
Ao deflagrar a Operação Constituição Cidadã, nesta quarta-feira (9), a Polícia Federal (PF) quer entender detalhes do planejamento das blitze realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno das eleições de 2022. Além da prisão do diretor-geral da PRF na ocasião, Silvinei Vasques, os investigadores esperam encontrar respostas em documentos apreendidos em 10 mandados de busca e apreensão e no interrogatório de 47 policiais rodoviários.
Não é por acaso a ofensiva ter sido deflagrada um dia após o depoimento do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres à CPI do 8 de Janeiro. Ele foi o responsável por indicar Vasques ao comando da PRF e, segundo o que a PF apurou até agora, os dois agiram juntos para tentar atrapalhar a chegada de eleitores aos locais de votação no Nordeste, região em que Lula possuía mais apoio.
Tanto Torres, no extenso depoimento desta semana, quanto Vasques, o primeiro a comparecer à CPI, negaram irregularidades e enfatizaram que as blitze não influenciaram no percentual de abstenção nas urnas. Mas isso só ocorreu porque o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, agiu rápido e intimou Vasques a interromper imediatamente as operações, o que logo foi acatado, ainda no dia do pleito.
Não há dúvidas de que Torres e Vasques politizaram a atuação da PRF e em várias situações reduziram as funções de uma instituição de Estado com 95 anos de história aos desejos do presidente de plantão. O que precisa ser esclarecido é quem se envolveu no planejamento das ações no segundo turno e qual a participação do ex-presidente Jair Bolsonaro no caso.
A iniciativa foi planejada em um momento de euforia e expectativa no entorno da campanha à reeleição. Com uma diferença de votos mais apertada no primeiro turno do que indicavam as pesquisas, o ex-presidente enxergou possibilidade real de vencer e organizou uma força-tarefa para virar votos. Na prática, os investigadores querem medir até que ponto a estrutura e o efetivo da PRF foram utilizados neste plano.
Ao deixar a diretoria-geral da PRF, Vasques se aposentou aos 47 anos. Desde a derrota nas urnas, tenta se mostrar como alguém distante de Bolsonaro e de sua família. Postura oposta à que adotou no período eleitoral, quando chegou a pedir voto ao ex-presidente nas redes sociais.
Contudo, logo após negar qualquer envolvimento pessoal com Bolsonaro na CPI, Vaques foi fotografado no Congresso às gargalhadas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filhos do ex-presidente.
Ter simpatia por um grupo político ou até mesmo boa relação com autoridades está longe de ser pecado. O problema é misturar vontade pessoal com a função institucional e utilizar um aparelho do Estado para fim político-partidário.




