
Em uma pacata cidade dos Campos de Cima da Serra, o clima é de aflição. O fechamento da maior empregadora de São Francisco de Paula, há uma semana, deixou a maioria dos moradores desolada e inquieta. Cerca de 360 trabalhadores, com carteira assinada, foram demitidos de uma tacada só pela fábrica de calçados Di Cristalli Ltda, que atuava no município há 10 anos.
Leia mais
"A conta vai chegar", diz ex-funcionária de fábrica que fechou em São Francisco de Paula
"Ainda estou com dor de estômago", diz moradora sobre fechamento de fábrica em São Francisco de Paula
Na tarde da última quarta-feira, quando a reportagem do Pioneiro esteve na cidade, o assunto que predominava nas ruas, nos bares e nas lojas do comércio era o fim de uma era no mercado de trabalho local. As pessoas demonstravam preocupação com a dificuldade de voltar ao mercado de trabalho. Com as demissões, pelo menos R$ 400 mil por mês deixam de circular na economia local.
— Estou há várias noites sem dormir. Parece que estou anestesiada — diz uma moradora.
O fim das atividades da fábrica pegou os funcionários e a população de surpresa. Trabalhadores contam que havia alguns rumores de que a empresa não estaria bem, mas não imaginavam que, de uma hora para outra, fecharia as portas e que deixaria um contingente de desempregados. Na quinta-feira, as equipes paralisaram a produção para cobrar explicações da direção da empresa.
No meio da tarde, os rumores se confirmaram. Na sexta-feira, dia 10 de agosto, as máquinas pararam de funcionar e os colaboradores foram orientados a aguardar o comunicado para o acerto das rescisões. É o segundo baque de São Chico em menos de dois anos. Os moradores ainda se recuperam do vendaval que devastou parte da cidade em março de 2017.

Possibilidade de novas empresas
O fechamento da Di Cristalli acelerou o processo da prefeitura em atrair novas empresas ao município. Aliás, esta é a esperança e a aposta das famílias quer perderam o emprego na semana passada. O prefeito de São Chico, Marcos Aguzolli (PP), garante que 12 novos empreendimentos devem se instalar no município nos próximos anos. Devem gerar 400 empregos diretos e faturamento superior a R$ 40 milhões. Um deles deve inaugurar ainda este ano, e vai garantir 60 vagas. O segundo, na área de laminados de madeira, está previsto para entrar em operação em janeiro de 2019 e vai empregar outros 60 trabalhadores.
— Além disso, estamos focados em trazer outra empresa do setor calçadista, pois temos mão de obra especializada neste segmento — aponta Aguzolli.
A fabrica da Ortopé atuou em São Chico por 22 anos. O secretário de Agricultura e Desenvolvimento Econômico, Rafael Marques, reforça que a prefeitura tentou negociar de todas as formas para que a Di Cristalli não encerrasse as atividades, mas não teve jeito. Se tentasse se manter, corria o risco de não conseguir pagar os direitos trabalhistas.
Aguzolli lembra, que o maior prejuízo foi o social, ou seja, o desemprego. No que se refere a arrecadação, a empresa representa um percentual baixo ao município - menos de 2%. A matriz da Di Cristalli está localizada em Três Coroas.
Os três pavilhões de 10 mil metros quadrados, onde funcionava a fábrica, são da União e administrados pela prefeitura. Estão disponíveis para quem quiser empreender por lá.
Segundo baque em pouco mais de um ano
Em pouco mais de um ano, a costureira Cleonice de Macedo Borges (foto acima), 49 anos, passou por dois sustos. Em março de 2017 perdeu a casa e tudo o que tinha nela no vendaval que destruiu parte de São Francisco de Paula. Com muito esforço, determinação e a ajuda dos vizinhos conseguiu reerguer a residência e há um mês voltou a morar em sua nova casa, ainda em fase de acabamento. O que ela não esperava era voltar a perder o sono em tão pouco tempo. O fechamento da fábrica de calçados Di Cristalli deixou ela e as duas filhas, Andrieli, 21, e Francieli, 16, sem trabalho.
– Mais um baque. Parece mentira. Não sei como vai ser, pois tenho o empréstimo da casa para pagar.
O sonho de colocar as cortinas novas nas janelas e ter um roupeiro novo em seu quarto também precisou ser adiado.
– A esperança é que outra empresa chegue à cidade em breve. Se não for assim, não vamos conseguir trabalho.