
Foi divulgada nesta segunda-feira (20), o relatório síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o aquecimento global provocado pelo homem. No novo documento, alguns dos principais cientistas do clima discutem o futuro e apontam possíveis ações para evitar estragos decorrentes de um colapso climático global. O próximo relatório da entidade só deve ser publicado no final desta década.
Após nove anos de estudos, que ocupam 10 mil páginas, os membros do painel divulgaram um resumo das pesquisas e uma breve pauta de recomendações, que representam um "guia de sobrevivência", nas palavras do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.
O relatório prevê que o impacto da mudança climática será mais grave do que se temia até agora. Esta é a razão pela qual também é preciso acelerar a transformação energética. Segundo os dados apresentados, a temperatura média do planeta alcançará +1,5ºC na comparação com a era pré-industrial entre os anos 2030 e 2035, devido à atividade humana.
De acordo com o estudo, a projeção é válida em quase todos os cenários de emissões de gases do efeito estufa da humanidade a curto prazo, levando em consideração o acúmulo por um século e meio.
Porém, "reduções profundas, rápidas e prolongadas das emissões (...) levariam a uma desaceleração visível do aquecimento do planeta em aproximadamente duas décadas", acrescenta o texto.
"Vários riscos associados ao clima são mais elevados do que estava previsto, dado o nível futuro de aquecimento", explicam os membros do IPCC no estudo. "Com o aumento inevitável do nível dos oceanos, os riscos para os ecossistemas costeiros, as pessoas e as infraestruturas continuarão aumentando após 2100", explicam.
A questão das "perdas e danos" provocados por episódios meteorológicos extremos é um dos temas mais delicados das negociações do clima. A próxima reunião de cúpula, a COP28, acontecerá em dezembro em Dubai.
Os climatologistas dizem que os benefícios de limitar o aquecimento global a +2ºC superam os custos. "Adiar as medidas de limitação e adaptação (...) reduziria sua viabilidade, e as perdas e danos aumentariam", explica o IPCC. "Entre 2010 e 2019 os custos diminuíram consideravelmente para a energia solar (85%), energia eólica (55%) e baterias de lítio (85%)", explica a síntese. "A curto prazo, as ações implicam investimentos iniciais e mudanças potencialmente radicais", admitem os especialistas.
— A humanidade está num gelo fino – e esse gelo está derretendo rapidamente — analisou o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.
Carbono
Os países ricos devem antecipar suas metas de neutralidade do carbono "o mais próximo possível de 2040", em vez de 2050, pediu Guterres em uma reação rápida. Acelerar o objetivo é imprescindível para "desativar a bomba climática", explicou em uma mensagem de vídeo.
A neutralidade de carbono consiste em emitir a mesma quantidade de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera do que aquela que é removida, por meio de diferentes técnicas. Os países desenvolvidos, beneficiados por décadas de progresso graças ao consumo de energias fósseis, devem ser os primeiros a dar o exemplo. Os países em desenvolvimento, por sua vez, devem ajustar-se à data de 2050 para alcançar a neutralidade de carbono, afirma Guterres.
O presidente do comitê de especialistas da ONU, Hoesung Lee, entende que a mensagem é de esperança, apesar dos dados.
— Temos o conhecimento, a tecnologia, as ferramentas, os recursos financeiros (...) para superar os problemas climáticos que identificamos, mas no momento o que falta é a vontade política — reconheceu o economista coreano.
O informe é o primeiro publicado desde a assinatura do histórico Acordo de Paris em 2015, que estabeleceu como principal meta, para quase 200 países do planeta, limitar o aumento da temperatura média do planeta a +2ºC, e de modo ideal a +1,5ºC.