
Com a dura missão de encarar o franco favorito Parasita na disputa do Oscar de melhor filme internacional, o longa francês Os Miseráveis começou sua carreira internacional no Festival de Cannes de 2019, quando dividiu o Prêmio da Crítica com o brasileiro Bacurau.
Em cartaz partir desta quinta-feira (16) no Brasil, Os Miseráveis faz referência em seu título ao clássico literário de Victor Hugo. O filme é dirigido por Ladj Ly e atualiza, com um toque contemporâneo em seu universo temático, a mesma tensão social da França que o best-seller do escritor francês retratava no século 19.
Seu centro nervoso está em um subúrbio de Paris habitado por imigrantes de diferentes origens, um efervescente e socialmente desassistido caldeirão étnico que entrou em convulsão em 2005 e provocou impacto em periferias de todo o país
— Tudo que há neste filme é baseado em experiências pessoais — disse Ly, 39 anos, à agencia AFP.
O subúrbio nos arredores de Paris em que ele vive é seu cenário: Montfermeil, perto de Clichy-sous-Bois, epicentro da revolta urbana de 2005, iniciada depois que dois adolescentes morreram eletrocutados durante uma fuga da polícia.
Painel
A onda de violência impulsionada por jovens, com um pano de fundo de pobreza e desemprego, algo sem comparações na França desde maio de 1968, foi o tema escolhido pelo diretor autodidata, filho de pais malineses, para seu primeiro longa-metragem – que dá continuidade a um curta que ele fez em 2017 sobre o mesmo episódio.
— Durante cinco anos, filmei tudo o que acontecia no bairro, sobretudo os policiais. Eles chegavam, eu pegava minha câmera e registrava, até o dia em que filmei um verdadeiro confronto– explicou Ly, lembrando que foi revistado pela primeira vez pela polícia quando tinha 10 anos.
Os Miseráveis destaca em seu painel três policiais responsáveis pela segurança do bairro, missão que cumprem com eventuais atitudes fora dos manuais, e um grupo de adolescentes que encontra no crime formas de sobrevivência e afirmação. Ly destaca a irritação dos jovens que se sentem abandonados pela sociedade e evita cair no maniqueísmo de demonizar as forças de segurança.
— Os subúrbios são barris de pólvora: há clãs e, apesar de tudo, tentamos viver juntos para que não aconteça o caos. É o que mostro no filme, como cada um administra o seu dia a dia para seguir adiante. Os policiais também estão em modo de sobrevivência, também vivem na miséria.
O bairro do diretor, com 5,4 mil habitantes e índice de desemprego de 40%, também é sede da escola de cinema que ele fundou com o coletivo artístico Kourtrajme, formado por figuras conhecidos como o artista urbano JR, criado na mesma região – ele foi parceiro da cineasta Agnès Varda no documentário indicado ao Oscar Visages, Villages.
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