
A passagem por Brisbane para a cobertura de Brasil e França foi marcada pelo nosso primeiro contato com a cultura aborígene. No voo que nos trouxe de Adelaide, na semana passada, sentamos ao lado da funcionária pública Breawne Maka, 26 anos, descendente dos primeiros povos que habitaram a Austrália há milhares de anos e que aceitou nos conceder uma entrevista. O orgulho de fazer parte da cultura aborígene nos chamou atenção logo nos primeiros minutos de conversa.
— Você é australiana? — perguntou a Kelly.
— Sim, sou australiana e aborígene — sublinhou.
Na sequência, Breawne, que carregava no colo o seu filho, fez questão de nos mostrar a bandeira aborígene tatuada em seu braço direito, com as cores preta, vermelha e amarela.
— O preto simboliza o nosso povo, o vermelho representa o sangue que corre nas nossas veias, e o amarelo simboliza o sol que brilha sobre nós e nos nutre — contou.
Descendentes de africanos, os aborígenes chegaram ao território onde hoje é a Austrália há cerca de 70 mil anos, quando as águas do Pacífico seriam mais calmas e permitiam a navegação da Ásia para a Oceania a bordo de canoas. Pelo apreço por sua terra e sua cultura, os aborígenes se consideram representantes de uma nação própria.
— O povo aborígene vivia aqui antes da chegada dos homens brancos. Somos a primeira nação da Austrália. Temos uma cultura muito forte, que tem como uma das principais características o respeito aos mais velhos — explicou Breawne.
Por dezenas de milhares de anos, os aborígenes foram os únicos habitantes da Austrália. A partir do século 18, porém, com a chegada dos colonizadores ingleses, os aborígenes foram duramente perseguidos e oprimidos. De acordo com historiadores, a população aborígene foi reduzida nos últimos 200 anos de mais de 700 mil para apenas pouco mais de 200 mil nos dias de hoje.
Nos últimos anos, o Estado australiano vem implementando diversas políticas públicas de reparação histórica e inclusão social, facilitando o acesso dos aborígenes a moradia, educação, saúde e emprego. Na Copa do Mundo Feminina, a Fifa determinou que todas as cidades-sede da Austrália sejam escritas em inglês e também no idioma aborígene. Além disso, a bandeira aborígene, eternizada na pele de Breawne, é estendida em todas as partidas disputadas no país. O mesmo ocorre com o idioma e a bandeira maori nos jogos disputados na Nova Zelândia.

— A Copa do Mundo definitivamente ajuda na inclusão dos aborígenes à sociedade. Por conta do Mundial, temos aqui na Austrália diversos países e diversos povos. É uma competição que transmite essa ideia de união e inclusão de povos e nações. Por isso, considerando que o povo aborígine é a primeira nação aqui da Austrália, acho que a Copa é uma grande ajuda para incluir a nossa cultura — opina Breawne.
A nossa companheira de voo vive hoje em Adelaide, onde o Brasil venceu o Panamá, na primeira rodada do Mundial. Porém, nasceu em Brewarrine, pequena cidade de apenas 1 mil habitantes, situada no noroeste do estado de Nova Gales do Sul, a 800 quilômetros de Sydney.
— Nós, aborígenes, normalmente vivemos em pequenas cidades remotas e distantes dos grandes centros. Eu nasci em uma delas, embora hoje viva em Adelaide. Há muitos aborígenes também nas regiões mais quentes, como no centro do país — explica.
Uma das invenções aborígenes clássicas é o bumerangue, utilizado para atrair os animais para as redes de caça. Outras características da cultura aborígene são o respeito à natureza e o apreço pela terra.
— Acho que temos que estar sempre juntos e nos proteger, para cuidarmos do nosso povo, da nossa terra e da nossa cultura — finaliza.

