
Organizar o roteiro de passeios, atrações e restaurantes ocupa boa parte do tempo de quem vai sair de férias. Mas existe uma tarefa tão ou mais importante do que todo esse planejamento e que muitas vezes fica esquecida: revisar as vacinas já feitas e conhecer as obrigatoriedades do destino escolhido.
Boa parte dos viajantes deixa para cuidar da imunização na última hora. Pesquisa do Conselho Europeu de Assessoria em Saúde de Viagem mostrou que apenas 40% dos pesquisados buscaram orientação antes de pegar o avião. Desses, 20% foram atrás de um médico com 14 dias ou menos de antecedência e menos de 10% do total estava imunizado de acordo com as recomendações nacionais ou internacionais.
Para evitar problemas, a dica é visitar o médico pelo menos um mês antes de viajar para garantir que o organismo tenha tempo de produzir anticorpos.
— A maioria das doses leva de 10 a 15 dias para dar uma resposta adequada — garante a médica infectologista Flávia Bravo, que apresentou uma palestra sobre o tema durante o Congresso Brasileiro de Infectologia, realizado em setembro no Rio de Janeiro.
O coordenador do Comitê de Medicina do Viajante da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Jessé Alves, lembra que não há uma receita pronta e cada caso deve ser analisado individualmente:
— A primeira coisa a ser considerada é: existe alguma exigência de vacina no local? Depois, é preciso pensar: quais vacinas seriam de rotina e o viajante ainda não tomou? Então, aproveita para atualizar.
Mas, mesmo que o seu prazo esteja apertado, a dica é não deixar de visitar um médico e se informar sobre as vacinas que são indicadas para o seu caso. Reunimos algumas informações importantes sobre a medicina do viajante. Confira.
O que deve ser avaliado antes de embarcar
Antes de colocar o pé na estrada é necessário avaliar os riscos relacionados à viagem. A infectologista Flávia Bravo diz que é preciso levar em conta o destino, as atividades envolvidas e a duração da viagem. Também é preciso analisar o status vacinal e a situação de saúde de quem vai embarcar. Ou seja, não é porque você vai para um lugar de risco que precisa, necessariamente, da vacinação.
— Hepatite A e febre tifoide precisam de um critério específico. Se a pessoa vai para Índia por pouco tempo e vai ficar em um hotel cinco estrelas, por exemplo, não tem necessidade. Agora, se vai ter contato mais próximo com a população, é importante a prevenção — exemplifica Alves.
Na conversa com o médico, é bom considerar o tempo de soroconversão das vacinas (tempo que o corpo leva para produzir anticorpos). A dose contra a febre amarela, por exemplo, precisa ser tomada 10 dias antes.
Outros aspectos a serem considerados são a duração da proteção, a necessidade de mais de uma dose para alcançar a imunidade adequada e a necessidade de coadministrar múltiplas vacinas em um curto período de tempo.
Problemas mais comuns em viajantes
Proteger-se nunca é demais, contudo, quem viaja não está livre de uma série de problemas. De acordo com Flávia, a maioria dos agravos infecciosos não têm vacina. É o caso da diarreia, a doença infecciosa mais frequente entre os mochileiros. Outro problema comum são acidentes com veículos ou afogamentos — que encabeçam a lista das principais causas de mortes entre viajantes. Dos problemas imunopreveníveis, os mais frequentes entre os viajantes estão as hepatites A e B e a febre tifoide. A hepatite B está intimamente relacionada ao comportamento de quem viaja. Flávia diz que o sexo casual é uma realidade entre 20% a 50% dos viajantes e que o uso de preservativo só ocorre entre 50% a 75% dos casos.
Vacinas que podem ser recomendadas
Antes mesmo de arrumar as malas, fale com seu médico para saber mais sobre as necessidades mínimas de vacinação de cada país. Veja algumas imunizações que podem constar na lista:
Encefalite japonesa: pode ser indicada para viagens longas para Ásia. Como não está disponível no Brasil, deve ser feita na chegada ao destino.
Febre tifoide: pode ser indicada para quem for para Índia, África do Norte e Ocidental (exceto Tunísia) e Peru.
Febre amarela: é a vacina mais requisitada, exigida por países como Cuba, África do Sul, Equador e El Salvador. A lista de todos os destinos que pedem a imunização está disponível no site da Anvisa. Não é obrigatória para quem viaja entre Estados brasileiros, mas é importante que aquelas pessoas que pretendem visitar áreas de risco estejam imunizadas.
Hepatite A: faz parte do calendário vacinal preconizado pela Sociedade Brasileira de Imunizações e previne a doença em caso do consumo de alimentos ou água contaminados.
Hepatite B: também é parte do calendário nacional e indicada para prevenir a contaminação sexual ou por meio do sangue.
Meningocócica ACWY: protege de vários tipos de meningite.
Poliomielite: indicada para quem for para áreas onde há transmissões, como Paquistão e Afeganistão.
Sarampo, caxumba e rubéola: apesar de rotineira, a dose tem se tornado importante, especialmente pelos casos registrados na Europa. Romênia e Itália têm grandes problemas com o sarampo, por exemplo. A imunização precisa de duas doses comprovadas em carteirinha. Se você não lembra se já fez ou não a vacina, recomenda-se refazer.
Raiva: pode ser indicada para quem viaja ao sudeste da África, para a Índia, e para quem ficar por muito tempo no destino e terá uma viagem voltada para aventura.
Tétano: pode ser atualizada.
Outros cuidados importantes
Além de toda prevenção e cuidado com imunizações, outra dica de ouro é ter alguns cuidados com a alimentação, especialmente se o destino for um país com problemas de saneamento. O médico Jessé Alves sugere evitar o consumo de alimentos crus, gelo nas bebidas e água da torneira:
— Prefira água engarrafada.
Higienizar as mãos antes das refeições com água e sabão ou álcool gel também é uma medida que podem evitar problemas como diarreia.



