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A jornalista Bruna Oliveira colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Os ganhos históricos registrados pelos produtores gaúchos na temporada 2020/2021 não devem se repetir na próxima safra. A explicação, segundo o economista da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Ruy Silveira Neto, é que os custos seguem em altas consideráveis, enquanto os preços entram em uma tendência de estabilização, embora em patamar ainda elevado.
— A margem excepcional anterior é um cenário que não se repetirá. Pode ser que tenhamos preços muito valorizados ainda, mas as margens vêm se estreitando. Em 2020/2021, o preço acabou amortecendo muito do custo que já vinha subindo. Agora, em 2021/2022, os preços estão mais comportados, atingiram um platô, porém os custos continuam avançando rápido — observou Neto.
A análise faz parte de estudo feito pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com a Farsul e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Os dados são coletados pelos painéis do programa Campo Futuro a partir da realidade produtiva apresentada pelos produtores.
No acumulado de 2021, a inflação do custo de produção já tem alta de 17,39%. Em 12 meses, é de 23%. Os gastos com insumos sobem forte, na casa de 20% a 30%. O maior impacto vem, sobretudo, das sementes, que subiram "barbaramente" para todas as culturas, segundo o economista.
Além disso, entram na conta os gastos que atingem de maneira geral as famílias brasileiras e também os produtores. Entre eles, os custos com combustíveis, alimentação e energia elétrica.
— É um custo que vem dos insumos e vai até a base da operação. O produtor rural sentiu que nem a gente sente na cidade — diz Neto.
Se com metade do ano em curso já é possível observar que as margens estão mais estreitas, significa que ainda existe muito espaço para que o custo comece a encostar na receita bruta. E não havendo expectativa para que se repita uma lucratividade fora da curva, o economista alerta para que os produtores não façam investimentos desnecessários.
– Fortalecer o caixa e ter dinheiro disponível vai ser muito importante para ter um colchão de liquidez — avisa Neto.