
Superação, criatividade e diversidade. Esses são os elementos que resultaram em Ciranda das Mestras, álbum da pianista Catarina Domenici que reúne as obras que a "tiraram do armário" de compositora e a fizeram sobreviver a um período de crise, inspiradas nas mulheres de sua vida. Paulista radicada no Rio Grande do Sul há quase 30 anos, a professora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) lança o primeiro disco como compositora em um recital nesta segunda-feira (31), às 12h30min, no Centro Cultural da UFRGS (confira serviço ao final do texto).
O lado autoral de Catarina, 57 anos, sempre existiu, mas, por muito tempo, ela o ocultou. A libertação dessa faceta ocorreu somente em 2015, como uma maneira de enfrentar uma profunda crise profissional, não se reconhecendo mais em sua biografia de pianista de música erudita, na qual grande parte das múltiplas vivências musicais não estava presente; e pessoal, resultado de décadas vivendo de acordo com as demandas da sociedade enquanto mulher. Foi então que a artista percebeu que não estava feliz — e aí teve início uma revolução pessoal.
Catarina encontrou na composição o meio para expressar o que as palavras ainda não conseguiam articular.
— Compor realmente me ajudou muito a manter a minha sanidade. E, ao mesmo tempo em que eu estava lidando com essas questões, eu imaginava e sentia a presença dessas mulheres, me dando uma força naquele momento tão difícil — revela.
Assim nasceu o projeto composicional Ciranda das Mestras — peças escritas durante os anos de crise para as mulheres que ensinaram e acolheram Catarina ao longo da vida e inspiradas nelas. Cada faixa conta uma história de afeto com cada uma, homenageando sua mãe, artistas, professora, amigas, avó, mãe substituta e até mesmo Lili, do filme A Garota Dinamarquesa (2015), com quem se identificou na sensação de estranhamento e alienação do próprio corpo, algo que lhe foi familiar durante décadas devido ao abuso sexual sofrido na infância. Os significados de cada música foram revelados em um minidocumentário sobre o projeto. Confira abaixo:
Como a história por trás de cada faixa evidencia, para alcançar o patamar em que se encontra atualmente, de destaque internacional, Catarina teve de superar diversas adversidades ao longo do percurso. Aos 16 anos, a jovem de São Miguel Arcanjo (SP) foi expulsa de casa pela mãe por optar pela carreira de musicista profissional.
— Passei fome, necessidade, tudo o que você possa imaginar, porque eu escolhi fazer música — conta Catarina, que também teve de costurar as próprias roupas e calçados com retalhos.
Agora, com uma discografia com 20 álbuns lançados no Brasil e no Exterior, pelos quais recebeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Açorianos de Música, Catarina se prepara para lançar um disco íntimo, que retrata sua superação e seu lado criativo, em um recital na universidade na qual leciona há quase 30 anos — uma experiência que será uma "delícia", em sua visão. A pianista é a convidada do projeto Solo Piano deste mês, que consiste em recitais mensais no Centro Cultural da UFRGS. A estreia do álbum coincidiu com o convite para participar do evento, motivo pelo qual optou por interpretar apenas músicas do disco próprio.
O recital ocorrerá no Espaço Figueira, que tem um piano ao centro, gerando um ambiente de proximidade, com o público posicionado à sua volta — curiosamente, no formato de uma ciranda.
Trajetória incomum
Doutora em Performance e Literatura Pianística pela Eastman School of Music, em Nova York, Catarina é uma pianista conhecida por sua versatilidade ao transitar por diferentes estilos e gêneros. Isso se deve ao fato de ter uma trajetória bastante diferente: se criou em uma escola de samba, com um pai mestre de bateria, e só foi conhecer o piano aos 11 anos, passando a estudar o ofício em um conservatório.
Quando prestou o vestibular na Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde estudou, foi convidada para ser pianista do Grupo de Percussão do Instituto de Artes da Unesp, no qual se envolveu com música contemporânea — sua absoluta paixão — e teve a oportunidade de lançar álbuns e fazer turnê nos Estados Unidos, além de ganhar o II Prêmio Eldorado de Música.
Para se sustentar, tocou em bandas de baile e grupos de música instrumental brasileira, em paralelo ao curso de piano. Portanto, além da sólida carreira como pianista erudita, tinha uma atuação diversificada e plural, que incluía ainda jazz e música popular brasileira — algo incomum entre os pianistas eruditos.
Apesar de compor desde criança, teve o lado criativo abafado no conservatório. Além disso, o processo até se assumir como compositora também foi demorado, segundo a artista, por conhecer apenas o jeito masculino de compor. Sendo assim, não se considerava uma compositora, já que criava de modo diferente. Catarina percebeu, por fim, que não havia espaço para a criatividade na sua formação como pianista de música de concerto, e muito menos para as mulheres na composição.
— Em quantos concertos você vai que tem obras de compositoras sendo tocadas? Pegue qualquer livro de história da música. Onde estão as compositoras? Elas não estão lá. Em qualquer curso de composição, quantas mulheres estão dando aula? Há esse apagamento, essa invisibilização. Não é que elas não existam, mas foram retiradas do cânone quando esse foi criado artificialmente no século 19 — explica a professora. — A falta de representatividade faz com que você acredite que aquilo não é um caminho possível, viável.
Opondo-se ao padrão estabelecido e, finalmente, abraçando essa possibilidade, Catarina Domenici hoje compõe peças para orquestras e artistas de diversos lugares do mundo — com apresentações recentes no King's College London e no Royal Albert Hall, na Inglaterra, além da Itália e outros países da Europa, nos Estados Unidos e em diversas partes do Brasil.
Foi a atuação como compositora que lhe possibilitou juntar todas as facetas e vivências musicais múltiplas que sempre teve, mas tinha de manter separadas. Ciranda das Mestras representa uma nova etapa na carreira da pianista, com destaque para a criatividade, algo que tinha de ocultar na música de concerto e que hoje a faz se sentir mais inteira.
E essa criatividade flui com potência: outro álbum será distribuído em breve. Em seguida, um EP gravado em Londres, intitulado Letters to My Mother (Cartas Para a Minha Mãe, em português) será lançado — tudo isso até dezembro.
Para fechar a data especial com chave de ouro, Catarina também participará de um concerto da Orquestra Theatro São Pedro nesta segunda-feira, às 20h, ao lado de Max Uriarte, no Theatro São Pedro — mostrando, mais uma vez, a artista diversa e musicalmente multifacetada que é.
Lançamento de "Ciranda das Mestras"
- Nesta segunda-feira (31), às 12h30min.
- No Espaço Figueira, no Centro Cultural da UFRGS (Rua Eng. Luiz Englert, 333, Campus Centro), em Porto Alegre.
- Entrada franca, por ordem de chegada, com lotação limitada.