
Explicações definitivas ainda custarão a vir e dependerão da pesquisa científica, mas a percepção crescente entre referências políticas, econômicas, culturais e sociais é de que Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul, sofrerá traumas após a passagem da pandemia de coronavírus.
Nesta terça-feira (5), mesmo tendo população sete vezes menor do que Porto Alegre, Passo Fundo esteve por alguns instantes com mais óbitos do que a capital gaúcha por força da covid-19. Ao final do dia, terminaram igualadas com 17 vítimas cada, mas com Passo Fundo disparadamente à frente nos quesitos incidência da doença sobre a população, com 113,3 contaminados para cada 100 mil habitantes, e grau de letalidade do vírus de 7,6% (veja números no quadro).
De identidade étnica multifacetada, tendo a evolução da história agregado em seu chão desde caboclos e negros até imigrantes europeus, com fortes traços de regionalismo e gauchismo, a cidade de 203 mil habitantes é, hoje, o epicentro da pandemia no Estado. Um cenário difuso que promove o choque entre aspirações legítimas de uma sociedade, como vida, saúde, trabalho e renda.
— A situação é muito complexa e não há resposta única da sociedade. Entram em jogo muitos fatores, não só o cuidado consigo e com os outros, mas os econômicos e as necessidades urgentes de ordem vital, como a falta de dinheiro e a sobrevivência. Existem os que estão se cuidando, os que não podem deixar de se expor pela extrema necessidade de trabalhar e os que estão interessados com os ganhos econômicos exclusivamente — avalia Francisco Carlos dos Santos Filho, psicanalista, professor e pesquisador da Universidade de Passo Fundo (UPF).
Ele analisa que, com o avanço da pandemia, as estatísticas estão deixando de ser números distantes. Com 223 infectados confirmados e 17 óbitos no município, cada vez se torna maior o número de pessoas que conhece alguma vítima da covid-19. E isso vai dando cara ao trauma.
— O que torna uma situação traumática não é o acontecimento, mas o despreparo que cada um pode ter para lidar com ele. A situação é traumática porque vem do real e não temos como modificar, é algo que se impõe como uma catástrofe natural. E quando ocorre uma morte próxima, com um rosto e isso me atinge, a indiferença e o descuido podem se transformar em raiva — diz Santos Filho.
Na rotina da cidade, as explicações não são conclusivas, mas existem alguns indicativos para a disseminação rápida do vírus em Passo Fundo. Houve um surto entre funcionários do frigorífico JBS, que está interditado, além de outro foco em um lar de idosos. Também são citados fatores como a característica da cidade de ter forte fluxo de veículos de cargas, além de ser um polo de saúde que atende 200 municípios do entorno.
— Não dá para ter certeza do que nos levou a esse número. Temos clareza de que testamos mais do que outros municípios, o que ajuda a explicar. Os nossos números são próximos da realidade, praticamente não temos defasagem com os dados da Secretaria Estadual da Saúde. É provável que isso que está acontecendo em Passo Fundo aconteça em breve em outros municípios — diz o prefeito Luciano Azevedo.
O fato de a cidade ser referência em saúde, com estruturas importantes nos hospitais de Clínicas e São Vicente de Paulo, acrescidos da produção acadêmica de três faculdades de medicina, são fatores que, de fato, ajudam a explicar a maior capacidade de investigação do vírus no município.
Reitora da UPF e doutora em saúde pública, Bernadete Maria Dalmolin atesta que a qualificação da medicina local produz maior volume de informações epidemiológicas, o que coloca Passo Fundo à frente de municípios onde as apurações de contágio são precarizadas.
— Conheço bastante a vigilância sanitária e os serviços de saúde da cidade, posso dizer que são qualificados e que atuam muito na elucidação dos casos. Penso que estamos mais próximos da realidade pela capacidade de investigação epidemiológica — diz Bernadete.
Ela ainda ressalta outro indicador, o qual perdurou sobretudo no início da pandemia, relacionado a grupos que repeliram a gravidade da situação, como se não fosse atingir o seu entorno. Para o psicanalista Santos Filho, esse traço não se trata de negação, já que não envolve alteração da realidade, mas algo que ele definiu como um processo de "desmentido".
— A pessoa sabe o que está acontecendo, reconhece, mas acredita que não vai lhe acontecer nada. Isso leva a um constante desafio do risco, alguns passam a tomar como pânico ou histeria, enquanto o vírus vai se alastrando — diz o psicanalista.
Observadores da cidade apontam como numerosos e fortalecidos os coletivos que se organizaram para lidar com a pandemia baseados na teoria do desmentido.
— São duas questões combinadas que resultam nessa tragédia que vivemos na cidade. A primeira é uma cultura produtivista que fez de tudo para burlar o isolamento. E o outro aspecto é o cultural, do individualismo extremado, com um espectro bolsonarista que faz carreatas pela cidade, promove aglomerações e reuniões todos os domingos sem que o Estado tome qualquer providência para proteger os demais — diz Tau Golin, jornalista, historiador e professor da UPF.
