
Desconfortável com as repercussões de uma reportagem do Pioneiro sobre o aumento da violência em Caxias do Sul, publicada na edição de 19 de julho, o comandante do 12º Batalhão de Polícia Militar (12º BPM) propõe um debate mais aprofundado sobre o tema. Para o tenente-coronel Ronaldo Buss, é preciso entender os fatores que resultam no avanço da criminalidade. O receio do oficial é de que o foco das críticas recaia, mais uma vez, sobre a BM.
Na entrevista realizada por e-mail, Buss demonstra cansaço com as críticas recorrentes ao policiamento ostensivo que, em sua opinião, "é único ator a aparecer quando a crise está instalada" e explica a decisão de evitar comparações dos números da violência do primeiro semestre deste ano com o mesmo período do ano passado, como sempre foi de praxe.
Pioneiro:A BM de Caxias não esconde que os crimes estão aumentando. Por que a decisão de não comparar os índices de 2016 com os de 2015?
Tenente-coronel Ronaldo Buss: A criminalidade não tem uma causa específica, ela é multifacetária. Vários são os fatores que influenciam em ter uma comunidade mais ou menos violenta. A violência é o resultado de todo um processo. E o único ator a aparecer, quando a crise está instalada, é a polícia. Por isso, a polícia tem sido, historicamente, a única a ser cobrada. Não que não deva. Mas existem muitos outros atores e condicionantes que precisam ser considerados. Nesse sentido, verificamos a necessidade de não se fazer esse tipo de comparativo. Mesmo assim, entendemos e procuramos trabalhar as nossas limitações, tentando, da melhor forma possível, entregar à sociedade o melhor possível. Entre estes fatores, como ponderado durante a apresentação dos números do primeiro semestre, está que: Caxias do Sul possui uma tendência de crescimento populacional de aproximadamente 7,5 mil pessoas por ano; possui uma frota veicular que até o final de maio, era prevista em 295 mil; que em 2015 iniciaram ações de governo que tangem saneamento de dívidas; e 2016 vem como um ano de estabilização de ações e de adequações; e, no último ano e meio, só Caxias teve fechamento de aproximadamente 35 mil vagas de emprego. São motivos suficientes para verificar que não há como positivarmos comparações. Cabe apontar que em nada adiantaria esconder números.
O senhor afirmou que “diante do contexto, os índices estão aceitáveis.” Que fatores foram levados em consideração para esta avaliação?
Precisamos compreender números, fatos e realidades, como já tentado explicar anteriormente. Caxias do Sul possui diversos prêmios recentes que certificam seu desenvolvimento e qualidade de vida. Para atingir um patamar destes, alguns quesitos carecem de ser atendidos. Uma destas necessidades basilares, além de saúde e educação, é a segurança. Ora, por que se fariam investimentos em um município inseguro? Se mesmo assim continuasse a despontar como modelo de qualidade, em entenda-se isso sob visão multifocada, há que se entender que consequências disto devem advir. Haverá uma movimentação dos mais variados tipos de atores para esse cenário e, com eles, os mais diversos tipos de cenas.
O que é aceitável para o senhor?
O aceitável está calcado no fato da constante evolução e crescimento populacional de Caxias do Sul e suas consequências. Existem fatores que impulsionam a desagregação social: como o recorde de desemprego, a crise moral e ética vivida em todo país, a falta de gestão pública mais comprometida com a sociedade, a sensação de impunidade, entre outros. O que chamo de aceitável ainda é o que leio todos os dias em publicações de nosso Facebook (CRPO Serra e 12º Batalhão de Policia Militar). São depoimentos de pessoas validando uma história profissional por parte de um efetivo comprometido com a comunidade, que é extremamente participativa. O termo aceitável não se constrói ligando para uma vítima e perguntando se é aceitável ela ter sido assaltada. Ninguém gostaria de passar por uma situação dessas. Esse processo empático temos a capacidade de realizar. E é por isso que estamos sempre reinventando modais de atuação, inovando e motivando nosso efetivo. Embora todas as dificuldades, a comunidade tem sido parceira. Reconhecemos, enaltecemos e valorizamos muito esse aspecto. No geral, posso afirmar que, apesar dos índices, da sensação de insegurança e da crise, ainda assim estamos vivendo em uma boa cidade, que continua a atrair investimentos e que aprende a achar soluções para problemas característicos de uma grande metrópole. Somos parte do problema e parte da solução.
