
Quando questionado sobre o local por onde os criminosos que ele disse terem assassinado seus pais durante um assalto tinham entrado na residência em Jaguarão, no sul do Estado, Iuri Chagas, 20 anos, não soube explicar. Não havia sinais de arrombamento na moradia. Ainda assim, Manoela Renata Araújo Chagas, 40, e o marido Paulo Adão Almada Moraes, 50, foram mortos a tiros dentro de casa na madrugada de sexta-feira (11), enquanto dormiam. Aquela foi uma das pistas que levou os investigadores a suspeitarem da participação do filho do casal no duplo homicídio. Mais tarde, ele mesmo confessou ter arquitetado o crime.
— Verificamos que havia inconsistências entre a cena do crime e os relatos dele. Começamos a trabalhar com a hipótese de não ser um latrocínio (roubo com morte) e, sim, um duplo homicídio — detalhou a delegada Juliana Garrastazu Ribeiro, em coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira (14).
Na madrugada de domingo (13), o rapaz foi preso de forma preventiva e relatou o crime aos policiais. Ao ser questionado sobre o que pretendia fazer com os pais, segundo a delegada, o filho respondeu: “matar”. O jovem disse que tinha “picos de raiva”, devido a problemas na relação com os pais e que, por isso, há cerca de dois anos teria começado a planejar o crime. Ao longo da última semana, ele mesmo teria adquirido um revólver de calibre 22 — ainda não se sabe se no Uruguai ou em Jaguarão.
— De acordo com o relato, ele tentou cooptar amigos, que comprassem esse plano da morte dos pais. Disse que essa ideia ia e vinha. Na terça-feira, após uma discussão com a mãe, ele começou outra vez a planejar, comprou a arma. Ele diz que na quarta-feira, fez as pazes e desistiu, mas que eles (os autores) teriam cometido o crime sem a anuência dele. Essa versão não combina com todo o resto. Para nós, é uma tentativa de tentar diminuir a responsabilidade num crime tão bárbaro — afirmou a delegada.
Embora tenha confirmado que ele mesmo arquitetou o crime, o jovem não deu detalhes sobre quem seriam os outros autores. A polícia ainda tenta esclarecer se o rapaz teve participação nos disparos e quem seriam os outros envolvidos no duplo homicídio. Pelo menos mais uma pessoa teria participado, já que o veículo da família foi abandonado longe da casa na mesma madrugada. Uma das suspeitas é de que as vítimas possam ter sido dopadas pelo filho, já que não apresentaram reação — isso será verificado pela perícia.
Na tarde desta segunda-feira (14), foi detido preventivamente outro suspeito de envolvimento nas mortes. Na casa dele, a polícia apreendeu três estojos deflagrados de munição calibre .22, mesma usada no crime.
Confira alguns pontos que levantaram suspeita
As portas chaveadas
O portão da garagem e as portas da casa tinham sido chaveadas ao anoitecer. Antes de ir deitar, a mãe do rapaz conferiu se estava tudo fechado, como era seu costume. Quando questionado pelos investigadores sobre como os assaltantes poderiam ter entrado, ele disse que não sabia. A filha do casal relatou que não ouviu nenhum barulho antes dos tiros, que pudesse ter sido provocado por alguém forçando a porta ou o portão. A suspeita é de que Iuri tenha aberto a porta por volta das 4h30min. Outra possibilidade é de que tenha entregue a chave da moradia para os atiradores.
A reação do filho
Em seu primeiro depoimento, Iuri disse à polícia que ao ouvir os estampidos de tiros dentro de casa correu até o quarto da irmã, uma adolescente de 13 anos, para saber se ela estava bem. Depois, disse ter ido até a entrada da casa e visto os dois criminosos, com capacetes, fugindo na caminhonete da família. Os policiais indagaram se ele não chamou pelos pais e não foi verificar se eles estavam bem. Ele afirmou que não.
— Se alguém escuta tiros dentro de casa é de se esperar que queira saber como estão os familiares. Nos pareceu que ele tinha certeza de que algo tinha acontecido no interior do quarto. Não gritou: “Pai, mãe, vocês estão bem?”— explicou a delegada.
O veículo
Após o duplo homicídio, o veículo da família, uma Strada, que estava na garagem da residência, foi levada da casa. O que chamou a atenção da polícia é que o veículo foi encontrado logo depois no outro lado da cidade. A caminhonete tinha sido o único bem levado da casa. Se o intuito dos criminosos fosse realmente cometer um assalto, na análise da investigação, não faria sentido abandoná-lo na sequência.
Depoimentos
A polícia ouviu a namorada do rapaz e também a irmã, que deram detalhes de como ele teria se comportado antes e após o crime. A namorada confirmou que o jovem havia comprado um revólver preto (a partir da troca ou venda de dois celulares e uma televisão) na terça-feira e que ele já havia lhe questionado se ela teria coragem de matar os próprios pais. A jovem disse que não suspeitou que ele poderia usar o revólver para cometer o crime. A polícia apura essa versão.
A relação conturbada
Iuri e os pais mantinham uma relação por vezes conflituosa, segundo o depoimento do próprio filho. Eles se desentediam porque o jovem não gostava de ser controlado e por questões financeiras. Isso foi confirmado também por familiares e pessoas próximas. Embora a motivação do crime ainda não esteja clara, para a polícia este foi mais um elemento que levantou suspeita sobre o rapaz.




