guri tava com nós uns dias antes. Antes do Minhoca mandar matar ele, ele tava sentado no meu carro. Pensei: "Daqui a pouco vai ser eu. Vou fazer uma coisa que ele não goste e vai mandar me passar". Cheguei, troquei uma ideia, disse que não queria mais. Ele me pediu pra ficar uma semana só, pra arranjar outra pessoa. Falei para um chefe também. Ele começou a dizer para os guris que eu sabia demais. Tinha mandado me matar. Nem sabia que tinha esse negócio de proteção (a testemunhas). Eu tinha prova. Não cheguei só na minha palavra. Levei (à polícia) tudo o que tinha.
O que tu pensas hoje de tudo isso?
Tava numa bolha. Achava que aquilo era o que tinha para o cara. Era o mundo e nunca ia acabar. Nunca pensei em estudar, nunca pensei em fazer nada. Porque nunca saí dali. Hoje eu vejo.
Nunca pensei em estudar, nunca pensei em fazer nada. Porque nunca saí dali. Hoje eu vejo.
E como tu te sentes sendo um itinerante?
Me acostumei. Antes era ruim. É ruim chegar e não ter lugar fixo. Tem de andar espiado na rua. Minha cabeça já estava em R$ 800 mil na facção.
Como fica a tua situação com a delação?
Respondo. Estou em todos os processos do Minhoca. Vai me dar condenação. Mas vários crimes que eu dei eles não tinham ciência. Pelo acordo, vou cumprir a pena, mas no programa. Se for condenado a 30 anos, fico 30 anos no programa. Agora, se eu quiser, eu saio. Na condenação, não. Tenho de ficar onde eles determinarem.
Medo de morrer?
(silêncio) Não. Medo, medo de morrer, não. Na real, eu já tô fazendo hora extra na Terra. Fico espiado. Mas medo, medo de morrer, não tenho, não. Já tive bastante no comecinho. Não sei se já me conformei. Uma hora vão me pegar, isso é certo. Mas me pegar vivo, ninguém vai. Se quiserem me matar e levar meu corpo depois e esquartejar, já vou estar morto.



