As obras de restauração na Cúria Metropolitana, no Centro Histórico, em Porto Alegre, revelaram na fachada principal palavras escritas em latim, na cor dourada, datadas de 1869. A descoberta ocorreu na semana passada.
As palavras douradas, confeccionadas em latão, trazem a seguinte inscrição:
Levantado desde os fundamentos pelo prelado Sebastião Dias Laranjeira no ano de Nosso Senhor 1888, ele mesmo falecido há dois anos.
O letreiro recebeu acréscimos quando a Cúria Metropolitana foi concluída, em 1888. Por esta razão aparece este ano na frase.
A Cúria conta com dois letreiros. Um do feitor da obra, Dom Sebastião Dias Laranjeira, e outro do arquiteto alemão Johann Grünewald, que mandou construir o prédio e trabalhou na Catedral de Colônia, na Alemanha.
— Tem um registro que Herrmann Traub dourou o frontispício. Não se sabia se era tinta ouro. Ele dourou os altares da Igreja Nossa Senhora das Dores. Era um decorador da época — afirma Lucas Volpatto, arquiteto responsável pela restauração desde 2015 e que comanda a equipe Studio 1 Arquitetura.
Nesta sexta-feira (13), o pintor e restaurador Caiuã Motta Rosa trabalhava, em cima de um andaime, nas palavras douradas. Não escondia a alegria de participar de uma descoberta histórica.
— É um aprendizado especial que a gente adquire no dia a dia. E é uma responsabilidade — comenta Caiuã.
As obras no lado voltado para a Rua Espírito Santo já estão prontas. Neste momento, as intervenções se concentram na parte de frente para a Rua Fernando Machado, onde fica a fachada com as palavras douradas descobertas. Agora, começará a ser restaurado o arenito do prédio. A previsão é de o serviço estar concluído neste ponto até o fim do ano.
O pátio externo e murado, conhecido como adro, deverá abrigar um café de cem metros quadrados no futuro. A ideia é ter uma parte ao ar livre e outra fechada. Quando visitou a Capital, a princesa Isabel elogiou os jardins que existiam nesse local.
Também se prevê a construção de um museu na Cúria para abrigar as peças sacras, muitas em prataria e itens históricos guardados em uma sala, como uma bandeira da época do Brasil Império.
O arcebispo da Capital, Dom Jaime Spengler, expressa seu sentimento em relação às obras recitando uma frase do escritor russo Fiódor Dostoiévski:
— A beleza salva.
E acrescenta:
Resgatar a beleza e a história é promover a cultura.
DOM JAIME SPENGLER
Arcebispo da Capital
Já foram utilizados 68 galões de 18 litros de tinta mineral para o processo de pintura do prédio.
Lápide do primeiro cemitério de Porto Alegre foi descoberta
A área onde está situada a Cúria Metropolitana abrigou o primeiro cemitério oficial de Porto Alegre, em atividade de 1772 a 1850, quando os mortos deixaram de ser enterrados no local.
Durante os trabalhos de reforma em 2012, restos mortais de mais de 50 pessoas foram encontrados sob o antigo piso de concreto.
O arquiteto Lucas Volpatto mostrou para a reportagem de Zero Hora uma lápide descoberta em escavações realizadas há alguns anos na Cúria.
Tendo 1m22cm de comprimento por 68cm de largura, a peça em arenito será exposta no futuro museu. Na lápide, que está quebrada em algumas partes, é possível ler a seguinte inscrição:
"Restos mortais de Antonio Martins de Castro. Falecido a 15 de abril de 1847 com 29 anos de idade".
A Cúria Metropolitana
Localizada atrás da Catedral Metropolitana, a Cúria possui três pavimentos. Foi idealizada pelo engenheiro francês Jules Villain. A pedra fundamental foi lançada em 1865. A construção, que foi concluída em 1888, teve supervisão do arquiteto Johann Grünewald.
Os trabalhos atuais têm sido executados desde 2023. O restauro conta com diversos patrocinadores e tem sido feito ao longo dos últimos anos com recursos próprios (na primeira etapa da reforma) e por meio da captação de patrocínios incentivados pela Lei Rouanet. O valor total da obra será de R$ 10 milhões.


