Memória

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Vinícola Salton, 110 anos: as origens da família em Bento Gonçalves

Italiano Antonio Domenico Salton migrou para o Brasil em 1878

Rodrigo Lopes

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acervo Vinícola Salton / Divulgação
Pioneiros da centenária Vinícola Salton: Paulo, Angelo, João, José, Cesar, Luis e Antonio Salton

A data oficial do aniversário é 25 de agosto, mas nos antecipamos em alguns dias para recordar dos primórdios da Vinícola Salton. Surgida no longínquo 1910, a empresa comandada pela quarta geração da família Salton celebra 110 anos em 2020.

Toda essa história, no entanto, remete ainda a finais do século 19, mais especificamente a 1878. Foi quando o imigrante Antonio Domenico Salton partiu da comuna italiana de Cison Di Valmarino, em Treviso - juntamente com a esposa Rosa Isoton, o filho pequeno João Francisco e a filha recém-nascida - para se instalar na então Colônia Dona Isabel, posterior município de Bento Gonçalves. 

Ao chegar ao Porto de Santos, porém, um acontecimento alteraria profundamente a trajetória dos Salton no Brasil: a filha recém-nascida é roubada dos pais, incidente que causa uma profunda depressão na família e culmina, em seguida, com a morte de Rosa. Anos depois, viúvo, Antonio casa-se com Lucia Canei, nascendo dessa união os filhos Rosa, Marieta, Paulo, Luis, José, Ana, Angelo, Zenaide, Antonio e Cesar.

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acervo Vinícola Salton / Divulgação
Vista da antiga Igreja Santo Antônio, em Bento Gonçalves, em meados de 1910, onde vê-se as primeiras instalações da vinícola Salton, em frente ao templo

Casa di Pasto

Para garantir o sustento da numerosa família, Antonio Domenico Salton instala uma “Casa di Pasto”, espécie de local de refeições, que também abrigava viajantes, defronte à Igreja Matriz de Santo Antônio. Tanto que, a partir de 1893, o lugar já integrava ativamente o comércio de Bento Gonçalves - no terreno atrás da casa, parreirais garantiam a elaboração do vinho servido aos clientes.

Com a morte de Antonio Domenico, o filho mais velho, Paulo Salton, atuante na Funilaria Luigi Arioli, assume a Casa di Pasto do pai. E sua primeira providência é legalizar o estabelecimento, que, em 1910, passa a se chamar “Paulo Salton Armazéns Gerais”. É a data que assinala, oficialmente, a fundação da Vinícola Salton.

Cerca de 12 anos depois, em 1922, os irmãos de Paulo decidem aderir ao negócio da família, ampliando a oferta para além das fronteiras gaúchas. Em 1925, José e Cesar Salton vão para São Paulo com o objetivo de comercializar os produtos da Serra - que não se restringiam somente à bebida .Naquela época, e até meados da década de 1940, o empreendimento abarcava diversas outras atividades: além de elaborar vinhos, abatia porcos para produção de salame e produzia queijo. 

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acervo Vinícola Salton / Divulgação
Os primórdios da empresa Paulo Salton & Irmãos

Espumantes em 1933 

Em meados dos anos 1920, a empresa Paulo Salton & Irmãos já era classificada como indústria de grande porte, vide a produção anual de 120 mil litros de vinho, 12 mil quilos de queijo e 150 mil quilos de salame. Naquela década, a Salton possuía uma filial na Estrada Geral (Tuiuty-Bento Gonçalves), um representante comercial em São Paulo e uma serraria a vapor em Nova Prata. Junto a essas atividades, os irmãos também mantinham um moinho para produção de farinha. 

Um novo salto é dado em 1933, quando a empresa passa a elaborar espumantes - atualmente responsáveis por 30% de seu faturamento. O processo utilizado é o champenoise (tradicional), com produção inicial de Brut e Meio Doce. Já em 1948, a Salton dá início ao projeto de uma unidade na capital paulista, inaugurada em 1950. 

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acervo Vinícola Salton / Divulgação
Cesar Salton durante a divulgação do novíssimo Espumante Salton em Porto Alegre, em 1933
acervo Vinícola Salton / Divulgação
Antonio Salton (Nini) posa junto a uma exposição dos produtos na própria empresa
acervo Vinícola Salton / Divulgação
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O Vinho Canônico
Na década de 1940, a Salton dá início a outra tradição: começa a produzir o Vinho Canônico, específico para missas, seguindo a receita do Vaticano. A história é curiosa:

“O número expressivo de padres estrangeiros em Bento Gonçalves motivou o religioso espanhol Franco, responsável pela Igreja Matriz de Santo Antônio, no centro da cidade, a atravessar a rua e entrar em contato com Nini Salton (Antonio Salton, um dos fundadores da vinícola e primeiro enólogo da família). A conversa resultou na elaboração de um vinho específico para as missas, elaborado nos mesmos moldes utilizados pela igreja europeia”. 

Conforme informações repassadas pela vinícola, a graduação alcoólica mais elevada e a grande concentração de açúcar cumprem a função de conservar o produto por mais tempo, considerando o seu consumo lento, a cada missa. 

“O produto começou a ser elaborado em 1940, mas a mais antiga marca comercial para a elaboração do Vinho Canônico, que necessita de autorização da Cúria Metropolitana, pertence à Vinícola Salton e data de 1957. Atualmente o Vinho Canônico atende às igrejas católicas de todo o país”.

acervo Vinícola Salton / Divulgação
Nini Salton, o enólogo responsável pela elaboração do Vinho Canônico

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