O senhor discordou da reportagem publicada pelo Pioneiro em 19 de julho?
Com base em tudo que ponderei nas perguntas anteriores, direcionando a construção para que se faça um processo empático, eu poderia fazê-lo repensar a questão, e não indicar, como foi na capa, uma razão específica para um aumento numérico de incidência de ocorrências.Matematicamente, houve sim a redução de efetivo e pagamento de horas extras. Deixamos de ter mais efetivo nas ruas. Só que não creio que tenha sido este o principal motivo de incremento dos números da violência, embora estejam entrelaçados. Temos que considerar, que ao mesmo tempo em que isso ocorreu, aconteceram adequações de estratégias de gestão para esta realidade. Conseguimos motivar nosso efetivo, qualificar nosso emprego, aproximar nosso comando e policiais das comunidades, fortalecer parcerias com os órgãos públicos municipais, com o Poder Judiciário, com as universidades, com as entidades sindicais e patronais, com os clubes de serviço, e muitos outros. Ao contrário de buscar razões pela falta, nos enveredamos em buscar soluções compensatórias. É lógico que se mais policiais tivéssemos, melhor faríamos. E passa por aí um caminho de valorização da nossa profissão. Não podemos esquecer que mais policiais não significa, obrigatoriamente, uma sociedade melhor. A polícia é a ponta do sistema. Antes da intervenção da polícia, há que se exigir a intervenção mais efetiva do Estado como um todo. A polícia tem a atribuição de manter o controle e a ordem pública. E, ao meu ver, tem cumprido seu papel.
Na sua opinião, a sensação de insegurança está desproporcional, ou seja, muito pior do que os índices da violência em Caxias do Sul. Como então fazer com que o cidadão se sinta seguro?
O simples fato de se trazer um dado sem contextualizá-lo fica temerário. O que fizemos na data de ontem (dia 18 de julho), primeiramente, foi contextualizar os meios de comunicação acerca do maior município do interior do Estado. Estranhamente, verificou-se que somente com este veículo de comunicação houve desconexão argumentativa. Mas como já dissemos, temos como dogma insofismável, tido e aceito como verdadeiro, trabalhar com limitações. É no mínimo lógico que, com toda uma movimentação socioeconômica, índices tanto positivos como negativos obterão variação e essas poderão ser tanto positivas como negativas. Olhemos nossos parques, locais destinados ao publico e eventos. As movimentações são muito grandes nesses locais. Quais os índices de ocorrências nesses mesmos locais? Se houvesse uma sensação de média insegurança, esses locais não seriam tão visitados. Volto a mencionar, o que chamo de aceitável é que estamos fazendo e mantendo o devido controle. Nossas ações possuem referencial técnico de atuação. Agimos de forma qualificada, reativamente frente aos números, e pró ativamente em frente as demandas impostas pelas comunidades. Ter consciência de que este problema é de responsabilidade de todos é um ótimo começo. Comunidades mais organizadas t:em melhores resultados. E temos muitos bons exemplos neste sentido. É por esta organização que conseguimos boas informações e respostas mais rápidas, especialmente na prevenção, que é um fator ainda de difícil mensuração. Para explicar melhor, você consegue quantificar quantos homicídios e roubos foram evitados pela apreensão de uma arma? O medo que temos hoje é produto de tudo que estamos tentando contextualizar. Para nós, policiais, ele importa no sentido de nos deixar sempre prontos para uma intervenção rápida e segura. Neste caso, o medo é bom. Porém, o excesso de medo pode gerar neuroses. Concordo que as pessoas estão com mais medo e tem razão em tê-lo, mas, como no nosso caso (policial) ele precisa estar dentro de um parâmetro aceitável. As pessoas devem continuar tendo este comportamento mais seguro e preventivo.
O que vem causando esse aumento de crimes?
