
Grande porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS), as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), em Caxias do Sul, retratam a espera de quem fica recebendo assistência nos locais até conseguir um leito em um dos três hospitais que atenda SUS no município. Números do Conselho Municipal de Saúde (CMS) e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) apontam que, nesta segunda-feira (18), 78 pacientes (47 caxienses e 31 moradores de outros municípios da região que têm a cidade como referência) estão nessa condição: aguardando vaga hospitalar. E a maioria, nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Segundo o presidente do CMS, Alexandre Silva, ele vem acompanhando pessoalmente a situação das UPAs Central e Zona Norte e comenta que há casos graves, como pacientes oncológicos, e diz que o município não tem um plano de ação para reverter a situação. Ele ainda afirma que acionou o Ministério Público para que seja feito alguma ação para diminuir o tempo e a fila de espera.
— Eu estou no segundo mandato, já tinha visto espera hospitalar de 10 dias, com pouco mais de 20 pessoas esperando. Nunca chegou no patamar de 75 pacientes esperando há 20 dias. O que se entende é que não tem um planejamento estratégico para isso, a gente aprende ouvindo o usuário (do SUS) e os profissionais da linha de frente. Precisamos de leitos que atendam pacientes cardiovasculares, neurológicos, oncológicos e ter mais disponibilidade de exames que são feitos só em hospital, como uma ressonância e tomografia — relata Silva.
Dentre as pessoas com quem o presidente do CMS conversou em visitas nas UPAs está a auxiliar de produção, Naura da Silva, 30 anos. Ela acompanha o marido que está na UPA Zona Norte há uma semana. Ele iniciou com fortes dores nas costas e, em um exame, foi diagnosticada anemia, e agora aguarda a internação para realizar exames específicos.
— É angustiante, humilhante, porque a gente trabalha, a gente paga nossos impostos e quando a gente precisa de um leito hospitalar, não tem. Eu acho que isso é uma humilhação para o paciente, para a esposa, para os parentes ver uma coisa dessas. É horrível — desabafa Naura.
A auxiliar de produção já registrou um boletim de ocorrência na delegacia online da Polícia Civil.
Quem compartilha do mesmo sentimento é a dona de casa Marta Bortolozzo, 57 anos, que está com o pai, também na UPA Zona Norte, há 15 dias. Devido a uma ferida aberta, ele precisa de isolamento hospitalar para evitar infecção e de curetagem. De acordo com ela, o pai tem piorado muito nos últimos dias.
— Eu fui fazer um boletim de ocorrência e me falaram que eu precisava ir na ouvidoria da Saúde. Estive aqui, a moça responsável está de férias, me passaram para a ouvidoria da prefeitura e agora falaram que eu preciso aguardar. Meu pai está em sofrimento, eu não aguento mais vê-lo assim — diz Marta.
O que diz a SMS
Atualmente, segundo informações do Painel Covid Caxias do Sul, o município tem uma média de ocupação em UTI adulto de 82% e de 82,38% de enfermaria adulto.
Por meio da assessoria de imprensa, a SMS informou que a Central de Regulação de Leitos tem uma equipe médica que avalia cada caso, a situação clínica do paciente e em qual hospital deve ser atendido. O tempo de espera para a transferência pode variar conforme o caso e a liberação do leito, mas, em média, é de sete dias.
A SMS ainda afirma que a regulação de leitos é uma situação histórica e, desde 2015 Caxias não ganhava novos leitos pelo SUS – com o fim da área especializada em covid, ficaram 16 leitos de UTI e 18 clínicos, mantidos pelo município, que passou a contar com 226 leitos clínicos e 50 leitos de UTI. Outro agravante é o tempo de internação: antigamente era de cinco dias, hoje é de sete, em média, o que deixa o leito mais tempo indisponível para receber novo paciente, ou seja, diminuiu a rotatividade. Além disso, a parada dos procedimentos eletivos por dois anos, em função da covid-19, represou casos que estão lotando hospitais agora.
Questionada sobre fazer convênios com outros municípios da região, a SMS explica que para a contratação de leitos clínicos de média complexidade deve haver interesse mútuo e recurso financeiro, entretanto, em tratativas anteriores, alguns pacientes não aceitaram internar em outro município.


