
Esta porto-alegrense de 41 anos não é uma turista. Não uma turista clássica. Letícia Lampert não está no mundo a passeio, como eu costumo dizer. É que, mesmo já tendo viajado por incontáveis cidades em duas dezenas de países, ela vê o mundo com outros olhos. Através da fotografia, mas de um outro jeito. Formada em Artes Visuais, Design e com mestrado em Poéticas Visuais, Letícia investiga as formas de compreender a paisagem urbana e as relações estabelecidas com as cidades.
Não vou enumerar a quantidade de prêmios que já recebeu e de exposições de que já participou (você pode conferir a lista em leticialampert.com.br), além das residências artísticas.
Foi ao passar seis meses em Xangai, na China, que Letícia começou a misturar pedaços de fotos de Xangai com imagens de Porto Alegre e de outras cidades e criou uma série chamada Random City (cidade aleatória), fazendo colagens a partir de registros feitos em viagens.

A seguir, trechos da entrevista por e-mail, enquanto ela viajava, desta vez pelo Nordeste:
Me interessava pensar o quanto vemos um lugar a partir do que já conhecemos, o quanto tentamos nos identificar buscando semelhanças, o quanto cada um é capaz de criar diferentes paisagens, mesmo olhando para o mesmo lugar, uma vez que este olhar estará sempre impregnado de lembranças, vivências, gostos pessoais e expectativas
LETÍCIA LAMPERT
Artista visual
Como surgiu a ideia de colar “pedaços” de cidades para a série Random City, juntando Porto Alegre, São Paulo e Xangai?
Meus trabalhos vão surgindo como desdobramento de trabalhos anteriores, as ideias nunca vêm do nada, elas vão ganhando corpo com o pensamento sobre algo que vai se aprofundando e se desenvolvendo lentamente. Na minha primeira exposição individual, (des)construções, em 2008, criei colagens a partir de fotografias de pedaços de casas e prédios de Porto Alegre. Daquilo que era apenas um exercício estético de composição, começou a surgir um pensamento sobre a falta de planejamento urbano e o quanto isto afetava a paisagem ao nosso redor, de o quanto aquela “confusão” de imagens que eu criava trazia uma certa coerência como representação da cidade. Em 2010, morei por um ano em Adelaide, na Austrália, e lá experimentei o oposto: um lugar planejado no modelo cidade-jardim, criticado por urbanistas justamente pelo excesso de organização que, assim como a falta de planejamento, tem consequências negativas. Desta experiência, acabou surgindo outra exposição – Nalgum Lugar entre Lá e Aqui – em que misturei as imagens das duas cidades. Me interessava pensar o quanto vemos um lugar a partir do que já conhecemos, o quanto tentamos nos identificar buscando semelhanças, o quanto cada um é capaz de criar diferentes paisagens, mesmo olhando para o mesmo lugar, uma vez que este olhar estará sempre impregnado de lembranças, vivências, gostos pessoais e expectativas. Cheguei a fazer uma primeira experiência misturando mais lugares, mas este trabalho ficou parado por um tempo, até ir para uma residência artística na China, em 2015.
Foi aí que nasceu Random City?
Lá, tive vontade de retomar esta prática de misturar lugares. Xangai é uma cidade que passou por muitos conflitos, períodos de colonização, teve as “concessões” (bairros administrados por outros países). Eu via isso como uma colagem na paisagem de fato. Hoje não é mais assim, mas as marcas na arquitetura são muito evidentes. A gente também tem aqui estas marcas de colonização, ainda que não tão delimitadas, mas nisso fui vendo aproximações. Por um lado, havia esses traços de outras culturas. Por outro, os efeitos da globalização que fazem com que encontremos as mesmas redes de lojas, hotéis, supermercados, fastfood nos mais variados lugares, o que vai criando uma homogeneização da paisagem, ou a ideia de não-lugar, um conceito de Marc Augé. Tem um conto do Italo Calvino em Cidades Invisíveis em que ele brinca que todas as cidades são, na verdade, a mesma, que não adianta pegar um avião, só vai mudar o nome do aeroporto. Esse conto também foi um dos motes do projeto, pois a partir dele comecei a pensar numa cidade que é todas as cidades, sem começo e nem fim, por isso esta panorâmica interminável que fui construindo no Instagram no perfil @city.random.
Há semelhanças entre a paisagem de Xangai e de Porto Alegre, por exemplo?
Se pensar na paisagem em si, ao pé da letra, eu diria muito pouco. A semelhança que vi foi muito mais subjetiva, em relação a um certo sentimento de colonizado, de uma supervalorização da cultura europeia como modelo, seja nos empreendimentos neoclássicos construídos aqui, para citar um exemplo, seja nos bairros inteiros que constroem lá imitando cidades europeias.

E o que elas têm de mais diferente?
Acho que um senso de coletividade e um projeto de futuro. Eu achei incrível visitar lá o Shanghai Urban Planning Exhibition Hall, um centro de planejamento urbano aberto. Eles têm um projeto de cidade, eles sabem onde querem estar e como querem ser em 2050. Aqui não se tem um plano continuado, de longo prazo, muito menos que a população possa acompanhar. Eles parecem entender bem o potencial paisagístico e turístico do rio, e que por isso deve ser público, deve ser parque, podendo ter bares, restaurantes, mas numa área aberta, acessível a todos, de circulação a pé e que valorize a cidade. Aqui o espaço público é entendido como terra de ninguém.
minha é fugir das redes de qualquer natureza, experimentar restaurantes e produtos locais, fazer tudo o que puder a pé e com tempo, andar de ônibus, sair um pouco dos pontos turísticos mais óbvios e buscar saber das pessoas o que elas gostam de fazer na cidade onde moram
LETÍCIA LAMPERT
Artista visual
Qual tua dica para enxergarmos os lugares que visitamos de um outro jeito para além do habitual, especialmente quando se está na condição de turista?
Acho que esse projeto vem também de um incômodo, do ponto de vista de turista, da homogeneização crescente que se vê nas grandes cidades e destes não-lugares. Quando vou para um lugar, não quero fazer e encontrar as coisas que já conheço, quero ver o que pode ter de novo. Pra mim, Mc Donald´s ou Starbucks só em casos de vida ou morte por banheiro ou wi-fi! Brincadeiras à parte, cada um tem que fazer o que gosta, mas, se for para dar uma dica, a minha é fugir das redes de qualquer natureza, experimentar restaurantes e produtos locais, fazer tudo o que puder a pé e com tempo, andar de ônibus, sair um pouco dos pontos turísticos mais óbvios e buscar saber das pessoas o que elas gostam de fazer na cidade onde moram.