Temos multifatores. Diria que aumento populacional, desemprego, desagregação familiar, ausência de moral e ética nas relações, crise política, mau exemplo de alguns governantes, consumismo desenfreado, democratização das drogas, inversão de valores (estamos presenciando cada vez mais pessoas amando mais os animais do que as próprias pessoas), bandido idolatrado e o policial detestado, etc, etc, etc. Este fenômeno não é privilégio de Caxias do Sul, ele vem se dando em todos os níveis no nosso país. E diria mais, em países tidos como modelo de desenvolvimento humano. Dia após dia, notícias nos dão conta de mortes, atentados, ações terroristas, discriminações étnicas, entre outros.
Neste momento de crise na segurança pública gaúcha, o que mais incomoda o senhor?
A falta de reconhecimento e valorização profissional, por grande parte da sociedade, do nosso maior bem: nossos homens e mulheres.
Muitos policiais sentem que a sociedade não dá o devido prestígio que a BM merece. São opiniões que surgem, principalmente, um policial é ferido ou morto. O senhor também tem essa opinião?
Olha, pensemos bem: quem a qualquer hora, em qualquer tempo, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, deve dar resposta a violação da norma? Quando o sistema falha, quem é demandado pelo Judiciário, Ministério Público, Samu, ou seja lá o que for? A quem recorremos em caso de perigo? Os homens e mulheres da Brigada Militar são detentores de um grande respeito pela comunidade gaúcha e mesmo fora do Rio Grande do Sul. São nossos Anjos da Guarda. Mal compreendidos muitas vezes, mas anjos protetores.
Por outro lado, cada vez mais pessoas comentam nas redes sociais sobre "a polícia prende e o judiciário solta" e "deveriam atirar mais, pois bandido bom é bandido morto." Qual sua opinião sobre essas manifestações?
Sou propagador de um cultura de paz e como comandante e brigadiano sou um cuidador da sociedade. Existem correções que precisam serem feitas no rumo da nossa sociedade, a curto, médio e longo prazos. A curto prazo, eu entendo que bandido bom é bandido preso. Precisamos melhorar a sensação de impunidade. Jamais me posicionaria como um motivador da morte. Com relação ao judiciário, esse opera sob o arcabouço legislativo e não ao seu pessoal arbítrio. O juiz faz a lei ser cumprida e por ela é balizado, assim como o policial. Se a sociedade quer uma realidade diferente, vamos ao debate e a efetivação das alterações normativas, se assim entendidas.
Qual seria a sua primeira medida para reverter este cenário de insegurança? Parte desta resposta já contemplei nas perguntas anteriores. Mas, para mim, a educação é base de tudo. Por exemplo: precisamos resolver o problema das drogas. A solução me parece simples: terminar com os consumidores. Sem procura não haverá traficantes. Para isso, neste final de semestre, entregamos a sociedade de Caxias do Sul (por meio do programa Proerd), 1,3 mil crianças aptas a enfrentarem a violência e as drogas. Pode somar também as nossas intervenções na Cipave (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar), que contribuem na mesma direção. Ao final deste ano, serão aproximadamente 6 mil crianças que vivenciarão estes dois significativos projetos preventivos. A educação preventiva é o caminho.
O senhor está satisfeito com o trabalho em Caxias?
Como mencionei anteriormente, nosso efetivo, mesmo com a histórica defasagem, está fazendo o seu trabalho. Nossos homens e mulheres não produzem pelo dinheiro. Produzem porque amam o que fazem, pois são vocacionados a se doarem pela sociedade. O comando tem implementado medidas operacionais e administrativas para enfrentar as dificuldades. Temos as Operações do Comando Itinerante, a Operação Avante, a Operação Dia do Comunitário, a Balada Segura, o Centro Seguro, a Operação Casas Noturnas, enfim, uma gama enorme para atender as demandas de uma metrópole. Estamos tentando motivar nosso efetivo dando-lhes melhores condições de trabalho, reconhecendo seus esforços e encorajando-os ao bem servir. Porém temos muito presente que, "nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos". Não permitiremos ampliar o espaço para o mal. Vivemos em uma cidade participativa, ordeira, organizada, integrada e, especialmente, do bem. Todas as críticas são bem-vindas, desde que possibilite ajustes de rumo para o bem comum.



