
Ao ver as estatísticas de pessoas infectadas e mortas pelo coronavírus, é inevitável sentir a doença se aproximar e temer pela própria vida e pela dos amigos e parentes. A morte, até agora algo remoto para alguns, parece mais próxima. Para a psicóloga Lourdes Possatto, o remédio é concentrar-se nas ações que estão dentro do nosso controle, reconhecendo que temos limites:
– O medo pode vir da percepção de falta de controle. Não tenho controle sobre o vírus, mas tenho controle sobre mim, seguindo rigorosamente as recomendações de higiene, saindo de casa o mínimo possível e evitando certos ambientes. Assim, a pessoa pode se sentir mais segura e tranquila que está fazendo tudo que está sob o seu alcance para se cuidar. Caso contrário, pode se tornar neurótico, desinfetando tudo o tempo todo.
O mesmo vale para quando a preocupação se estende a outras pessoas.
– Até onde eu vou? Não vou salvar o outro, mas cuidar dentro das minhas possibilidades. E se eu morrer? Posso morrer, mas vou fazer a minha parte. Quem quer controlar o incontrolável quer a certeza que ninguém pode ter. Tem chance de alguém da família morrer, sim. Posso controlar? Não. Mas posso orientar esses parentes? Sim, mas não vou controlá-los, tenho que confiar – reflete Lourdes.
Até onde eu vou? Não vou salvar o outro, mas cuidar dentro das minhas possibilidades. E se eu morrer? Posso morrer, mas vou fazer a minha parte. Quem quer controlar o incontrolável quer a certeza que ninguém pode ter.
LOURDES POSSATTO
Psicóloga e escritora
Cada um deve encontrar o que lhe serve melhor, inclusive a espiritualidade.
– A fé entra quando você percebe o seu limite, já fez tudo o que podia, daqui para lá são as leis da vida ou deus, como você preferir chamar – diz Lourdes, que trabalha com Gestalt-Terapia, uma abordagem terapêutica voltada no "aqui e agora" e aberta a conceitos do taoísmo e do zen-budismo.
A psicóloga ressalta a importância de pensar no presente para combater o medo do futuro. Alguns atalhos são prestar total atenção à respiração, contando ou repetindo mantras, às tarefas cotidianas, como tomar banho, e de lazer, como ouvir música e dançar.
– Tem gente que sai do banho e esquece que passou xampu. Quando for tomar banho, preste atenção no corpo, no sabonete, no cheiro, na água – indica Lourdes, que também é instrutora de biodança, prática na qual o corpo expressa sensações provocadas pela música.
O professor de Psicologia Wagner Machado também recomenda "viver um dia de cada vez". Mas reforça que isso não quer dizer abandonar o futuro. Para os mais práticos, ele também sugere pensar sobre as coisas que estão sob seu controle nesse momento de crise e então estipular cronogramas, fazer listas e determinar as prioridades.
– Temos que manter a perspectiva que em algum momento isso vai terminar e alimentar nossos sonhos – lembra o psicólogo.
Na sua opinião, até pensar no passado pode ajudar:
– Quando sentir que não vai dar conta, tente relembrar como deu conta de outros momentos da sua vida, pensar nas estratégias que usou.
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