David Coimbra

David Coimbra

Colunista de ZH e GZH e comentarista da Rádio Gaúcha, teve 18 livros publicados. Prêmios: 10 ARI, Esso de Reportagem, Direitos Humanos, Habitasul de Literatura, Erico Verissimo de Literatura, Açorianos de Literatura, entre outros. David faleceu em 27 de maio de 2022 após 10 anos de luta contra o câncer. Suas crônicas seguirão disponíveis em GZH.

Pandemia
Opinião

Chega de apertar mãos

Os americanos é que estão certos: eles apertam a mão de alguém uma única vez na vida, quando conhecem a pessoa. Depois, nunca mais, só troca de sorrisos a uma distância segura

David Coimbra

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A pandemia está acabando com os apertos de mão. Até que enfim. Nunca gostei de apertar mãos. Até porque, francamente, esse é um costume superestimado. Quando era guri, os adultos davam aulas sobre como apertar bem uma mão. O "homem", diziam, precisa ter um aperto firme. Denota sua força, seu caráter íntegro, sua personalidade marcante. Uma que se estende mole para o cumprimento significa que o homem que está atrás dela é inconfiável. Afinal, ele não está cumprimentando com vontade, ele não está feliz de encontrá-lo. Ele é traiçoeiro. Cuidado com ele! 

Essa crença, além de carecer de comprovação científica, fez com que homens de todas as idades se transformassem em trituradores de falanges, falanginhas e falangetas. Mas os piores são os mais velhos. Não os velhos: os mais velhos. Os maduros, digamos assim. Quando conheço um sujeito de certa idade, cheio de energia e disposição, e ele dá um bom dia vigoroso, estilo Mourão, e me apresenta aquela mão do tamanho de uma raquete de tênis, já sei: trata-se de um maldito quebrador de metacarpos. 

É horrível. 

Existe também uma grossa polêmica sobre o tempo em que uma mão deve ser apertada. Tem caras que capturam a sua mão e não param de balançá-la. Eles ficam balançando e falando ao mesmo tempo. Isso me angustia, porque, se eu puxar a mão, parecerá falta de educação. E, se mantiver a mão, parecerá que estou gostando daquela sacudidela sem fim. 

Conheço sacudidores de mãos furiosos. São afetuosos, sei, eles sacodem a minha mão com tanto entusiasmo porque estão felizes de me ver. É bacana, mas, em certo ponto, começa a incomodar. Quando é que vai parar com aquilo? Dá vontade de gritar: 

— Me larga! ME LARGA! 

Claro que não farei isso. Assim como não recusarei apertar uma mão mesmo que ela esteja pingando de suor, como sói acontecer. É verão, 40 graus e o sujeito vem de lá todo suado. Você vê que ele está gotejando e sabe que ele lhe oferecerá a mão. É inevitável, ele fará isso, você o conhece. Não há como recuar, não há como sair correndo, aquela mão lustrosa, úmida e gorda já vem na sua direção e vem toda aberta, pronta para um bom apertão. Você sente uma aflição, você quer fugir, mas é tarde, a mão chegou e você a aperta. Sente o suor do outro penetrando-lhe os poros, mas continua sorrindo, impávido e lívido ao mesmo tempo. 

Por delicadeza, perdi a minha vida, já dizia Rimbaud. 

Não, não gosto de apertar mãos. Os americanos é que estão certos: eles apertam a mão de alguém uma única vez na vida, quando conhecem a pessoa. Depois, nunca mais, só troca de sorrisos a uma distância segura, nada de troca de germes. 

Sempre pareceu antipático da minha parte, isso de não ser um apertador de mãos. Agora, a pandemia veio me redimir. O soquinho está bom. Menos pessoal, é verdade. Mas muito mais higiênico. 

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