Se não há hora boa para a chegada de uma pandemia, ao menos pode-se dizer que, no Brasil, o coronavírus eclodiu no momento menos propício possível. As avaliações são de que a polarização política e as opiniões extremadas são aliadas do vírus, levando a sociedade a não conversar, se afastar de consensos e a manter posturas insensatas, mesmo que seja apenas para repelir a tese do antagonista.
Reflexos econômicos
As marcas que a pandemia deixará obviamente se alastram pelo plano econômico, em uma cidade que iniciou sua trajetória de pujança com a inauguração da ferrovia em 1898. Presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Passo Fundo, Sergio Giacomini diz que os comércios varejista e atacadista e o setor de serviços representam 75,6% do PIB municipal. A cada quatro trabalhadores formais do município, três atuam nesses setores, que estão fechados na tentativa de conter o avanço da pandemia.
— O impacto na economia é gigantesco. A estimativa é de que entre 15% e 17% dos trabalhadores formais já foram demitidos ou serão nos próximos dias. É uma questão de sobrevivência. É indiscutível que a vida é o primeiro ponto, mas a economia também precisa acontecer. Logo teremos um número muito grande de desempregados e empresas fechadas — diz Giacomini.
Ele destaca que os focos mais comentados na cidade não se originaram no comércio, mas em um frigorífico e um lar de idosos. Uma ponderação de que o comércio poderia funcionar, desde que mantendo regras rígidas de higiene e precaução. Visão de que vida e economia não precisam ser antagonistas.
Conhecida pela Jornada Nacional de Literatura, Passo Fundo também é fortemente marcada pelo tradicionalismo: são 16 CTGs na cidade, todos em bairros diferentes. Na pandemia, muitos fizeram ações sociais para distribuir sabão, alimentos e marmitas a pessoas vulneráveis e caminhoneiros, exercitando a solidariedade frequentemente citada como uma característica que precisa eclodir no mundo pós-pandêmico. Mas os tradicionalistas também estão sendo semeados pelo vazio, com seus galpões fechados, ensaios suspensos, alguns eventos já cancelados neste ano, e com a incerteza sobre a realização do Enarte e da Semana Farroupilha. É como se o coronavírus avançasse no sentido de ceifar o trabalho, a saúde e o lazer.
— Acredito que a pandemia vai deixar marcas profundas em todos os setores. Quando voltarmos a ter os fandangos e os jantares dançantes, será que as pessoas, principalmente as que estão mais esclarecidas, voltarão a frequentar CTGs cheios como antes? Tudo está muito indefinido, isso cria vazios — diz Gilda Galeazzi, moradora de Passo Fundo e primeira mulher na história a presidir o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).
Investimentos na saúde
Apesar do cenário de evolução da pandemia, as boas notícias seguem vindo do robusto sistema hospitalar. Nesta terça-feira, os dois hospitais da cidade registravam 69% de taxa de ocupação dos leitos de UTI destinados aos pacientes de covid-19. Ou seja, a engrenagem de saúde está dando resposta à demanda. Além dos já existentes, mais 1o leitos devem ser inaugurados nos próximos dias no São Vicente de Paulo.
Na linha de frente do combate, o pneumologista Gustavo Picolotto, gestor da UTI 2 do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, diz ter a clara sensação de que a esperança está vencendo o medo entre os pacientes e seus familiares. Isso seria fruto, diz ele, do grande número de curados da covid-19 — nesta terça-feira, o município tinha 51 recuperados contra os 17 mortos.
— A partir do momento que as pessoas passam a ver seus conhecidos tendo a contaminação, e depois alcançando a alta, a população fica um pouco mais tranquila. Ela entende a gravidade, mas está vendo que nem todos os casos são trágicos e acabam em óbito. As muitas altas acabam sendo tranquilizantes e, para nós, quando elas ocorrem, são alegrias imensas. Uma felicidade que contagia a todos e transmite o desejo de trabalhar mais e mais — afirma Picolotto.
Os números*
Passo Fundo
- 223 casos confirmados
- 17 óbitos
- 113,3 contaminados para cada 100 mil habitantes
- Taxa de letalidade de 7,6%
- Nesta terça-feira (5), Passo Fundo teve 20 novos casos
- População total de 203 mil
Porto Alegre
- 467 casos confirmados
- 17 óbitos
- 31,6 contaminados para cada 100 mil habitantes
- Taxa de letalidade de 3,6%
- Nesta terça-feira (5), Porto Alegre teve três novos casos
- População total de 1,4 milhão
*Os dados referem-se às informações disponíveis até as 20h20min desta terça-feira (5)




